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 Sólon de Oliveira
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       Um "mestre" também na arte de interpretar!

Sólon de Oliveira nasceu em Cruzeiro em 25.12.1936. Filho de Eutímio Paula Oliveira e Ana Rosa Serpa (Os melhores da música - família Serpa - foto ao lado), ainda menino começou a cantar. Morava na Rua Afonso Pena, esquina com a Rua 5, e foi lá que começou a organizar shows e apresentar-se ao público por volta de 8 anos de idade.  

Improvisava palcos e cortinas entre as árvores dos quintais. Colocava cadeiras para o público e apresentava seus shows, musicais inspirados nos grandes sucessos da época: Carmem Miranda, Dalva de Oliveira e outros. Cantando e dançando arrancava muitos aplausos do público,  amigos e vizinhos que lotavam o ambiente e não faltavam às apresentações. Assim Sólon conquistou seus primeiros fãs.

Por volta de 9 anos seu pai foi trabalhar no interior fluminense e Sólon teve que mudar. Ficou algum tempo morando fora, até que um dia faleceu seu pai e logo em seguida sua irmã.  Sua tia Ya-Yá que morava em Cruzeiro foi buscá-lo e Sólon voltou, passou a morar com ela.

Logo integrou-se ao grupo de música que se reunia para cantar e tocar nas tardes e noites quentes e assim, acabou integrando o Grupo que ficou conhecido como Conjunto Musical da Baiúca, de onde mais tarde, originou-se o conhecido conjunto BIG NAIPE -foto-.

Sólon nos conta que sua família sempre foi pobre e um dia, com seu grupo foi convidado para cantar num programa da “Rádio Mantiqueira”, emocionado, correu para casa pra se aprontar para o show que deveria acontecer dali a pouco, no auditório da Rádio.  

Tomou banho correndo, se arrumou e se perfumou e na hora de calçar descobriu que seus sapatos não lhe cabiam mais nos pés, estava muito apertado. Não havia tempo de emprestar e nem dinheiro para comprar outro, então foi descalço. Subiu no palco um tanto constrangido, mas, a vontade de se apresentar, pela primeira vez naquele palco, logo fez com que ele esquecesse as dificuldades e a falta do calçado. Dominou a cena e foi um grande sucesso. 

Os músicos da “Baiúca” eram excepcionais, todos amigos, acostumados a cantar em grupo deram um show que agradou muito a todos. Calorosamente aplaudido, Sólon lembra que até hoje, o radialista Carlos Coelho se lembra do episódio e brinca perguntando se "hoje" ele está calçado,  olhando para seus pés.


Durante o dia trabalhava como ajudante de seu irmão e à noite e fins de semana passou a conviver no meio artístico da cidade. Cantou em muitos programas dos quais, não guarda fotos. O cachê era pequeno e não podia comprar os retratos.  

Tem inúmeras cartas e convites. Recebeu muitas medalhas e troféus em diversas competições. Apresentou-se no programa de Ary Barroso que era o mais rígido, o mais exigente na época. Esteve com Iara Sales no “Trem da Alegria” – Rádio Mairinck Veiga. Na Rádio Tupi no programa “Os Novatos”.

Conheceu e se apresentou com Cida Miranda, Adélcio Fioso, Aroldo de Almeida, Roberto Miller, Cléa Silva, Braz, Claudete Soares, Jair Alves e muitos outros. Muitos famosos ainda estavam procurando um espaço para mostrar sua arte e outros já começavam a aparecer no cenário musical brasileiro.

Lembra do Rei Roberto Carlos (foto a esquerda, acima) quando ainda batia na porta das rádios a espera de uma oportunidade e de quando ele, Sólon pagou-lhe o café com pão num bar ao lado da entrada da emissora. Guarda desse tempo uma foto inédita, dele ainda adolescente, que disponibilizamos aqui. Era costume os artistas andarem com fotos suas e autografarem para oferecer aos amigos para divulgar seus nomes.  

Eu saía a noite para me divertir e foi assim que comecei a cantar em “boites”. Até que quando dei conta,  estava cantando profissionalmente às 5ª.s, 6ªs. e sábados. As músicas da época eram: ... “ Não fala com preto"...... e músicas do gênero.  

Cantou com Tito Made ao piano. “Ele era muito calado”.... Em companhia  de diversos artistas, saía do Rio de Janeiro para apresentar-se em São Paulo. Iam  e voltavam de avião depois das apresentações. Vivia na noite. Comecei a cantar na noite com 21 anos. Fiquei uns dois anos cantando por lá.

“Um dia, quando minha mãe já estava muito doente,  eu resolvi vir pra Cruzeiro e ficar junto dela”. “Eu queria viver como todo mundo”. “Queria estudar, ter um trabalho, dormir a noite e acordar de manhã como fazem a maioria das pessoas”. 

No Rio tive contato com os profissionais da noite, da música e sabia como viviam, como escravos dos compromissos, dos programas, das gravadoras, dos fãs. Aquilo tudo me assustava muito. Valorizava a minha liberdade e aquele era um mundo que eu não queria pra mim. Não queria ser um profissional da música. Sempre gostei de cantar, de me apresentar mas sem compromisso.

Então, fiquei em Cruzeiro e resolvi voltar para a escola. Me formei professor (foto da formatura com a Tia Yá-Yá) e lecionei aqui em Cruzeiro durante treze anos, até o ano passado, em  2006,  quando me aposentei. Minha primeira classe como professor titular foi em São Paulo – Barra do Turvo no Vale da Ribeira fiquei um ano lá.

Depois fui lecionar na Serra da Bocaina, numa escola rural que pertencia a São José do Barreiro. Lá eu dormia num paiol de milho. Andava mais de 12 km para lecionar. Lecionei também em Rio Bonito, numa escola rural. Em São Paulo fui professor de Estudos Sociais. Depois, mais tarde, entrei na Faculdade de Geografia.

Tive uma passagem por São Paulo como cantor, aproximadamente com 21 anos de idade, cantava na noite. No “Bexiga” que é o bairro Bela Vista, na Consolação, no Mário’s Drink, no Largo do Arouche, na Vila Mariana ... Fiquei uns dois anos lá, mas, quando minha mãe ficou doente eu vim embora para Cruzeiro de uma vez. Ela precisava de companhia e eu resolvi ser professor.

Em São Paulo cantava muita MPB e no Rio era chamado de “Paulistinha”.  Me lembro que aos 25 anos, mais ou menos, voltei ao Rio. Participei do concurso “A Voz de Ouro”. Lembro que aluguei um terno azul marinho, muito elegante e fui. Cantei sem saber direito quais eram as regras do concurso e acabei ficando em 2º lugar. Estavam na lista eu, José Carlos e uma moça, a Marilene Costa. A orquestra era do Panicalli. Ela não aparecia no show, ficava no fundo meio ao lado.. Lá estavam também Emilinha Borba (foto ao lado), Cauby Peixoto, Angela Maria, Demétrio Costa... Bem, voltei para Cruzeiro e um dia, começaram a ligar pra cá me chamaram muitas vezes, mas eu não fui. Sabia como era a vida do profissional da música e decidi pela carreira de professor.

Cruzeiro, na década de 40 era culturalmente muito desenvolvida e agitada. Tinha músicos que se tornaram famosos, cantores e muitos atores de teatro. Tenho boas recordações:  Eu cheguei a cantar com Sergio Reis e a Índia no Cine Grêmio, na Rua 6. Existiam quatro salões de baile com música ao vivo: Além do Cine Grêmio existia o Salão Cruzeiro do Sul que ficava na esquina da Rua 7 com a Praça Antero Neves Arantes. O Salão Cruzeiro do Nortes – na Rua 1;  o Salão do Cine Ideal em frente a Igreja de Sta. Cecília. Note, todos com música ao vivo. Cruzeiro era uma cidade muito animada.
 Sólon no Cine Odeon  

De seresta eu participo desde menino. Andava com o pessoal nas serenatas pelas Ruas de Cruzeiro carregando os instrumentos e ajudando meu pai. Depois das Rádios , do Rio de Janeiro e São Paulo, vim novamente encontrar os seresteiros aqui, na "Casa do Seresteiro", na seresta do "Museu Major Novaes", na "Acap". Tenho cantado no “Poit do Espeto” do João Dirceu, às sextas-feiras.

Sólon lembra ainda quando cantou com  Gal Costa participando da inauguração do Cine Meyer, no Rio de Janeiro e com Nelson Gonçalves, na Boite Fobus, também no Rio. Esteve com Luiz Gonzaga várias vezes (foto à direita - autografada para Sólon). 

Disse que voltou a encontrar Roberto Carlos um dia, num teatro onde foi para rever os amigos. “Aí ele já estava fazendo a Jovem Guarda e conversamos no camarim”. “Ele queria me chamar no palco, me disse para  ficar por ali, mas eu fui embora”. ” Ele queria mesmo me apresentar no programa, me agradecer o café com pão daquela vez,  mas eu “não queria saber de nada daquilo”, me despedi e saí quando ele entrou em cena.

Gosto da arte, sempre gostei de dançar, representar, cantar, mas tudo sem compromisso e acho que muitos que se profissionalizaram na música e tinham recursos financeiros poderiam ter feito mais por Cruzeiro, mas deixaram quase morrer a nossa identidade cultural.

                                                   (Foto: na Casa do Seresteiro - Cruzeiro) 

"Tanta gente de valor acabou saindo daqui por falta de apoio... Os que podem nada fazem. Somos uma cidade com vocação cultural, musical, mas quem dirige Cruzeiro nunca teve sensibilidade para perceber isso e só valorizam os que vem “de fora”. Nunca houve um reconhecimento sincero. Fico triste, mas, fazer o quê?  

Tem seresteiro que resolveu pisar na cabeça dos companheiros para alcançar a fama e o reconhecimento público. Com dinheiro, gravou, mas, nunca estendeu a mão para outros e nem teve sensibilidade para contribuir de qualquer forma, com a música em Cruzeiro... Isso me entristece, mas continuo cantando, sem compromisso, como nos primeiros anos de minha infância e vou vivendo ... 

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