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                              Ideologia e Sistemas Políticos II

8. Imperialismo

A possibilidade de transformação de ferro em aço, novas fontes de energia e o surgimento de motores elétricos e a combustão marcaram a Segunda Revolução Industrial. A Primeira, apesar de ter por característica o livre comércio, já carregava as sementes que produziriam a concentração de capital.  

O advento dessas modificações decorreram num aumento da produção industrial com os mercados nacionais não conseguindo absorver os excedentes. O mundo capitalista passava por uma crise. Monopólios, grandes empresas que dominam um ramo do mercado, levaram à superprodução.
Esses monopólios formaram trustes, fusão de empresas em uma única, que passaram a controlar todas as fases da produção. Da obtenção da matéria-prima à venda do produto final.

Também surgiram os cartéis. Nestes os monopólios se unem, estabelecendo preços que agradem a ambos, qualidade do produto ou até mesmo a eliminação de algum concorrente. Nesse mercado capitalista sufocante pequenas e médias empresas são logo abocanhadas pelos monopólios. Sobrevive quem tem maior capital.  

A partir de 1873 os mercados nacionais não mais absorviam tudo o que as empresas produziam. Era a crise capitalista. O que fazer então? Exportar capitais para os países não industrializados, ou seja, neocolonizar.  

Imperialismo é o nome dessa nova fase do capitalismo. Os imperialistas investiam fazendo empréstimos baseados em estratosféricas taxas de juros aos países dominados ou então tornavam-se donos de bancos, fábricas, plantações e minas dos países colonizados dominando-os política, militar, administrativa e economicamente.

Esses mercados seriam fornecedores de matérias-primas e consumiriam a produção industrial de seus dominadores. Nações perderam e ainda perdem sua soberania e ficam sob domínio estrangeiro.   

Os monopólios, as multinacionais hoje, roubam, sugam todas as riquezas naturais das "colônias". Mas um dilema atormentava as potências mundiais. Afinal, quem exploraria quem? Para resolver essa crucial questão, em 1885 reuniram-se 14 países europeus mais os EUA. A Conferência de Berlim, como ficou conhecida, cortaria a África dividindo-a entre os 15 parasitas.  

A Alemanha e a Itália, que se unificaram relativamente tarde, conseqüentemente sem tanto poder político não tiveram as partes desejadas na partilha. Não gostaram da idéia e as "potências" mundiais resolveram essa questão mais tarde, na I Guerra Mundial. Desse modo decidiram o futuro da África.  

Os países latino-americanos já colonizados sofreram a neocolonização, onde, além de "doar" matéria prima à metrópole foram obrigados a consumir os produtos industrializados que vinham do exterior. Não possuíam (e quase a totalidade ainda não possui) liberdade política, econômica, social e individual.  

Sem qualquer consulta aos africanos, latino-americanos e asiáticos e não se preocupando com as vidas destes, os arrogantes colonizadores tomaram conta da África como se estivessem fazendo um favor.  

Sob a prerrogativa de levar a tecnologia, a industrialização, o desenvolvimento e a civilização para os países "atrasados" os imperialistas os exploraram até sua morte. Mas muitos não aceitaram essa abominável situação de modo passivo.

Lutaram duramente por suas vidas, dignidade e direitos. Suaram sangue, lutaram heroicamente. Porém não podiam combater as metralhadoras, canhões e fuzis imperialistas. Cidades eram queimadas, mulheres estupradas, crianças assassinadas, homens explorados e torturados. SALVE A CIVILIZAÇÃO!!!  

A economia de subsistência e comunitária foi substituída por plantacões, latifúndios monocultores extrativistas exportadores exploradores. Tudo o que era colhido ia para os colonizadores. Milhões de pessoas morreram lutando apenas para poder..... viver livremente.  

Mas a busca capitalista pelo lucro incessante não permite tão singelo anseio. As potências capitalistas são ricas hoje graças a décadas de vexaminosa exploração sobre os países em grau menor de industrialização.  

Até mesmo sobre o Brasil os tentáculos imperialistas atuaram. Ainda nos dias de hoje temos nossos recursos sugados pelas multinacionais com o consentimento do nosso governo federal.

9. Integralismo

Na primeira metade dos anos 30, a política brasileira é marcada pela polarização entre grupos de esquerda e a direita integralista. A Europa dos anos 20 vê o crescimento dos partidos comunistas e fascistas.  

No Brasil, o fascismo se chamou Integralismo.
 

 Liderada por Plínio Salgado, a Ação Integralista Brasileira defendia um Estado forte, e tinha no anticomunismo uma de suas bandeiras. Os integralistas usam uniformes verdes e braçadeiras tendo o seu símbolo, a letra grega Sigma, imitando o estilo dos fascistas italianos. Fazem a saudação com o braço erguido e gritando ANAUÊ, palavra indígena, de origem Tupi, que quer dizer:  "Você é meu irmão".  

Em 1935, é formada a Aliança Nacional Libertadora. Comunistas, socialistas, sindicalistas, membros do movimento tenentista e intelectuais se reúnem na frente popular contra o integralismo. Defendem o cancelamento da dívida externa, a nacionalização de empresas estrangeiras, a garantia das liberdades individuais e a reforma agrária. Luís Carlos Prestes é escolhido presidente de honra.  

Em julho, Prestes acusa o governo Vargas de caminhar para uma ditadura fascista e lança a palavra de ordem: " todo poder à A.N.L. - Aliança Nacional Libertadora". Dias depois, o governo fecha a Aliança e prende vários de seus membros. Na ilegalidade, os comunistas da ANL tomam a frente do movimento e desencadeiam uma revolta.  

Explodem rebeliões em Natal, Recife e Rio de Janeiro, que são controladas pelo governo. Milhares de pessoas são presas em todo o Brasil. Ao longo de 1936, as prisões viram rotina. Apesar das eleições presidenciais, marcadas para o início de 1938, muita gente desconfia das intenções de Getúlio Vargas, como ilustra essa marchinha: "...na hora H, quem vai ganhar é o seu Gegê ..."

Em 1937, o governo denuncia o Plano Cohen, supostamente a trama de uma revolução comunista. Mas o Plano Cohen, na verdade, era uma farsa montada pelos próprios homens de Vargas, como se soube mais tarde. Semanas depois, Vargas dá um golpe e implanta o Estado Novo. Um regime político que incorpora muitas das idéias dos integralistas. Tropas cercam o Congresso.

Vargas manda fechar todas as agremiações políticas. Inclusive dos integralistas, que o apoiavam. 

Alguns meses depois, os integralistas tentam uma sublevação que é abafada pelo governo. Vários revoltosos são fuzilados. A repressão do Estado Novo esmaga as oposições e Getúlio Vargas fica no poder até 1945. O escritor Graciliano Ramos escreveu sobre o Estado Novo: "O que me atormenta não é o fato de ser oprimido. É saber que a opressão se erigiu em sistema" .

Fonte:
www.tvcultura.com.br

10. Liberalismo

A sociedade capitalista foi gestada em meio à dissolução da ordem feudal. Inicialmente as utopias construídas a partir da idéia de abolição da servidão preconizavam uma sociedade organizada sob a égide do interesse coletivo, de cunho socialista.

No entanto, as revoltas populares inspiradas nessa idéia foram derrotadas (das guerras camponesas européias à liquidação dos Levellers na Inglaterra) e acabou se implantando um processo diametralmente oposto: a eliminação das terras comunais através dos cercamentos e sua transformação em propriedade.

Como resultado desse processo, os servos foram libertados dos liames da servidão e da terra de onde tiravam seu sustento. Para eles, liberdade significava vender livremente sua força de trabalho para os detentores dos meio de produção, tornando-se assalariados.

Para os donos das terras –à época, o principal meio de produção–, liberdade era dispor de sua propriedade como bem lhe aprouvesse. A nova organização social baseava-se nesse duplo conceito de liberdade: liberdade do trabalho –assalariamento– e livre uso da propriedade dos meios de produção – capital.

Após a revolução burguesa (Inglaterra, 1640-60) as instituições foram sendo adaptadas à nova organização baseada na propriedade e um conjunto de idéias foi produzida para justificar a nova ordem (Locke, 1690, Smith, 1776), ressaltando sua diferença da anterior (a servidão).

Dos pilares constitutivos da ordem capitalista, propriedade e liberdade, foi esse último que deu nome a esse ideário. Liberalismo tornou-se a ideologia da sociedade capitalista, ou burguesa. Liberalismo pode ser resumido como o postulado do livre uso, por cada indivíduo ou membro de uma sociedade, de sua propriedade (o fato de uns terem apenas uma propriedade: sua força de trabalho, enquanto outros detêm os meios de produção não é desmentido, apenas omitido).

Nesse sentido, todos as homens são iguais, fato consagrado no princípio fundamental da constituição burguesa: todos são iguais perante a lei, base concreta da igualdade formal entre os membros de uma sociedade. Em uma extensão dessa, uma segunda idéia propõe o bem comum (o Commonwealth), segundo a qual a organização social baseada na propriedade e na liberdade serve o bem de todos. (Incidentalmente, não havendo antagonismo entre classes sociais, a ação pode ser orientada pela razão, donde racionalismo.)

Essa é a cerne da proposição ideológica, que visa a dominação consentida dos trabalhadores, através da operação de identificar o interesse da classe dominante (a manutenção da ordem social vigente) com o interesse da sociedade como um todo -- a nação. Adam Smith deu um suporte ao enaltecimento das liberdades individuais (sem querer com isso desqualificar o Estado como representante do bem comum, como seria feiro posteriormente) na idéia que as ações individuais movidas exclusivamente pelo interesse próprio seriam guiadas infalívelmente por uma 'mão invisível' no sentido da realização do bem comum.

Um dos últimos ‘clássicos’ a recapitular a doutrina liberal é von Mises da escola de Viena, em uma reação à onda de revoluções socialistas do início do século passado (Mises, 1927). Depois disso o liberalismo ficou em segundo plano ofuscado pela social-democracia, para renascer no ocaso desta no final do século como neo-liberalismo.

Neoliberalismo

O capitalismo é movido pela tendência à generalização da forma-mercadoria, a máxima ampliação possível do âmbito da produção de mercadorias como proporção do produto da sociedade como um todo. Liberalismo   era a forma ideológica precípua no primeiro estágio, predominantemente extensivo  , do capitalismo caracterizado por elevados ritmos de expansão da produção. A exaustão do primeiro estágio de desenvolvimento deu lugar ao estágio de desenvolvimento intensivo.

Nesse, em lugar de rápida expansão, o processo predominante é o progresso técnico, única fonte de expansão da produção, vale dizer, de acumulação capitalista. Liberalismo dá lugar à social-democracia como forma política e ideológica preponderante desse estágio, que tem como um de seus suportes a elevação dos níveis de reprodução da força de trabalho, necessário tanto para acompanhar os requisitos de qualificação da forá de trabalho impostas pela evolução das técnicas de produção, quanto para assegurar mercado de escoamento da produção. Concomitantemente amplia-se o ãmbito de intervenção do Estado na organização da produção.

O estágio intensivo entra por sua vez em crise após a exaustão do 'boom' da reconstrução pós-guerra no final da década de 1960. Na dialética da forma-mercadoria que regula o capitalismo, o crescimento paulatino da intervenção do Estado, já prenuncia um problema estrutral para o capitalismo, mas essa intervenção cresce particularmente acelerado no estágio intensivo, a ponto de colocar a própria primazia da forma-mercadoria (vale dizer, o próprio capitalismo) em xeque.

O âmbito do mercado -refletido também em superprodução, recessão ou queda da taxa de lucro - vai se retraindo inexoravelmente. Neoliberalismo é a resposta à crise do capitalismo decorrente da expansão da intervenção do Estado, antagônica à forma mercadoria, ainda que necessária para sustentá-la.

Após alguns anos de diagnóstico e de tateações, o n~ toma forma no final da década de 1970 como 'Reaganismo' e 'Thatcherismo', e consiste essencialmente em uma tentativa de recompor a primazia, e recuperar o âmbito, da produção de mercadorias. Renegando as formas social-democratas que acompanham o estágio intensivo, nega a crise estrutural e histórica do capitalismo e se volta às origens desse, do tempo do liberalismo -- daí o nome de neo-liiberalismo. 

As políticas neoliberais perseguidas ao final dos anos 70 e no começo dos 80 por parte dos governos nacionais dos países centrais constituem precisamente uma tentativa (crescentemente desesperada) de 'remercadorização’ de suas economias. (O Estado capitalista tem que tentar isso, uma vez que assegurar as condições da produção de mercadorias é sua própria razão de ser, mesmo se, assim fazendo, Ihe escapa inteiramente o fato de que a negação da negação da forma-mercadoria não pode restabelecer essa última: privatização não é o mesmo que mercadorização.)

O arsenal do neoliberalismo inclui o farto uso de neologismos que procuram destruir a perspectiva histórica dando novos nomes a velhos processos ou conferir respeito a pseudoconceitos  Surgem, assim, o pós-moderno, o desenvolvimento sustentável. , os movimentos sociais urbanos, a exclusão social, os atores (sociais), as ong-s, a globalização , o planejamento estratégico..., que procuram encobrir, ao invés de revelar, a natureza do capitalismo contemporâneo.

11. Populismo

                                                        por Emerson Urizzi Cervi

Reunindo sete artigos sobre o populismo1 para mapear a trajetória social e acadêmica do conceito sobre um fenômeno que parece estar sempre preparado para ressurgir, o livro O populismo e sua história - debate e crítica, organizado pelo historiador Jorge Ferreira, questiona o uso tradicional do termo como categoria explicativa da política brasileira.

No conjunto os textos conseguem dar conta das múltiplas facetas do populismo clássico no Brasil e na América Latina, deixando a desejar nas discussões sobre o neopopulismo - apesar de o fenômeno ser citado em alguns artigos do livro. De fato, o populismo é um objeto de estudo científico sem uma formulação totalmente acabada.

Em parte pelas paixões a favor ou contra e em parte pela diversidade das ocorrências históricas do populismo, o que resulta em uma diversidade de abordagens. Classicamente, existem três grandes formas de abordagens analíticas do populismo. Ele pode ser estudado como um fenômeno de origem social, como uma forma de governo ou como uma ideologia específica (WORSLEY, 1973).

Em qualquer de suas formas, o populismo necessita de alguns elementos básicos para se concretizar: independente das particularidades das ocorrências, ele surge quando há uma massificação de amplas camadas da sociedade que desvincula os indivíduos de seus quadros sociais de origem e os reúne na massa, relacionados entre si por uma sociabilidade periférica e mecânica; quando há uma perda da representatividade e da exemplaridade da classe dirigente; quando há a presença de um líder dotado de carisma de massas (WEFFORT, 1989).

A obra agrupa diversas formas de abordagem sobre o populismo brasileiro do período compreendido entre 1946 e 1964. No Brasil, apesar de o fenômeno populista ser tardio quando comparado a outros países da América Latina, o tema tem suscitado intensos debates desde os anos 50. Se, por um lado, distintas formas de abordagem do fenômeno podem gerar distorções nas análises, por outro, o debate (até mesmo quanto à utilização dos termos "populismo" ou "trabalhismo" para melhor identificar o período da história política brasileira que vai de 1946 a 1964) mostra como é rico de interpretações e abordagens as diversas ocorrências populistas brasileiras, principalmente nessa quadra histórica.  

POPULISMO E HISTÓRIA

O sentido de "populismo" que passou para a história tem uma carga semântica altamente negativa. Os políticos populistas são estigmatizados como enganadores do povo, por suas promessas jamais cumpridas e como aqueles capazes de articular retórica fácil com falta de caráter (GOMES, 2001). O sentido negativo não diz respeito apenas à figura do político populista, mas ao fenômeno como um todo, pois só é possível a eleição de um populista por eleitores que não sabem votar ou que sempre se comportam de maneira dependente, como se estivessem à espera do "príncipe encantado". Mas nem sempre foi esse o significado de populismo.

No início do século XX, lembra Jorge Ferreira, ser considerado populista no Brasil era um elogio. Em pesquisas em arquivos de jornais, o autor encontrou algumas menções a "populismo" e "populista" em sentido positivo, utilizadas em discursos dos próprios políticos. Populista, no caso, era aquele que estava próximo do povo, ouvia suas aflições e conseguia compreendê-lo. Sentido comum em sociedades nas quais as elites políticas encontram-se distante das massas: onde não há canais de interlocução convencionais, o povo busca alternativas para ver atendidas suas demandas.

Quando os populistas passaram a ocupar espaço na política, vencendo as eleições contra liberais e conservadores, o conceito começou a receber uma conotação pejorativa. É verdade que politicamente o populismo encontrou uma certa funcionalidade em vários países latino-americanos ao servir de alternativa ao risco de uma onda comunista. Nas primeiras décadas do século XX, o populismo representava a promessa de um Estado forte e personalista, aliado a uma legislação social e a uma liderança carismática, que tinha o objetivo de combater o perigo do comunismo no continente (CAPELATO, 2001).

Essa alternativa foi adotada como barreira ao comunismo em países como México e Argentina, entre outros, principalmente após a Revolução Russa de 1917. Com o afastamento do risco comunista, a presença de lideranças carismáticas marginais às elites políticas tradicionais à frente de Estados fortes passou a interferir de maneira negativa nos interesses dessas elites. Foi a partir daí que o conceito de populismo passou a receber uma carga pejorativa na esfera política, ganhando status negativo no senso comum.

O resultado foi uma satanização dos populistas e de seus adeptos, que terminou moldando a visão liberal, defendida por políticos que faziam parte do status quo combatido pelo discurso populista, a partir dos anos 40 no Brasil. Para eles, o populismo é um fenômeno vazio de conteúdo. Consideram a população incapaz de distinguir entre propostas sérias e simples demagogia.

Um parlamentar liberal, lamentando os resultados das eleições de 1945 para seu partido, a UDN, dá os seguintes conselhos sobre o tratamento dado pelos políticos aos eleitores: "evite por todos os meios obrigar o povo a refletir. A reflexão é um trabalho penoso a que o povo não está habituado. Dê-lhe sempre razão. Prometa-lhe tudo o que ele pede e abrace-o quanto puder" (apud WEFFORT, 1989, p. 24).

Essa definição liberal leva em conta apenas aspectos exteriores do fenômeno, como a demagogia e a emocionalidade. Jorge Ferreira ressalta o mesmo ao afirmar que "liberais e autoritários, de direita ou de esquerda, diagnosticaram que os males do país provêm de uma relação desigual, destituída de reciprocidade e interlocução: a uma sociedade civil incapaz de auto-organização, 'gelatinosa' em algumas leituras, e uma classe trabalhadora 'débil', impõe-se um Estado que, armado de eficientes mecanismos repressivos e persuasivos, seria capaz de manipular, cooptar e corromper" (FERREIRA, 2001, p. 62).

Para esse autor, o resultado desse processo, que terminará por cristalizar o conceito dominante de populismo no Brasil, foi uma tendência em culpar o Estado e vitimar a sociedade. É assim que o conceito de populismo inicia sua trajetória acadêmica no Brasil, transformando-se a partir dos anos 50 em objeto de pesquisa das Ciências Sociais brasileiras. Segue sua trajetória até meados dos anos 60, quando o golpe militar interrompe a chamada "democracia populista".

É nesse momento que correntes teóricas passam a acreditar no fim do populismo como alternativa política nacional. Assim que as ditaduras militares em toda a América Latina começaram a ceder espaço para as democracias, as eleições diretas transformaram-se novamente em instrumento de manifestação do descontentamento das massas em relação às elites políticas tradicionais.

As lideranças carismáticas, carregadas de emocionalidade, voltam à cena com suas promessas de solução fácil para todos os problemas. Essas lideranças, não necessariamente nascidas de transformações sociais profundas (a evolução de uma sociedade tradicional para uma moderna, por exemplo), passaram a ser chamadas de "neopopulistas". Apesar da importância da discussão histórica sobre o uso do conceito de populismo como categoria explicativa da política brasileira, falta ao livro de Jorge Ferreira uma aproximação das características do populismo com o neopopulismo, e uma análise mais aprofundada deste último.

Por mais paradoxal que possa parecer, há um traço democratizante no que diz respeito às elites políticas neopopulistas. As elites políticas tradicionais perdem a capacidade de representação devido aos baixos índices de renovação interna, na maioria das vezes. Na América Latina, elas fecham-se em oligarquias nas cúpulas partidárias que, em última análise, definem aqueles que podem ou não ser candidatos. Não há uma cultura de ascensão realmente democrática de novas lideranças às estruturas partidárias.

Essa liderança carismática, marginal ao sistema partidário, possibilita uma renovação - sempre parcial - da classe política quando tem sucesso eleitoral. Essa renovação de parte da elite política é o que garante ao neopopulismo um caráter democratizante. Na América Latina, o neopopulismo dos anos 80 e 90 passou a ser uma alternativa para a crise de representação política.  

O POPULISMO E AS CIÊNCIAS SOCIAIS NO BRASIL

Os estudos sobre o populismo no Brasil podem ser divididos em duas grandes fases já institucionalizadas, além de uma terceira que trata do neopopulismo pós-ditaduras militares. Na primeira fase de estudos, entre os anos 50 e 60, o populismo era considerado uma espécie de desvio da evolução "natural" da sociedade brasileira em direção ao socialismo e ao enraizamento do sindicalismo operário. Esse desvio populista teria acontecido durante o processo de transformação da sociedade tradicional em moderna, ou de economia eminentemente rural em urbana, a partir dos anos trinta.

Trata-se da fase de explicações estruturais para o populismo, na qual se considera que a passagem de sociedade tradicional para sociedade moderna ocorreu paralelamente a um rápido processo de urbanização e de industrialização, mobilizando as massas populares. Uma vez mobilizadas, elas exigem participação política e social, atropelando, com suas pressões, os canais institucionais clássicos. A solução dos problemas gerados pelas transformações estruturais da sociedade deram-se por golpes militares ou revoluções nacional-populares, sendo as últimas nomeadas de populismo (idem, 2001).

Autores como Gino Germani, Torcuato di Tella e Octávio Ianni2, vinculados à "teoria da modernização", consideravam o brasileiro saído da sociedade rural muito individualista. Ao ser transferido para centros urbanos, ele teria mantido o individualismo, abrindo espaço para as relações personalistas e clientelistas do populismo. Citando Ianni, Ferreira lembra uma das características recorrentes dessa primeira fase de estudos: "por um lado há o surgimento de populações recém-chegadas do mundo rural que não dispõem de condições psicossociais ou horizonte cultural para um adequado comportamento urbano e democrático, por outro, a sociedade carece de instituições políticas sólidas, a exemplo de um sistema partidário" (ibidem).

Em suma, o enfoque sobre o comportamento dos trabalhadores urbanos como sendo determinado pela origem rural em um contexto de transição de uma economia tradicional e de participação política restrita para uma economia de mercado com participação política ampliada, faria que as populações urbanas fossem marcadas por individualismo, passividade e dependência do Estado. O resultado foi o surgimento do populismo. Com o tempo apareceram as inconsistências da teoria da modernização e a abordagem estrutural passou a ser cada vez mais criticada.


Apesar disso, durante décadas perdurou a idéia de que os indivíduos recém-chegados ao meio urbano teriam contaminado os antigos trabalhadores urbanos, em sua maioria imigrantes, com idéias tradicionais e individualistas, gerando o ambiente propício para o surgimento de movimentos populistas. Essa primeira corrente teórica perdurou até o fim dos anos 60 e início dos anos 70. Na segunda geração de estudos, entre os anos 70 e 80, outros elementos foram introduzidos pelos pesquisadores na tentativa de entender o fenômeno populista.

As características dos indivíduos cederam espaço para fatores como a opressão e manipulação por parte do Estado, transformando-os em variáveis explicativas importantes para o sucesso de lideranças populistas. Em O populismo na política brasileira, de Francisco Weffort, o argumento central é a imposição do populismo pela conjugação da repressão estatal, manipulação política e satisfação de algumas demandas dos assalariados.

Dessa forma, as matrizes teóricas das análises de segunda geração sobre o populismo distanciam-se das da primeira geração, apesar de os objetos de estudo continuarem ligados a períodos de transformação estrutural da sociedade tradicional em moderna. Para Weffort, pode-se dizer que o populismo é o produto de um longo processo de transformação da sociedade brasileira, instaurado a partir da Revolução de 1930 e que se manifesta de uma dupla forma: como estilo de governo e como política de massas.

É sob essas condições que surge o "Estado de compromisso", em que categoria "manipulação" não é proposta de maneira unidirecional, mas possuindo uma ambigüidade, por ser tanto uma forma de controle do Estado sobre as massas quanto uma forma de atendimento de suas demandas. "É interessante observar que Weffort chega mesmo a sugerir a substituição de manipulação por aliança como categoria mais precisa para o que deseja situar" (GOMES, 2001, p. 34).

Nessa segunda fase dos estudos percebe-se um enfraquecimento da categoria "dominação" por parte da liderança e a saliência da autonomia das massas, ainda que muitas vezes apenas potencial3. A partir do final dos anos 80 e início dos anos 90, inicialmente em outros países latino-americanos que não o Brasil, abre-se espaço para uma nova matriz de análise sobre as recentes ocorrências populistas.

Em função das diferenças que existem entre esse novo fenômeno e as experiências anteriores, ele passa a ser chamado de neopopulismo. Nesse tipo de abordagem predomina a tese de persuasão das massas por uma liderança carismática. A idéia original de opressão não se aplica mais por se tratar de ocorrências em democracias e a manipulação, por não ser absoluta, dá lugar à persuasão. O neopopulismo é beneficiado por uma "personalização da política", própria das sociedades que alimentam uma "autonomização" da personalidade individual (ibidem).  

POPULISMO OU TRABALHISMO


Entre os vários debates acadêmicos sobre o conceito de populismo, um diz respeito à pertinência do uso do termo. Talvez o mais apropriado seria chamar a democracia brasileira de 1946 a 1964 de "trabalhista" ao invés de "populista". Essa discussão nominalista parece não ter fim. Os artigos selecionados para o livro O populismo e sua história permitem identificar que populismo e trabalhismo são duas faces — portanto distintas — de uma mesma moeda.

Os textos que tratam do tema a partir da noção de populismo dizem respeito principalmente à forma de relacionamento de uma liderança carismática com as massas, ou da substituição de elites políticas em crise por novos dirigentes com capacidade de relacionamento direto com as camadas populares. Já os artigos que abordam as questões do trabalhismo brasileiro dizem respeito diretamente à análise de uma formatação específica do Estado brasileiro e de suas estruturas de relacionamento com a sociedade civil, entre elas os sindicatos.

O tema do trabalhismo está ligado diretamente à análise de um tipo específico de Estado, o chamado "Estado de compromisso". O maior símbolo da democracia trabalhista brasileira é o próprio PTB, fundado em 1945, que estabelecia como metas a obtenção e ampliação dos direitos trabalhistas, garantia de emprego, adoção de política de qualificação do trabalhador, extinção do latifúndio improdutivo e incentivo ao cooperativismo econômico, entre outros (NEVES, 2001). Assim como a "democracia populista", o Estado trabalhista foi contraditório. Ele reuniu dirigismo, paternalismo e possível autonomia para os trabalhadores brasileiros.


Sem dúvida, o Estado trabalhista absorveu em grande parte as demais organizações trabalhistas, principalmente os sindicatos. Os combativos sindicatos urbanos das duas primeiras décadas do século XX cederam espaço a uma estrutura sindical corporativista que passou a atuar no controle e desmobilização do movimento operário, responsável pelo fenômeno do peleguismo e pela burocratização dos sindicados, que foram convertidos em elemento de conciliação de conflitos (PESSANHA & MOREL, 2001).

Por outro lado, o corporativismo, apesar da dimensão de exclusão e controle, trouxe também o reconhecimento público e um espaço de participação dos trabalhadores urbanos organizados, que passaram a existir de fato. Independentemente dos nomes, além do resgate histórico do debate e das diferentes fases de pesquisa sobre o populismo no Brasil, o livro organizado por Jorge Ferreira oferece outra importante contribuição (em nossa opinião a mais importante) ao debate: ele demonstra que o populismo não foi vencido pelo desenvolvimento da sociedade.

Continua presente na política brasileira, que ainda preserva resquícios da dependência de lideranças fortes e da ausência de instituições formais que possam representar os interesses sociais de maneira impessoal e não clientelista. O livro mostra como as teses sobre a possível superação do populismo pela sociedade brasileira, surgidas principalmente no final dos anos 60, não se sustentam.

O populismo como fenômeno político continua latente nas sociedades modernas. Consideramos a atualização do termo populismo em neopopulismo e a necessidade de retomada dos debates sobre o tema de fundamental importância porque a política na sociedade moderna oferece condições ideais para o sucesso de neopopulistas. O que são a mediatização das esferas públicas e a personalização das campanhas políticas para ficar em apenas dois exemplos, senão elementos favoráveis ao surgimento do neopopulismo?

Ocorrências históricas em vários países latino-americanos nos anos 80 e 90 têm desmentido a tese do processo de evolução contínua da organização política. Apesar da consolidação do Estado nacional, a cultura política personalista e a incapacidade das elites em atender demandas sociais, somadas às condições citadas anteriormente, têm recriado as condições sociais necessárias para os fenômenos neopopulistas, em uma espécie de movimento pendular da história.

A crise que propicia o sucesso das propostas e lideranças neopopulistas deixou de ser gerada por transformações sociais profundas; trata-se de uma crise da capacidade de representação das elites (que chegaram ao poder através do voto popular) em função do não-cumprimento de muitas das promessas da democracia. Em especial, a promessa do atendimento às demandas populares emergenciais.

O neopopulismo tem se legitimado pela descrença que atinge as massas; ele beneficia-se da "fadiga cívica" frente ao Estado, aos partidos políticos e às lideranças tradicionais; acaba beneficiando as lideranças marginais que defendem soluções inovadoras definindo-se como contrárias ao sistema vigente (JIMENEZ, 1997). É uma forma que as massas encontram para demonstrar insatisfação com a moderna democracia — portanto, não se trata de massas passivas e manipuláveis, mas agentes da história. Por conta disso, tão importante quanto rediscutir os aspectos do debate clássico sobre o populismo no Brasil é permitir que se coloque o tema — atualizado — como objeto de novos estudos.

Emerson Urizzi Cervi ( ecervi@netbank.com.br) é mestrando em Sociologia (Sociologia Política) na Universidade Federal do Paraná (UFPR), Professor de Ciência Política na Faculdade Internacional de Curitiba (FACINTER) e Professor da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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REIS FILHO, D. A. 2001. O colapso do colapso do populismo ou a propósito de uma herança maldita. In : FERREIRA, J. (org.). 2001. O populismo e sua história - debate e crítica. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira.

SILVA
, F. T. & COSTA, H. 2001. Trabalhadores urbanos e populismo : um balanço dos estudos recentes. In : FERREIRA, J. (org.). 2001. O populismo e sua história - debate e crítica. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira.

WEFFORT
, F. 1989. O populismo na política brasileira. 4ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

WORSLEY, P. 1973. O conceito de populismo. In: TABAK, F. (org.). Ideologias - populismo. Rio de Janeiro: Eldorado. _________________________________________________________________________ 

1 Os textos O populismo e as ciências sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito, de Ângela de Castro Gomes, Trabalhadores urbanos e populismo: um balanço dos estudos recentes, de Fernando Teixeira da Silva e Hélio da Costa, e O nome e a coisa: o populismo na política brasileira, de Jorge Ferreira tematizam o modo pelo qual o conceito de populismo se formou na sociedade e sua história na academia brasileira. Também se aborda o populismo como um fenômeno social complexo e multifacetado em Populismo latino-americano em discussão, de Maria Helena Rolim Capelato e O colapso do colapso do populismo ou a propósito de uma herança maldita, de Daniel Aarão Reis Filho. Discute-se ainda o Estado populista brasileiro e sua relação com a sociedade civil em Trabalhismo, nacionalismo e desenvolvimentismo: um projeto para o Brasil (1945 a 1964), de Lucília de Almeida Neves, e Classe trabalhadora e populismo: reflexões a partir de duas trajetórias sindicais no Rio de Janeiro, de Elina G. da Fonte Pessanha e Regina Lucia M. Morel. O livro organizado por Jorge Ferreira reúne artigos escritos em momentos distintos, alguns especificamente para a obra, como o do próprio Ferreira e outros escritos antes, como o de Ângela Castro Gomes, que fôra apresentado em congresso internacional em 1996 e publicado posteriormente na Tempo, revista do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, em 1996.

2 Em 1953, intelectuais como Hélio Jaguaribe, Alberto Guerreiro Ramos, Cândido Mendes de Almeida, Hermes Lima, Ignácio Rangel, João Paulo de Almeida Magalhães, que participaram da fundação do Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP) e que começaram a colaborar na revista Cadernos do nosso tempo, fizeram circular vários artigos baseado nessa mesma abordagem inicial do populismo (GOMES, 2001).

3 Em um dos artigos do livro, Fernando Teixeira da Silva e Hélio da Costa afirmam que "Weffort foi um dos teóricos que apresentou a classe operária como sujeito capaz de ação própria, auto-organização e de fazer escolhas com certo grau de independência política. [...] Ele afirmou que o movimento operário não pode ser visto apenas como dependente da história da sociedade, mas como sujeito de sua própria história" (SILVA & COSTA, 2001, p. 221). Fonte: www.scielo.br

12. Social Democracia

A idéia de uma sociedade social democrata é bem antiga. Nasceu de homens que acreditavam na existência de um estado justo, e que pudesse ser atingido pelo caminho da democracia. Como toda idéia, precisava de um nome- foi assim que o termo "social-democracia" acabou servindo de rótulo para um conjunto de conceitos que foram ao longo da história, conformando um ideal.

Esse nome nasceu da expressão cunhada por Aléxis de Tocqueville, um grande estudioso francês, que, em 1835, em seu livro A Democracia na América, chamara a experiência da democracia americana de "democracia social".  

Para Tocqueville, a novidade na experiência americana merecia um novo nome- era mais que o simples ideal democrático, conforme o conceito de democracia criado pelos gregos já na antiguidade. Tocqueville via na América do inicio do século XIX uma experiência que brotava da participação efetiva dos cidadãos a partir de suas bases locais.  

Hoje, o conceito de social-democracia expressa em linhas gerais a vontade de realizar a democratização da sociedade a partir da crença no valor da igualdade de oportunidades para todos. Mais que isso, na crença da necessidade de haver instituições políticas que concretizem esse projeto. Como se pode notar, é uma idéia bem diferente dos ideais socialistas, que viam na presença forte do Estado, a garantia de efetivação de políticas sociais em favor das classes populares, e bem distante também dos ideais do liberalismo, que vê na liberdade das ações do mercado o mecanismo para atingir uma sociedade mais justa.  

II Um pouco de história  

Alguns nomes contribuíram para formar o ideário social-democrata. Além de Tocqueville, nomes como Saint-Simom, Fourier, Owen, Louis Blanc e Proudhon contribuíram para a construção do arcabouço de idéias que veio a se transformar na social-democracia tal como a conhecemos hoje. Mas não foram apenas eles. Marx e Engels, com a publicação do Manifesto Comunista contribuíram de forma profunda na discussão e formação do mundo das idéias socialistas. Mas podemos demarcar o inicio desse debate com o inicio da Revolução Industrial, um fato que sem duvida alguma abalou o mundo a partir do século XIX.  

Nascendo do socialismo  

Com o advento da Revolução Industrial, o mundo ficou em polvorosa. As idéias fervilhavam, todos queriam compreender o que acontecia e que caminhos trilhar. Em 1848, surgiu uma obra que veio chacoalhar as estruturas - Marx e Engels lançavam o Manifesto Comunista, um documento que até hoje incomoda muita gente...  

Um dos trechos do Manifesto já antecipava sua linha mestra: "A história de todas as sociedades que existiram até hoje tem sido a história de lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora aberta, ora disfarçada: uma guerra que sempre terminou ou por uma transformação revolucionária de toda a sociedade, ou pela destruição das duas classes em luta".  

Para Marx e Engels, o conflito entre classes nascia juntamente com o nascimento da nova sociedade. Para eles "a sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classe. Não fez mais que estabelecer novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta em lugar de velhas". E asseguravam: "a sociedade dividia-se cada vez mais em dois campos opostos, em duas classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado".  

O Manifesto surgia num momento em que os socialistas estavam divididos. Em linhas gerais, todos propunham uma organização da sociedade a partir da abolição da propriedade privada dos meios de produção, e por conseguinte, da sociedade de classes. Mas havia formas diferentes de socialismo.  

Dentre essas, uma das mais marcantes era conhecida como Socialismo Utópico. Foi a primeira formulação do pensamento socialista, gestada a partir de idéias e obras de pensadores como Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882) e Robert Owen (1771-1858). Mas, por que "utópico"? A denominação pejorativa adveio do fato que seus teóricos expunham os princípios de uma sociedade ideal, mas não indicavam os meios de alcançá-la. Eles defendiam, entre outros princípios, a socialização dos meios de produção, a suspensão da herança, a proteção do individuo, a abolição da moeda, a produção sem fins lucrativos e o ensino para todos.  

O Manifesto vem jogar lenha nessa fogueira, com Marx e Engels descartando, de inicio, qualquer mudança pela via institucional. Ao socialismo utópico, o Manifesto contrapunha o "socialismo científico", acusando os partidários dessa idéia de serem "sonhadores", homens que baseavam sua vontade de mudança apenas nos sentimentos de boa vontade e solidariedade humana. A formulação teórica de Marx e Engels justificava o nome de "científico" às proposições do Manifesto.  

Em meio a esse burburinho, os anarquistas também metiam suas colheres. Homens como Proudhon esquentavam a temperatura do debate com as teses polêmicas que pregavam, como a afirmação "a propriedade é um roubo". Proudhon repudiava o caráter "científico" da proposta de Marx e Engels, e pregava uma ditadura revolucionária anarquista. Mas vejamos um pouco sobre eles.        

Novos desafios Com a decorrência dessas transformações, questões profundas foram colocadas para os trabalhadores e cidadãos, ao lado do verdadeiro avanço tecnológico que todos assistiam. No campo político, a questão democrática viu-se em um dilema: O voto é um direito de todos? No campo trabalhista, os trabalhadores confrontando-se com o crescimento do capitalismo, colocavam sua pergunta: Os sindicatos serão livres em sua organização? E o bem-estar social? Teremos empregos para todos?  

Para nós trabalhadores, o mais importante foi o surgimento do sindicalismo, que nasceu no inicio do século XIX como decorrência dos efeitos da Revolução Industrial. No entanto, o espírito de associação dos trabalhadores não era nenhuma novidade, já que existia desde a Idade Média, representado pelas corporações de ofício que regulamentavam o processo produtivo artesanal nas cidades. Os sindicatos, porém, não surgiram como evolução natural dessas associações medievais, uma vez que nasceram para defender os interesses dos trabalhadores assalariados que não possuíam os meios de produção- condição que surgiu com o capitalismo industrial.  

No inicio da produção industrial, os operários enfrentavam péssimas condições de trabalho- jornadas ultrapassando 15 horas por dia, sem horários de descanso e férias, e com mulheres e crianças sem tratamento diferenciado. Os operários reagiram como puderam. Nas primeiras manifestações, depredando instalações de fábricas, mas em seguida, por volta de 1824, já buscando a formação de associações de ajuda mútua e formação profissional, que aos poucos foi assumindo um caráter reivindicatório.  

O sindicalismo foi surgindo lentamente, numa história marcada por lutas e conflitos. Todos sabemos que, para negociar, o sindicato precisa, antes de qualquer coisa, ser reconhecido pelos patrões como interlocutor dos trabalhadores. Sabemos também que nosso principal instrumento de "convencimento" é a greve. E foi graças a ela que fomos avançando na história, conquistando importantes vitórias como a redução da jornada de trabalho, a melhoria de salários, a proibição do trabalho infantil, a limitação do trabalho feminino e, principalmente, o legitimo direito de greve- se não por lei, muitas vezes na marra.    

III- As teses da social-democracia  

Como vimos, o ideário social-democrata nasceu no intenso fervilhar de idéias que tomou conta do mundo com o advento da Revolução Industrial. Mas. Da mesma teia de idéias e propostas que surgiram ao longo da História, nascidas da luta e das entranhas dos movimentos sociais- desde os mais revolucionários até os mais reformistas-, foi-se construindo o conceito básico da social-democracia.  

De lá até hoje, o mundo conheceu inúmeras guerras, bem como revoluções sociais profundas que marcaram, de forma indelével, nossos corações e mentes. O conceito de liberdade vem sendo perseguido por gerações, e muitos homens e mulheres já deram suas vidas em prol de uma sociedade mais justa e equânime.  

Aprendemos com o passado, e foi a partir dessas sucessivas experiências da humanidade que se foi construindo o ideário social-democrata.  

Por esse motivo, na raiz desse ideário, encontra-se a defesa intransigente da liberdade, da forma como a experimentamos. Na prática isso significa um sistema político que se baseia no exercício livre e soberano do voto, na liberdade de expressão e associação em partido, associações de classe e outras formas que garantam direitos políticos amplos para todos os cidadãos. Em suma, um conceito baseado no instituto pleno da cidadania e, portanto, sempre contrário a quaisquer concepções políticas autoritárias e totalitárias.  


Outro conceito básico, e talvez o conceito que mais nos afasta das formas tradicionais de socialismo como a sociedade o conheceu até hoje, parte de compreensão de que o sistema econômico que buscamos reside no reconhecimento da existência do mercado, entendido aí como a livre circulação dos fatores de produção. Em resumo, produtores e consumidores, organizados de forma livre, devem buscar a defesa dos seus interesses de maneira democrática, portanto, propõe combinar, de forma harmônica, mercado e regulação estatal.  

A dúvida que sempre perseguiu todos os que lutaram por justiça social permanece ainda hoje: Como garantir que o mercado não dará sempre prioridade ao lucro, em detrimento dos menos favorecidos? A distância entre a liberdade e o autoritarismo -já vivemos isso antes- é muito pequena. Somente com liberdade de associação e representação, e construindo instituições políticas fortes e eficazes, é que conseguiremos diminuir as distâncias sociais, nos aproximando, mais e mais, de uma sociedade na qual exista justa distribuição de renda e trabalho.  

IV As conquistas e os desafios  

Pelo que vimos até aqui, a social-democracia nasceu de um intenso fervilhar das idéias socialistas, e hoje caminha para a evolução, baseando na existência do mercado e de uma regulação estatal. O distanciamento do socialismo começou já com o surgimento da União Soviética (1917), que foi a primeira e mais profunda experiência real de poder socialista. Mais tarde, outros países também se agregaram ao bloco socialista, como a China, em 1949, experimentando uma nova alternativa de sociedade.  

Com a queda do muro de Berlim, em 1989, que marcou de forma simbólica o fim do sonho daqueles que imaginavam possível a intervenção estatal na economia, surgiram os grandes desafios dos adeptos das idéias socialistas: renovar conceitos, repensar saídas, imaginar uma sociedade que possa ser, ao mesmo tempo, justa e solidária.  

Mas a queda do muro, se pôs fim a uma experiência que caiu de podre, trouxe também o debate entre o liberalismo e a social-democracia. Para os trabalhadores, esse debate interessa, e muito, principalmente quando o tem básico passou a ser o que conhecemos como Estado de Bem-Estar Social (Welfare State), talvez uma das maiores conquistas recentes da social-democracia.  

O Estado de Bem-Estar Social foi uma conquista dos trabalhadores, e guarda uma estreita relação com os governos social-democratas que assumiram o poder, a partir do final século XX. Em resumo, é constituído de um conjunto de regras e mecanismos que garantem ao cidadão uma série de benefícios básicos, e que busca atenuar as dificuldades que afetam uma parcela dos cidadãos na sociedade capitalista. O eixo principal é o sistema de seguridade social, mas sistemas de saúde e educação também integram as políticas de bem-estar.  

Com o crescimento das idéias neoliberais nas últimas décadas, agravou-se o corte de gastos sociais, utilizado por muitos governos como alternativa para reduzir o déficit público.  

Com a prática equivocada de "jogar fora a criança com a água do banho", muitos países desmontaram seus sistemas de bem-estar social como mecanismo de redução de custo. Políticas compensatórias não foram desenvolvidas, agravando ainda mais o sofrimento de milhões de trabalhadores.  

Como resultado direto da globalização, e com o aumento do desemprego e o crescimento do trabalho informal, um enorme contingente de trabalhadores encontra-se hoje às margens da sociedade. Os neoliberais afirmam que a contenção das políticas de bem-estar visa combater o desemprego, pois elas encarecem a mão-de-obra. E, com esses discurso, conquistas históricas dos trabalhadores podem ser perdidas, justamente num momento em que mais precisamos delas.  

Esse é apenas um dos temas mais candentes que se colocam como desafio para a nova agenda social-democrata. Nós, como trabalhadores e verdadeiros construtores da base de uma sociedade justa e igualitária, estamos sendo convocados para enfrentar mais esse desafio.


Surgimento do Sindicalismo
   

Inglaterra- Os primeiros sindicatos (trade unions) surgem na Inglaterra, em 1838, mas o direito sindical só é reconhecido por lei em 1871. Em 1868, eles se agrupam no Trade Union Congress (TUC), uma associação nacional de trabalhadores. No inicio do século XX, o movimento sindical passa a agir de forma política: Os grandes sindicatos ingleses buscam pressionar o Parlamento britânico para defender seus interesses e para tanto criam o Partido Trabalhista.

Estados Unidos
- Na metade do século XIX (mais precisamente em 1869), é criada na Filadélfia a Ordem dos Cavaleiros do Trabalho, uma associação de trabalhadores que defende a reforma geral da sociedade. Ela pode ser considerada a primeira manifestação de organização da classe trabalhadora americana. Já em 1886 aparece o American Federation of Labor (AFL), uma entidade que agrupa sindicatos organizados por oficio. Após a crise da bolsa de Nova York (1929), em 1935, é formado o Congress for Industrial Organization (CIO), que organiza os trabalhadores das grandes fábricas. Em 1957, o CIO funde-se à American Federation of Labor, formando a AFL-CI.

França
- Os trabalhadores franceses sofreram muito para se organizarem. Suas primeiras associações de trabalhadores receberam severas repressões políticas após a Comuna de Paris, em 1871. Somente treze anos depois, em 1884, uma lei veio autorizar o funcionamento do sindicalismo no país. Uma característica curiosa: paralelamente aos sindicatos, desenvolveram-se também o que se chamava de "bolsas de trabalho", uma espécie de centro de formação profissional e agencia de emprego. Em 1895 surge enfim a Confederação Geral do Trabalho (CGT), que até a I Guerra Mundial adotou uma linha revolucionária inspirada no anarquismo. Após a Guerra, a CGT mudou sua orientação, seguindo uma linha mais moderada e próxima do socialismo.

13. A ideologia da Elite   

O ideário liberal ... necessário à organização e à identidade do novo Estado e das elites, representa progresso. Por outro lado não expressa nada das relações de trabalho efetivas, as quais recusa ou desconhece por princípio, sem prejuízo de conviver familiarmente com elas. Daí um funcionamento especial, sem compromisso com as obrigações cognitiva e crítica do Liberalismo, o que abala a credibilidade deste ultimo e lhe imprime, a par da feição esclarecida, um quê gratuito, incongruente e iníquo..  

Roberto Schawarz Um mestre na periferia do capitalismo   A sociedade de elite não produz sua ideologia, senão 'importa'  elementos da ideologia liberal, sem as condições concretas em que aquela foi produzida. A ideologia da elite adquire suas feições peculiares, farsescas, em decorrência desse processo.   

O artigo 179 [da Constituição de 1824] que garantia as liberdades individuais inspirava-se diretamente na Declaração dos Direitos do Homem feita pelos revolucionários franceses em agosto de 1789. Havia parágrafos que eram mera transcrição. Omitia-se entretanto a afirmação, constante na Declaração dos Direitos do Homem, da soberania da nação... (Viotti, 1968, p.123).  

Acresce que os princípios de liberdade foram inscritas na Constituição de uma sociedade escravocrata...O descolamento do discurso ideológico das condições concretas da sociedade de elite "impunha à consciência burguesa [a saber, da elite -CD] uma série de acrobacias que escandalizam e irritam o senso crítico" (Schwarz, 1990:43),objeto do humor sarcástico de Machado de Assis.

Assim, ainda no dizer de Schwarz:   "os setores europeizantes da sociedade brasileira participam sim da civilização burguesa, embora de modo peculiar, semidistanciado, que levava a invocá-la e descumprí-la alternada e indefinidamente."     
 
----------------------------------------------------------------------------------------------------------- Bibliografia
SCHWARZ, Roberto (1990) Um mestre na periferia do capitalismo/ Machado de Assis Duas Cidadades, São Paulo VIOTTI da Costa, Emília (1968) "Introdução ao estudo da emancipação política" in Motta, Carlos Guilherme da (1968) O Brasil em perspectiva Difel, São Paulo

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                                                                                             Conscientização I
                                                                                             Conscientização III

Leia também: Sub-Sistemas 1. Coronelismo
                                           2. Servilismo
                                           3. Nepotismo

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