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                                                                     Joaquim de Paula Guimarães


Abaixo você vai encontrar a obra escrita por
Joaquim de Paula Guimarães - Edição Comemorativa do Cinqüentenário do Município - "2 de Outubro de 1901 a 2 de Outubro de 1951". Disponibilizamos este livro em nosso site por entendermos que é de importância fundamental para todos que querem conhecer a história de nossa cidade. É do nosso conhecimento que apenas um volume encontra-se na Biblioteca Municipal de Cruzeiro, e que esta, não atende aos leitores desde Setembro/2006, por motivo de reforma. Pela dificuldade de acesso a obra, achamos por bem transcrevê-la aqui e o fizemos na íntegra.  Unic - 30.01.2007 -

                                                    PREFÁCIO  

Os acontecimentos que se desenrolam numa determinada região da terra, os fatos e os personagens que se sucedem no tempo, passado ou presente, representam a história dessa região.  

Cinqüenta anos se passaram desde que a sede do nosso município foi localizada junto a Estação de Cruzeiro, vinda do Embaú cujo território hoje pertence ao município de Cachoeira Paulista.  

O professor Joaquim de Paula Guimarães, como mestre que é de História, reconstituiu na “Síntese da História de Cruzeiro”, em rápidas penadas, o passado de nosso município.  

Demorou-se, porém no estudo das bases gerais do desenvolvimento da cidade, adiantando-se, mesmo, em largas passadas, sobre o futuro promissor de um município privilegiadamente servido por clima, topografia e etnografia que permitiram torna-lo centro de comunicação de três estados e, conseqüentemente, em posição favorável ao desenvolvimento do comércio e da indústria.  

Cruzeiro festeja o seu cinqüentenário, e os festejos a realizar são uma clarinada de sons alegres na harmônica orquestração do trabalho de seus filhos e um cântico de luz na afirmação do seu indiscutível e indisfarçável progresso.  

Cruzeiro, 2 de Outubro de 1951
Dr. Fernando de Oliveira Pimentel
Prefeito Municipal  

                                                     INTRODUÇÃO  

Não é a primeira vez que este moderníssimo estudo sobre Cruzeiro apresenta ao público. Já foi publicado, com o título de “CRUZEIRO, cidade chave dde comunicações, na “Folha de Cruzeiro”, de 3 de Outubro de 1948 a 19 de fevereiro do ano seguinte.  

Surge, agora, numa edição oficial, comemorativa do Cinqüentenário do Município, em cujas festividades se coroa de ouro a gestão municipal do magnífico administrador que é Dr. Fernando de Oliveira Pimentel.  

Não é, no entanto, um trabalho de vulto, mas, simplesmente, um exercício de observação histórica em que procuramos, seguindo o rumo traçado pelo eminente mestre Prof. Alfredo Ellis Jr., e na medida de nossas possibilidades, fazer história moderna, viva, explicada  nas suas causas e fatores essenciais.  

Assim, prezados leitores, pouco nos preocupamos com as inconseqüentes minúcias e a massante cronologia mais próprias da crônica que da ciência histórica; não nos interessou apenas o documento mas, principalmente, a sua interpretação; procuramos traçar retratos psicológicos que esclarecessem atitudes; visando, enfim, reconstruir o ambiente em que se realizaram os fatos narrados, lançando mão da descrição geográfica e biográfica, da comparação histórica e dos interesses econômicos, dos quais, infalivelmente, só poderia resultar uma coisa: a origem e o desenvolvimento desta bela e acolhedora cidade que se chama Cruzeiro.  

Registramos em traços ligeiros a história dos últimos cinqüenta anos porque é, ainda, muito recente e os fatos históricos são como as montanhas; só de longe é que se apresentam em toda a sua envergadura, livres de paixões e com suas causas reais perfeitamente aparentes.   Cruzeiro, 2 de Outubro de 1951 J.P.Guimarães    

                                                     CAPÍTULO I  

                          CONDIÇÕES DE ORIGEM E DESENVOLVIMENTO  

Condições Políticas  

Cruzeiro é uma cidade recente. Nasceu no século “passado”, no decênio seguinte a Guerra do Paraguai.  

O período de lutas armadas, internas e externas, em que se debateu o Segundo Império, de 1840 a 1870, já havia cessado e a crise política que se iniciara com a queda do gabinete Zacarias, o movimento abolicionista e a questão religiosa, não tinha ainda chegado à situação aguda de que resultou a queda da realeza.  

Mauá já havia revolucionado a economia nacional com seus planos admiráveis e as duas maiores cidades do país, Rio de Janeiro e São  Paulo, exigiam melhores comunicações do que a via rudimentar então existente. Nasceram, então a Estrada de Fero D. Pedro II e junto aos seus trilhos a cidade de Cruzeiro.  

Condições Geográficas
 

Nasceu a “urbs”, da ferrovia, por imposição de uma situação geográfica extraordinariamente feliz: a meio caminho entre as capitais paulista e carioca, no centro de uma região economicamente natural, formada pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.  

De um lado a Serra do mar, do outro a Serra da Mantiqueira; ente elas o Rio Paraíba do Sul e, mais ou menos no centro do vale, a cidade de cruzeiro. Eis esboçado um retrato topográfico da cidade.  

Condições Econômicas
 

Foi pelo, inexatamente denominado, norte de São Paulo que penetrou o café no estado. Foi o vale do Paraíba o seu primeiro “habitat” paulista. Depois, caminhou para a terra roxa do oeste, mas, era ainda apreciável a produção do vale no fim do século passado. Por volta o Município do Embaú, do qual se desmembrou Cruzeiro, produzia 30.000 arrobas de rubiácia que era, a julgar pelas crônicas locais, a melhor do país. Aliás, quanto a qualidade do produto local, existe na Fazenda Boa Vista uma carta da Família Real exilada que, em termo afetuosos, solicita uma remessa do famoso café “Coroa” cultivado nas terras cruzeirenses.  

A cana-de-açucar era, também, fartamente cultivada e industrializada, possuindo o Embaú, na fazenda do Capitão Pedro Antonio de Azevedo, um dos melhores  engenhos da região, possivelmente o primeiro deles.  

Com o advento da E. de Ferro Rio-Minas, a estação do cruzeiro, que foi criada próxima ao antigo povoado do Embaú, tornou-se o principal escoadouro para os produtos de todo o sul de Minas, continuando as tradições da região que, desde a epopéia bandeirante, servia de acesso e via comercial, quase que exclusiva, para o sertão dos Cataguazes.  

Condições de Abastecimento
 

Abastecimento de víveres e matéria prima tem a cidade, facilmente, através de seus numerosos meios de comunicação, inclusive para sua industria essencial a da carne, que se alimenta com a pecuária mineira.  

Servida até o momento, de água canalizada da serra próxima, em precárias condições de quantidade e qualidade, terá solucionado este problema com o aproveitamento das águas do Paraíba através de um perfeitíssimo sistema de tratamento que será inaugurado durante as festividades comemorativas do Cinqüentenário do Município.  

Mas, o Paraíba tem para Cruzeiro outras funções, ainda: embeleza a cidade e limpa-a, também, sendo o escoadouro natural de seus resíduos.  

Condições de Comunicação  

Por intermédio da Estrada de Ferro Sul de Minas, que é uma das mais extensas do país, e das rodovias com o vale do São Francisco, por este rio, em parte navegável, com os estados do Nordeste.  

Por intermédio dos trilhos da Central do Brasil e de várias estradas de rodagem dispõe, ainda, de fácil comunicação com todos os principais portos do litoral vizinho e, graças ao páteo ferroviário da capital paulista, intercâmbio com todo o oeste e com todos os estados sulinos. Basta lembrar, a respeito, que vagões fabricados em Cruzeiro têm seguido, sem sair dos trilhos até seu destino, no Rio Grande do Sul.  

                                                  CONCLUSÃO
 

Cruzeiro é uma cidade admiravelmente situada, própria para a localização de um grande parque industrial, no centro da região mais densa, mais civilizada e mais produtiva do Brasil.  

Situada no entroncamento de duas ferrovias e servida por vasta rede rodoviária, tem sido, caracteristicamente, uma cidade-eixo de comunicações.  

Teve um rápido desenvolvimento e um futuro promissor a aguarda.  

                                                  CAPÍTULO II  

                                                 Vila do Embaú  

Fertilidade do Vale do Passa Vinte
   

Parece que a região do Embaú possuiu em épocas primevas diversos aldeamentos indígenas. Agricultores da região, de vez em quando, encontraram potes e objetos que atestam a existência destas povoações, principalmente, na barra do Embaú, cujas terras são proverbiais pela sua fertilidade. Juntam-se ao os rios Embaú e Passa Vinte, descidos ambos da Mantiqueira. O primeiro, desde as proximidades do Pico dos Marins, e o segundo, do pico do Cristal, nas vizinhanças do lugar em que hoje se abre o túnel da Rede Mineira Viação Férrea. Correm ambos para o sul, até se unirem para lançar suas águas no Rio Paraíba, irrigando um vasto triângulo mesopotâmico cujas terras, que são as mais produtivas do município, estão algo prejudicadas, na atualidade, pelo regime de grandes propriedades apenas dedicadas à criação de gado.  

Nas proximidades da unção destes dois rios é que se ergueu a povoação do Embaú. Aí o regime de águas é, guardadas as necessárias proporções, semelhante ao do histórico Rio Nilo. Todos os anos a enchente inunda as baixadas circunvizinhas, deixando sobre a terra o lodo e lama que se entranham na vegetação. Basta somente arar e plantar para que ótimos resultados sejam alcançados.  

O Ciclo Aurífero
 

Foi a região conhecida, possivelmente, desde os tempos de Braz Cubas. Baseia-se o Sr. Humberto Turner, grande conhecedor do passado cruzeirense, ao afirmar isto, no “Ensaio de Carta Geral das Bandeiras Paulistas”, de Afonso de Taunay, em que o ilustre autor localiza uma expedição do fundador de Santos ao sertão do Rio das Velhas, durante o ano de 1560. Como um dos únicos pontos de acesso para as Gerais fosse a região que estudamos não é muito arriscado concluir que ele por ali passou.  

Após a Restauração Portuguesa, quando eclodiu o ciclo aurífero, tornou-se o Embaú ponto obrigatório de escala para as Bandeiras que seguiam o roteiro mais comum para acesso ao Sertão Cataguazes.  

Comunicação com a Região das Minas  

Estudemos o principal roteiro usado pelos que demandavam as Gerais.  

Capistrano de Abreu o descreve claramente: “Os bandeirantes deixando o rio Tietê alcançaram o Paraíba do Sul pela garganta de S. Miguel, desceram-no até Hepacaré, atual Lorena e dali passaram a Mantiqueira aproximadamente por onde a transpõe a E.F. Rio e Minas”.  

De Lorena, após três dias de marcha atingia-se o Vale do Passa Vinte. Era o fim da primeira etapa, a descida do Vale do Paraíba, e o início da segunda, a travessia da Serra: “Daqui começam a passar o ribeiro que chamam Passa Vinte, porque vinte vezes se passa. E se sobe as serras sobreditas para passar as quaes se descarregam as cavalgaduras, pelos grandes risos de despenhadeiros que se encontram. E assim gastam dois dias em passar com grandes dificuldades...”.  

Havia, conforme concluímos de nossa investigações, dois caminhos para a passagem da Mantiqueira. Um, é o que acabamos de descrever com as palavras de Antonil, hoje aproveitado pela Estrada de Rodagem São Paulo-Minas e pela Estrada de Ferro Sul Mineira.  

O outro, é o que segundo o leito do Rio Embaú realizava a travessia do obstáculo montanhoso entre o Alto do Machado e Pico dos Marins. O mesmo percurso é, também, repetido hoje pela estrada carroçável, que já teve o seu período áureo no passado. Ambas as vias partiam do pouso do Embaú, que, sob influência do intercâmbio que então se iniciou entre São Paulo e as Gerais, desenvolveu-se, transformando-se em florescente povoação.  

Nascimento e desenvolvimento do Embaú, Vila Mater da Cidade de Cruzeiro.
 

O nome Embaú tem várias acepções. Pode significar ‘bica’, ‘poço’, ‘garganta’, ‘beber do extremo’ ou ‘derradeira aguada’.  

Temos conosco que a última acepção é a verdadeira porque para o bandeirante de fala tupi, descritiva portanto, não interessava lembrar a excelência da água pouso e sim descrever a sua situação, Istoé, “mbá-u” ficava na confluência do último curso d’água de maior importância antes da serra, era a “última aguada”.  

Sob o influxo do ouro do século XVIII já era tão importante que se erigiu em ,curato>, circunscrito ao de Lorena.  

Foi nessa época, 1781, que o Sargento-Mor Antonio Lopes da Lavra iniciou a construção da Igreja inaugurada seis anos depois sob a invocação de N.S. da Conceição do Embaú.  

Pelas proporções do templo, que ainda hoje se mantém em bom estado, conclui-se que já déia ser numerosa a população por ele servida. Devia haver em torno dele uma florescente aldeia.   Sabemos que era um centro de grande atividade e animado comércio, servindo de escoadouro ao sul da Capitania de Minas Gerais. Numerosas tropas desciam e subiam a serra, passando todas elas pela povoação para onde afluíam, também, os negociantes da região. “Ponto forçado de negócios, havia ali a animação comum das feiras e dos grandes centros comerciais. (2) 

 Por meio do Embaú é que despejava o comercio das Gerais para o litoral através do “caminho dos Guaianazes”, que passando por Guaratinguetá e Cunha (antiga Facão) chegava até Parati.(3)  

Com a conclusão, no ano de 1754, do caminho novo de São Paulo, ou seja, a futura “estrada imperial” percorrida por D. Pedro I na jornada da Independência, aquele “caminho velho” perdeu muito de sua importância, mas, até meados do século passado, conforme conseguimos apurar, era ainda fartamente usado. (4)  

Ensinam os entendidos em história, que a travessia da Serra se faia seguindo o percurso do Rio Passa Vinte. Acreditamos que assim fosse mas, devia ser, também, muito usado um outro percurso que seguia o leito do Rio Embaú, passando a “Serra das Vertentes” nas proximidades do pico dos Marins. Assim pensamos porque ali existem restos de antiga via em alguns pontos calçada de Lages chatas, conforme o uso da época, idêntico ao que se observa na estrada para Ubatuba. Velhos moradores da região confirmam que por ali passavam mercadorias procedentes do litoral para Itajubá Velho e Passa Quatro. (5)  

Impulsionado por esse comércio Embaú desenvolveu-se o bastante para se elevar a categoria de Freguesia, a 19 de Fevereiro de 1846.  

O interessante é que a vila criada recebeu o nome de N.S. da Conceição de Cruzeiro. Parece, á primeira vista, que o nome da atual cidade de Cruzeiro se relaciona com o da antiga vila-mater, mas, um, nada tem a ver com o outro. Quem nos esclarece a respeito é o Prof. Hilton Federici que informa referir-se a nome atribuído à antiga povoação do Embaú ao marco divisório, em forma de cruz, mandado construir, no alto da Serra, entre Minas e São Paulo. A cidade de Cruzeiro, ao contrário, tira a denominação da cruz, símbolo religioso, em torno da qual se desenvolveu.  

Por volta de 1880  a vila do Embaú possuía 11.000 habitantes e exportava, das suas 55 fazendas, cerca de 30.000 arrobas de café. Seus estabelecimentos comerciais chegavam à casa dos vinte.  
Daí por diante, entretanto, sua evolução pára e a povoação decresce até ser absorvida pela filha que nasceu e cresceu do seu território – Cruzeiro.                                             

                                                          *********
(1)   O Sr. José Modesto Pinto, lavrador na barra do Embaú afirma nunca usou adubos e que a quase 30 anos vem cultivando anualmente, suas terras sem que as mesmas desmereçam em produção.
(2)   CF. Humberto Turner, “Ex-Brazão do Município”.
(3)   Conta-se mesmo, que muitas fortunas se fizeram na vila com o simples fornecimento de milho para as tropas em trânsito.
(4)   O caminho velho para parati acabou fechado ao tráfego para impedir o desvio de ouro.
(5)   Baseamo-nos em informações prestadas pelo Agostinho Portugal, engenheiro agrônomo, que em trabalho de sua profissão, as recolheu entre antigos habitantes do local, um dos quais, Custódio da Silva, havia ajudado o pai, naquele transporte.    

                                                     CAPÍTULO III
 
                       
                                             FAZENDA BOA VISTA  

Sua Criação
 

A oito quilômetros, mais ou menos, do Embaú, situava-se a Fazenda Boa Vista, em cujo páteo, por assim dizer, nasceu a cidade de Cruzeiro.  

Segundo os mais velhos documentos encontrados em seus arquivos, pode-se afastar a sua fundação para os meiados do século XVIII.  

Suas terras foram, inicialmente, possuídas como terras devolutas, por Manoel de Moraes Pinto que as vendeu, em 1778, ao Tte. Cel Henrique Dias de Vasconcelos. Falecendo esse último, sua esposa e herdeira passou-as por troca a Joaquim Ferreira da Silva, que foi o primeiro marido de Dª. Fortunata Joaquina do Nascimento. Casou-se esta senhora, em segundas núpcias, com o Cap. Antonio Dias Telles de Castro que comprou, ao outro herdeiro de Ferreira da Silva, as terras restantes, até o riacho de Lavrinhas. 

 Por fim, enviuvando uma segunda vez, consorciou-se Dª. Fortunata, que já era bastante idosa, com Manoel de Freitas Novaes. Vieram, deste modo, ter às mãos do futuro fundador de Cruzeiro, as terras da Fazenda Boa Vista.  

Era um vasto território que se estendia desde o Paraíba até o Alto da Serra. A sede, que ainda existe, em excelente estado de conservação, estava situada a beira de uma vasta várzea, em que hoje se levanta a cidade. Deve ser devido a essa localização que nasceu o nome Boa Vista.   Fazenda de produção mista, na qual se destacava o café, eram seus proprietários uma potência econômica na região.  

São do seu acervo as peças de engenho que, atualmente, ilustram um dos pavilhões do Museu do Ipiranga.  

                                                O Major Novaes
 

Manoel de Freitas Novaes era filho de um português nato, Manoel Novaes da Cruz, radicado numa das localidades vindas de Queluz ou Pinheiros.  

Dedicava-se a compra de animais e a formação de tropas que depois revendia. Era uma profissão característica daqueles tempos de transportes difíceis, realizado sobre o lombo de muares, que possuem sem dúvida, o mérito de primeiros unificadores do território brasileiro em função do comércio que possibilitavam.  

Não contava, ainda, vinte anos de idade quando se casou com Dona Fortunata a proprietária da “Boa Vista”, que era muito amiga de Dona Clara, a progenitora do Major. Pode então, o moço, por em prática seus elevados dotes e senso administrativo.  

Era uma personalidade estranha a daquele fazendeiro rústico do interior brasileiro do século XIX, ao mesmo tempo ambicioso e sincero, inteligente e teimoso, bondoso e turbulento, temido e respeitado.

Conta-se que ao fundar a “sua” colônia de trabalhadores livres, organizou-a, experimentalmente, em três núcleos, de espanhóis, de cearenses e de antigos jagunços, não demorando que se tornassem estes os seus colonos prediletos, agitados e sinceros como ele.  

O número de 18 de fevereiro de 1888 da “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro, publicou, contra ele, uma queixa terrível da população, endereçada à regente Princesa Isabel, em que se lêem palavras como se seguem: “Os habitantes desta povoação estão de posse pacífica, e a povoação passou para o domínio do estado e não é propriedade de Novaes, ella está edificada e constituída por um povo livre, laborioso e civilizado, e não pode suportar o peso da Tyramnia, da violência, da rapina, d’esse phantasma negro, que surgiu da oficina do erro e do crime para completa destruição desta infeliz povoação!”...  

“Dois anos depois, no entanto, época em que o povoado possuía, quando muito, uns quatro mil habitantes, a mesma “Gazeta de Notícias”, na data de 2 de maio, publicava a descrição dos grandes festejos que marcaram a passagem do qüinquagésimo nono aniversário do Major.  

Houve ladainha, banda de música, banquete, recepção, procissão cívica, baile e o jornal relatava que “não há exemplo no lugar de uma reunião com cerca de 1200 pessoas de todas as classes sociais, que se concluísse com tão boa ordem”.  

Data de 1868 sua promoção do posto de alferes para ode Major Comandante do esquadrão de cavalaria nº 5, da “Guarda Nacional da Província de São Paulo”.  

Viveu sempre envolvido em política, ocupando cargos de relevância na administração da antiga vila do Embaú.  

Em 1898, aos treze dias do mês de agosto faleceu o ilustre pioneiro deixando bem vivo seu renome de fundador de uma cidade.  

A amizade do Imperador
 

O Imperador D. Pedro II era compadre do major Novaes e as relações de amizade entre ambos são um capítulo honroso para a história cruzeirense.  

A família Imperial só usava o “Café Coroa” cultivado na fazenda Boa Vista e, mesmo depois de 89, continuou, normalmente, a remessa do produto para a Europa.  

Convém, no entanto, “notar que esse prestígio nunca constituiu motivo para a prática de arbitrariedades, pois o Major tinha singular afeição pelo povo que lhe retribuía do mesmo modo.

Gostava de enfrentar os poderosos, do mesmo modo que acolhia sob a proteção os fracos, não hesitando em perdoar as maiores ofensas quando isto lhe era solicitado...” (6)  

Para maior conforto do imperador nas suas visitas à “Boa Vista”, em desvio especial foi construído desde a Estação até a Fazenda, de modo que o honroso hóspede até ali chegasse sem descer do trem.  

Contam-se muitas anedotas que bem demonstram a extensão de sua amizade com o Monarca e o caráter teimoso, e, ao mesmo tempo, grandioso do Major. Ilustraremos com duas delas esta nossa reconstituição do ambiente humano em que nasceu Cruzeiro.  

Numa das ocasiões em que o imperador passou pela Estação, avisou que não poderia, conforme o costume, descer para a visita ao compadre. Insistiu o Major como não fosse atendido, mandou colocar uma cadeira sobre o leito da ferrovia, plantando-se nela, insensível dentro da sua determinação. “Ou o Imperador é Magnânimo e não mata seu amigo ou não é Magnânimo nem amigo”, dizia teimoso e...S.M. desceu.  

Outra vez, passou a Princeza Isabel pela estrada de ferro. Era tempo de Jaboticabas e S.ª, que muito as apreciava, não poderia desembarcar para chupa-la, como era do seu gosto, devido ao horário apertado dos trens. O Major não teve dúvidas: mandou arrancar uma bela jaboticabeira carregada de frutos, colocou-a, como um andor, sobre tirantes e, carregada por um grande número de escravos, levou-a até o trem, para que a “Redentora” não ficasse privada do sabor especial que “teem as jaboticabas” quando são chupadas ao pé da árvore.
 _________________________________
(6)H. Turner. op. Cit., capítulo CXIII.  
 

                                                     CAPITULO IV  

                                       
       ESTAÇÃO DO CRUZEIRO  

Primitivas Comunicações entre S. Paulo e Rio  

Rio de Janeiro e São Paulo foram sempre os dois principais centros urbanos do sul do país. Comunicavam-se, primitivamente, por terra, graças a via rudimentar que passava por Mogi das Cruzes, Jacareí, Taubaté, Guaratinguetá, Cunha e chegava até Parati, na Angra dos Reis. Daí por diante, pelo mar, se atingia São Sebastião do Rio de Janeiro.  

Somente em 1725 iniciou-se, em território fluminense, a abertura da estrada que devia articular-se com a que descrevemos acima, em terras paulistas. Trinta anos depois completava-se a construção e uniam-se as duas importantes capitais, oferecendo-se ao intercâmbio de ambas a tradicional “Estrada Real” que D.Pedro I usou por ocasião da independência. Era, também,  conhecida por “caminho novo de São Paulo”  para distinguir-se daquela antiga estrada de Parati, que se intitulou “caminho velho” e existia desde os primórdios da colonização como sendo a “caminho dos guaianazes”.  

Progresso da Província de São Paulo
 

S. Paulo, entretanto, ia tornando-se aos poucos, em substituição ao nordeste, o centro econômico do país. “A melhoria do trabalho rural com o cultivo de cereais, a pequena indústria e o aumento da produção já se mostrava em São Paulo, em 1836”. (7)

A partir de 1840 imigrantes europeus começaram a ser atraídos para a Província. Até 1857 “só a iniciativa particular criou em S.Paulo mais de 60 colônias localizando mais de 60 mil imigrantes. (8)  

O grande sucesso da imigração liga-se, aliás à lavoura do café. São valores que se completam.   Conforme nos ensina J.F. Normano, entre 1825-1835 apareceu e desenvolveu-se o café na terra dos bandeirantes. Depois, no terceiro quartel do século, o Brasil já havia assumido, para não mais perder, a liderança na produção mundial da famosa rubiácia.  

Em S. Paulo, onde os cafezais encontraram, na terra roxa, o ambiente próprio, o desenvolvimento das plantações assumiu o aspecto inconfundível de marcha para o oeste.  

O progresso da Província, exigia, portanto, melhores vias de comunicação que anulassem, na medida do possível, o entrave constituído pela Serra do Mar.  

Estrada de Ferro D. Pedro II
 

Acontecia isso, justamente, na época em que atravessava o Império o seu período áureo. E é nesse tempo, também, que se impõe a figura ímpar do Visconde de Mauá. Seus planos comerciais agitavam a nação. Suas iniciativas industriais, extrativas, de navegação marítima e fluvial, urbanas, bancárias e ferroviárias, principalmente as ferroviárias, modificavam a fisionomia do país. Coube-lhe a primazia de lançar os primeiros trilhos sobre o solo da Pátria.  

Estimulou, assim, a atividade governamental que resolveu tomar a si a resolução do problema das comunicações ferroviárias com São Paulo, de necessidade há muito reconhecida e de realização sempre fracassada desde o ano de 1835, quando foram publicadas as primeiras leis a respeito.   Nasceu, então, a Estrada de Ferro D.Pedro II cujo primeiro trecho foi inaugurado em 29 de março de 1858.  

A partir de Barra do Piraí, seus trilhos, lentamente, avançam para o oeste e, cerca de duas décadas após o início da construção aproximaram-se das terras pertencentes a Fazenda Boa Vista.  

O ponto final seria Cachoeira, concluindo-se sua abertura, até este local, em 1875.   Deveria a “D.Pedro II”, articular-se ali, com a Estrada de Ferro S. Paulo-Rio, cuja concessão fora conseguida em 1872, pela Companhia Paulista de estrada de Ferro.  

Esta última ferrovia, que era de bitola estreita, ficou terminada em 8 de julho de 1877, data em que se efetivou a união ferroviária da Corte com a Paulicéia. (9)  

Nas pontas dos trilhos a “D. Pedro II”, através dos túneis que, em sete anos, furaram a cordilheira, levou a nova civilização para os campos de S. Paulo. Abateram-se juntamente os dois grandes embaraços opostos à circulação de riqueza: a barreira fluminense das serras entre o Paraíba e os contrafortes da Guanabara; e a muralha da costa meridional. (10)

O progresso neutralizava a geografia hostil e protetora. Corrigiam-se as tendências econômicas do país. (11)  

Esta vida nova, este estímulo econômico, foi o alento criador de Cruzeiro.  

A Estação Cruzeiro  

Vejamos como a Fazenda Boa Vista transformou-se na cidade que hoje a envolve.  

Entre Lavrinhas e Cachoeira, localidades banhadas pelo Paraíba, executa este rio um vasto arco, ao meio do qual, pela margem esquerda, erguia-se a fazenda pertencente ao major Novaes.  

Uma tradição, corrente em cruzeiro, conta que a “D.Pedro II” passaria pelo outro lado do rio, em linha direta a Lavrinhas para Cachoeira. O Major não se conformando com esse traçado que afastava suas terras as vantagens da ferrovia, conseguiu, então, graças a influência de que desfrutava, a fortuna de que dispunha e, principalmente, à amizade que o Imperador lhe dispensava a alteração do projeto.  

A estrada se encaminhou, assim, pela margem esquerda do Paraíba, beirando o Rio, e proporcionando a oportunidade necessária para a criação da cidade.  

Não possuímos elementos para negar a tradição, nem encontramos documentos que a comprovem.  

Analisando a questão pelo prisma topográfico concluímos, entretanto, que a construção tal como foi realizada, tinha duas razões de ser. Veja porque.  

A margem direita do Paraíba, aquém de Lavrinhas, dentro do arco que acima descrevemos, é grandemente acidentada. Em frente aquela cidade há uma verdadeira barreira montanhosa. Basta observar-se a carta topográfica da região, levantada pela “Comissão Geográfica e Geológica do estado de São Paulo” e publicada no ano de 1928, para se ter uma idéia segura a respeito.  

Hoje em dia, a necessidade de diminuir as distâncias e aumentar a rapidez dos transportes, levariam, fatalmente, á travessia daquele trecho. Mas, no século passado, não era tão grande a pressa, devendo parecer muito mais prático bordejar o rio, pela margem esquerda , evitando o maciço e aproveitando a própria encosta fluvial para a abertura do leito da estrada. Poderia ter pensado assim o Engenheiro Newton Bennaton, que explorou e locou o trecho da estrada entre Queluz e Guaratinguetá, preferindo duas vezes a travessia do rio e o levantamento de diversos aterros, ao encurtamento da distância em troca de colossal movimentação de terra, cortes, viadutos e um túnel que, segundo se afirma, teria trezentos metros de extensão. (12)  

Atualmente a extraordinária artéria rodoviária denominada “Presidente Dutra” atravessa justamente esse trecho numa imponente obra de engenharia desnecessária e quase impossível para aquela época. 

Não pretendemos desmerecer o mérito do fundador de Cruzeiro, atribuído ao Major Novaes, mas, é bem possível que o ilustre pioneiro em vez de ter conseguido a alteração do percurso ferroviário, exigisse, apenas, o que é mais verossímil, o estabelecimento de uma Estação nas proximidades de sua fazenda que, de qualquer modo, seria cortada pela estrada de ferro.  

Sob este aspecto consideramos mais decisiva a ação do major Novaes, porque, não foi apenas da passagem ferroviária, mas essencialmente, da estação criada, que se originou a cidade de Cruzeiro.  

Já existia naquela época, próximo do lugar em que o atual se levanta, um Cruzeiro que, reza a tradição, assinalava o local em que um touro matara uma mulher.  

É possível que já existisse ali algumas cabanas pertencentes a colonos da fazenda. O fato é que os trabalhadores da estrada em construção, agruparam-se em torno do madeiro.  

Conta-se que o Eng.º Bennaton encontrando aquele símbolo religioso, perto da estação, quis que esta se denominasse Santa Cruz. Na linha, entretanto, já existia uma localidade assim denominada, em vista do que a nova parada chamou-se “Estação do cruzeiro”.  

Data da fundação
 

A estrada de Ferro D. Pedro II serviu-se, inicialmente, de uma pequena estação provisória que remonta, provavelmente, a 1873, sendo o trecho que serve a Cruzeiro, o de Lavrinhas a Cachoeira, inaugurado no dia 20 de julho de 1875.  

Sob a égide do transporte férreo, então aberto, o núcleo inicial da estação do cruzeiro, rapidamente se desenvolveu.  

Poucos anos após a população já havia crescido tanto que se tornava necessária a presença de uma autoridade policial. Compreendeu isso o Cap. Pedro Antonio de Azevedo, sub-delegado da Vila do Cruzeiro (Embaú), que, em data de 15 de abril de 1878 criou o Quarteirão Boa Vista, concernente à propriedades do major Novaes, desde o Morro da Onça até o Rio do Lopes, incluindo os terrenos pertencentes às empresas ferroviárias. 

No mesmo ato foi nomeado inspetor de quarteirão recaindo a escolha na pessoa de Lucio Ferreira da Incarnação que ganhou, assim, as honras de primeira autoridade local.  

Consideram uns, esta data, como sendo a da fundação de Cruzeiro, enquanto outros preferem 5 de março de 1884, quando foi criada a primeira sub-delegacia de polícia local.  

Temos a respeito nossas próprias idéias que passamos a expor, sob as luzes da história econômica que atinge, de fato, o âmago de todas as realizações humanas.  

É inegável que foi a Estrada de Ferro que Cruzeiro ganhou o seu alento vivificador. Foi a passagem da “D.Pedro II” pela região, graças a parada ali estabelecida, que transformou a Fazenda Boa Vista na cidade hoje existente.  

Porque, pois, não considerar como dia da fundação de Cruzeiro aquele em que fez a inauguração efetiva da Estrada de Ferro?  

Em 20 de Julho de 1875 passou pela Estação de Cruzeiro o trem inaugural do trecho ferroviário que serve a cidade. Achamos que deve ser este o dia da fundação porque foi a partir dele que se fez sentir a força impulsionadora do progresso local. 

Poder-se-á, talvez, objetar que, antes de 78 ou 84, não havia um registro oficial da povoação. Respondemos , então, que desde a inauguração da ferrovia, efetiva e oficialmente existia a Estação do Cruzeiro. E mais ainda: se foi o transporte ferroviário que deu VIDA ao lugar, este existia desde que a recebeu. Deixam, por ventura, de existir, as pessoas não registradas?  

A E. F. Rio-Minas e o desenvolvimento do núcleo
 

As primeiras casas de Cruzeiro foram se alinhando entre a Estação e a Santa Cruz, no trecho equivalente hoje em dia, à Rua Eng. Antonio Penido.  

Crescia, normalmente, o povoado quando novo fator dinâmico veio apressar-lhe a evolução. Foi uma contribuição verdadeiramente régia: uma nova estrada de ferro.  

Em 1875 foi constituída, em Londres, uma sociedade destinada a construção da linha ferroviária que deveria unir as Províncias do rio de Janeiro e Minas Gerais. Foi o nascimento da E.F. Minas e Rio.  

Sua junção com a E. F. D. Pedro II  deveria, conforme os planos iniciais, em discussão desde cinco anos antes, realizar-se em Rezende. Estudos posteriores, no entanto, indicaram como sendo mais vantajosa a ligação em Queluz.  

Teria sido dali, o seu ponto de partida não fosse o Major Novaes entrar, novamente, em ação. Usando de sua influência, que se avolumara com a existência da Estação Cruzeiro, conseguiu o fundador da Cidade, que o traçado anterior fosse alterado, devendo a ferrovia nascer em Cruzeiro, galgar a Mantiqueira e atingir Passa-Quatro e estender-se pelo Sul de Minas.  

Em 21 de abril de 1881 iniciaram-se os trabalhos e três anos depois, a 14 de junho de 1884, foi inaugurado o primeiro trecho, até Três Corações. Durante a construção desse trecho D.Pedro II, por duas vezes, visitou as obras, comparecendo, também, acompanhado da Família Real, ao ato de inauguração.  

Novo impulso recebeu a Estação Cruzeiro, aumentando, consideravelmente, o seu movimento e o número de seus habitantes.  

Mesmo durante os trabalhos de lançamento dos trilhos seu progresso havia sido tal que justificou a criação de uma Sub-Delegacia de Polícia.  

Devia contar a povoação, nessa época, com umas 200 casas, mais ou menos.  

Em 1885 foi inaugurada uma estação ferroviária confortável servindo, como ainda hoje, às duas estradas.   Daí por diante a evolução foi rápida.  

A abolição veio encontrar as fazendas locais bem servidas de braços livres, de modo que, não significou para a região nenhuma débâcle econômica.  

No ano seguinte, com a Proclamação da República, uma fase nova se abriu para a Nação e para a Estação do Cruzeiro, também.   

                                                    **********************

(7) Pedro Calmon, História do Brasil, IV, pg.388.
(8) Idem pg.389, repetindo |F. de Souza Lobo.
(9) Idem pg. 401. (10) Chamada nossa. Refere-se o trecho à muralha meridional constituída pela Serra do Cubatão, atravessada pela Santos-Jundiaí em 1868.
(11) Pedro Calmon.op. cit. Pg.401.
(12) Quem informa a respeito do túnel é o Sr. José Cândido Vieira, genro do Eng. Bennaton.  


                                                       CAPÍTULO V
 

MUNICÍPIO DE CRUZEIRO E.F.Central do Brasil  

Foi posta em prática, com o advento da República, uma iniciativa de grande importância para o progresso de Cruzeiro. Logo em 1890, a E. F. São Paulo – Rio que completava o ramal ferroviário para São Paulo, ligando Cachoeira à Paulicéia, foi adquirida pelo Governo e anexada à “D. Pedro II”.  

Perderam, então, ambas, as suas denominações e formaram, em conjunto, a Estrada de Ferro Central do Brasil.  

A “D.Pedro II, entretanto, possuía bitola de 1m60 enquanto a da “São Paulo-Rio” era de 1m00. Tornou-se pois, necessário o alargamento das linhas da segunda, melhoramento que somente em 1896 foi inaugurado.  

Enquanto isso, resolveu-se incluir, para facilidade de baldeação, um trilho intermediário no trecho entre Cruzeiro e Cachoeira Paulista, de modo que os trens de S.Paulo pudessem chegar até aquela estação.  

Cruzeiro, para onde afluíam duas linhas ferroviárias, ganhou, assim, uma terceira ferrovia.  

Despejavam-se ali, diariamente, em parada obrigatória, cargas e passageiros provenientes do Sul de Minas, do estado do Rio e de São Paulo.  

Pela terceira vez veio a ferrovia apressar o desenvolvimento local. Foi esse o motivo primordial do avanço progressista que, então, se processou.  

Desapropriação do perímetro urbano
 

Ao iniciar-se o período Republicano, a povoação adstrita á Estação de Cruzeiro já evidenciava apreciável desenvolvimento.  

Do que depreendemos da queixa, publicada em 1888, contra o Major Novaes e que transcrevemos, em parte, no capítulo terceiro, sua população já possuía, naquela época, consciência pública e defendia vigorosamente os seus diretos.  

Em princípios de 1889, iniciou-se, chefiada pelo Cel. Joaquim Ferreira e pelo Dr. Antonio José da Costa Junior, uma campanha destinada à desapropriação do território em torno da estação.  

Coroou-se a iniciativa de êxito, no ano seguinte, quando foi assinado o documen

to que, a seguir transcrevemos, dada sua importância, para a compreensão daquele episódio:  

“Resolução nº. 44 de 12 de Abril de 1890”.
 

Declara de utilidade e manda desapropriar terrenos da Estação do cruzeiro.  

O Governador do Estado, tendo em vista o que representam a câmara municipal do Cruzeiro e os moradores da estação do mesmo nome, no entroncamento da estrada de ferro Central com a da Companhia de Minas & Rio sobre a desapropriação, por utilidade pública, dos terrenos do Major Manoel de Freitas Novaes, circunvizinhos dos armazéns e outros prédios pertencentes aquelas estradas na referida estação do Cruzeiro:  

Tendo ouvido a extincta directoria e a actual superintendência de obras publicas e o dr. Procurador fiscal do Thesouro, que em seus pareceres foram accordes em sentido favorável às mencionadas representações:  

Considerando que, segundo consta de todas as informações officiais o desenvolvimento natural da povoação da estação do Cruzeiro, tem sido obstado pelo proprietário dos terrenos em que está estabelecida, o qual recusa-se a vende-los, limitando-se a arrendal-os por preços exagerados e mediante condições muito onerosas como a de ficarem os arrendatários, sem garantia para as construções feitas em solo alheio;  


Considerando que apezar desses obstáculos aquelle povoado tem crescido de modo a contar cerca de 4000 habitantes, possuindo escolas públicas e um distrito policial o que prova as condições vantajosas que reúne aquelle local para ser sede de uma importante povoação;   Considerando que ao poder publico

corre o dever de pôr termo aos agravames e vexames por parte do proprietário dos terrenos;   Considerando que a assembléia legislativa provincial atendendo a iguais representações votou o decreto de 21 de março de 1887, autorizando o governo da  província a desapropriar os mencionados terrenos para o mesmo fim;  

Considerando que são de manifesta improcedencia as razões com que o presidente da província negou sancção a este decreto, portanto não se pode contestar seriamente que haja utilidade publica na formação e desenvolvimento de povoações, quando é certo que alei autoriza a desapropriação para abertura ou melhoramento de ruas, praças e logradouros públicos, art. 1º§4, da lei nº 38, de 18 de Março de 1836;  

Considerando que, por iguaes motivos e para fins similares foram desapropriados, em 1856 os terrenos, onde está a villa de guarehy, deste Estado;  

Considerando que a desapropriação do terreno da estação do cruzeiro, constitue uma providencia geralmente reconhecida de urgente e de incontestável utilidade para seus habitantes;  

Resolve declarar de utilidade pública do município do cruzeiro a para o Estado a desapropriação dos terrenos do mesmo nome, compreendidos pelas linhas assinaladas na planta junta com as letras A,B,C,D,E, abrangendo uma área de 36 hectares e 56 ares, da qual deve ser descompactada a parte pertencente às estradas de ferro Central e Rio e Minas.  

Remetta-se copia desta resolução com os documentos a que refere-se ao procurador fiscal do Thesouro para fins dos artigos 3º e seguintes da lei nº38 de 18 de Março de 1836.

Palácio do Governo do Estado de S. Paulo, 12 de abril de 1890.

(a)    Prudente J. de Moraes Barros.  

Não se conformou com isso o Major Novaes e protestou contra a resolução governamental. Parece, à primeira vista, que desmente, assim, toda a sua iniciativa anterior para criar a Estação. Mas, a verdade, é que travava uma batalha de sinceridade, em prejuízo do seu próprio nome.  

Desde tempos antes vinha o Major trabalhando pela elevação do povoado a vila.  

Chegou, mesmo, a mandar traçar plantas da futura cidade, que ainda existem no arquivo da sua fazenda. Queria, porém, que as ruas a serem criadas tivessem nomes ditados pela sua fidelidade monárquica.  

Mas, o Império havia caído e as autoridades republicanas, que procuravam se firmar, fizeram tudo à sua revelia. É este, segundo parece, o motivo  da ação contraditória do velho patriarca que, em tempos de Monarquia, insistira pela estrada de ferro e doara, para isto, os terrenos necessários.  

Vila Novaes
 

Homem estranho aquele Major Novaes. Suas terras, consideradas de utilidade pública para a cidade nascente, foram, como vimos, desapropriadas num 12 de abril. Quatro dias depois lançou, de público, o seu protesto e, logo em seguida, a 28 do mesmo mês, data do seu aniversário, antecipava, de improviso, a instalação do município no povoado da estação.  

Fez parte as comemorações daquele dia a plantação de uma jaboticabeira no centro do povoado. “Assim, às 7 horas da noite, partiu da fazenda a procissão cívica conduzindo a pequena árvore para ali ser plantada, formando um préstito de cerca de 1000 pessoas ao som de duas bandas de música e fogos, e sendo colocada a árvore no lugar, o Major Novaes convidou seus amigos que consigo estavam a continuarem a lhe prestar, como o têm feito até aqui, o seu auxílio para a inauguração da Vila Novaes para o que já tem oferecido os terrenos necessários para todas as obras publicas, como consta na intendência municipal e governo geral o que sendo aplaudido entusiasticamente, ele, em vista da aprovação de todos, declarava solenemente elevada  à Vila Novaes o logar conhecido pela estação do Cruzeiro. (13)  

Um ano inteiro, entretanto, deveria ainda passar-se até que seu desejo fosse satisfeito. Apenas em 30 de março de 1891 o Distrito Policial da estação foi transformado em Distrito de Paz e, três meses depois em 3 de junho, elevado a categoria de município, com o nome de Vila Novaes.  

Sede do Município
 

Foi de existência efêmera a Vila Novaes. 

 Forças policiais, desencadearam-se na capital do estado, e Américo Brasiliense, o governador que assinara os decretos de sua criação, foi deposto, sendo seus últimos atos tornados sem efeito, o da ereção da Vila inclusive. Apenas um ano havia transcorrido desde a instalação, eram 18 de Julho de 1892.  

Iniciou-se, logo, uma nova campanha. Não se destinava a criação de outra vila em Cruzeiro mas, a trazer para o povoado os poderes municipais que desde 1871 se sediavam no Embaú.   Foram necessários até que este ideal se tornasse realidade, nove anos de terrível rivalidade e ferrenhas lutas com os políticos embauenses.  

Finalmente, em 2 de outubro de 1901, o presidente paulista, Dr. Francisco Rodrigues Alves, assinou a lei 789 que mudava, definitivamente, a sede do município para junto da Estação.   Reconheceu a Igreja antes do estado, a vantagem de transferir, do Embaú para Cruzeiro, a sede da paróquia.  

Desde 1897 que isto se deu, embora ainda não houvesse em templo em condições para o culto, pois somente em 1905 foi inaugurada a Igreja que hoje é denominada “Matriz Velha”.  

Completou-se deste modo, ao raiar do século XX, a formação da cidade de Cruzeiro.

                                                      ********************

(13 ) Transcrição do artigo assinado por Rodolfo Sergio Ferreira, datado de 29 de abril de 1890 e publicado na “Gazeta de Notícias”, do Rio de Janeiro, número de 2 de maio de 1890.  


                                                       CAPÍTULO VI  
                      
                                                   
CRUZEIRO ATUAL  

Desenvolvimento Político
 

Resolvida, pelo governo do estado, a transferência da sede do Município para  a estação do cruzeiro, mudou-se para cá a Câmara Municipal , que funcionava no Embaú. Deu-se a sua instalação, na nova sede, em 30 de novembro do mesmo ano de 1901, exultando de satisfação os habitantes da recém criada vila. Formavam, então, a edilidade, os senhores Tte. Cel. Joaquim do Prado, Cap. Avelino Bastos, Cap. Deodato da Silva Rodrigues, Tte. Joaquim Pereira Amorim e José Hilário de Souza Pinto, que continuaram, em Cruzeiro,  a exercer suas funções.  

Em Dezembro, dia 16, foi realizada a eleição em que se escolheu a primeira Câmara verdadeiramente cruzeirense, composta dos vereadores: Tte. Cel Joaquim do Prado, Tte. José Francisco de Oliveira Castro, Major Hermógenes de Azevedo Souza, Major Chrispim Bastos, Tte. João da Mata Coelho e Dr. Alfredo Teixeira Pinto.  

No dia 7 de janeiro de 1902, às 11 horas, foram solenemente empossados os novos edis e, uma hora depois, nova sessão foi realizada para a votação da mesa, sendo escolhidos para Intendente, cargo que corresponde ao de Prefeito, o Sr. Joaquim do prado e, para Presidente da Câmara, o Sr. Chrispim Bastos.  

Podemos distinguir três etapas distintas na política cruzeirense: a primeira, corresponde à existência do major Novaes; a segunda, em que se agiganta o vulto do major Hermógenes de Souza e a terceira, em que se manifestam influências do Dr. José Diogo Bastos.  

Veio o Major Hermógenes para Cruzeiro, como empregado da firma Novaes & Irmãos e assumiu posição d destaque na política local, desde 1901 até 1930. É o patrono de quase todos os grandes melhoramentos que tornaram a cidade um centro moderno e agradável.  

Caiu com a “Revolução de 30”, época em que se firmou a liderança do Dr. José Diogo Bastos, que vem desde então centralizando lides políticas no município.  

Em 1934 conseguiu Cruzeiro a sua emancipação judiciária, com a elevação a Comarca, na data de 19 de maio.  

Rodovias  

No ano de 1908 foi efetuada pelo conde Lesdsin a primeira viagem de automóvel entre Rio e São Paulo. Foram necessários trinta e sete dias para a empresa, gastos na maior parte em trabalhos de picaretas e enxadas pra adaptação da estrada.  

Era um novo período que se anunciava na história regional das comunicações.   Por volta de 1914 começaram a surgir em Cruzeiro os primeiros automóveis (14) 

 Rodovias principiaram a ser abertas e o governo paulista construiu, logo, dentro do seu território, a Estrada de São Paulo-Rio, até a fronteira fluminense. Em 1928, concluiu-a, o governo federal, até a capital da República.  

Mas, esta importante artéria passava longe de Cruzeiro e, com auxílio de particulares, inclui-se no município a construção da estrada de rodagem para Cachoeira, a-fim-de articular-se com ela.   Foram na mesma época começados os percursos para o alto da Serra e para Pinheiros. Só mais tarde é que passaram estas estradas para o âmbito estadual.  

Cogita-se no momento, de outra rodovia na direção de Silveiras, para nova articulação com a via Presidente Dutra.  

                                                             Conclusão  

Sede Municipal desde 1901, continuou a cidade progredindo depressa. Foi saneada, recebeu esgotos, águas, luz, telefone e ruas retas, que se cortam em ângulo reto, largas, claras e alegres.  
Continuou sempre, entretanto, uma cidade ferroviária de população imigratória. É uma característica de sua formação que se reflete na sua sociedade sem barreiras, igual e democrática.  

Em virtude, ainda, de sua situação de cidade fronteira apresenta uma circunstância demográfica própria: maior população urbana que rural.  

Apesar, entretanto, da população flutuante, sempre renovada, sua vitalidade é enorme. Nela se localizaram as monumentais oficinas da Rede Sul Mineira (15) que era uma das mais completas da América do Sul. Foram, porém, transferidas para o estado de Minas, carregando com elas milhares de pessoas. Julgava-se, na ocasião, que a cidade não resistisse ao golpe, mas verificou-se logo, com surpresa, que a falta de casas de aluguel continuava como sempre. A cidade não se abateu. É que possuía vida própria.  

A industria de carne, por exemplo, característica de Cruzeiro, já contava com inúmeras fábricas de banha e um bem aparelhado frigorífico que se alimentavam da pecuária mineira e abasteciam, por sua vez, S.Paulo e Rio.  

Atualmente Cruzeiro é uma cidade moderna, com quase 20.000 habitantes.  

Sua indústria principal é, ainda, a da carne. Seus campos produzem cereais diversos e seus rebanhos, bastante leite, mas, vai se consolidando, cada vez mais, sua condição de centro industrial.  

Sua industria, no momento, se apresenta sensivelmente mais importante que a pecuária ou agricultura.  

Pode-se, pois, afirmar que Cruzeiro nasceu, desenvolveu-se e formou sua economia própria, dentro do sei destino histórico e geográfico de cidade à beira de estrada.    

(14) Um deles: “Acha-se na residência do Sr. Hildebrando Barbieri, um lindo e potente automóvel vindo de Taubaté, que, de acordo com as tardes calorosas, porá as disposições do público pela insignificante quantia de 10$000 por hora. Que este tenha vida longa aqui em Cruzeiro. “Transcrito do Jornal ‘O Imparcial’ de 5/4/1914”.  

(15) Em 1902 a “Minas e Rio” foi encampada pela União. Depois, foi encampada a E.F. Muzambinho. Por fim, em 1910, foi arrendada a E.F.Sapucaí que foi incorporada às duas anteriores constituindo a Rede Sul Mineira.  

BIBLIOGRAFIA E FONTES DIVERSAS  

Arquivo da fazenda Boa Vista.
Coleção de quase todos os jornais publicados no município, pertencente ao Sr. Jorge Ristom.   Comissão Geográfica e Geológica do estado de S.Paulo, Exploração da região compreendida pelas folhas topográficas Taubaté, Lorena, Bananal, Cunha – publicada em 1928, sob direção de João Pedro Cardoso.  
Hilton Federici, Esboço Histórico de Cruzeiro, 1937 – Cruzeiro  
Humberto Turner, Ex-Brazão do Município, in “Folha de Cruzeiro”   Max de Vasconcelos, A Estrada de Ferro Central do Brasil, 3a. ed.   Moacir M.F. Silva.
Geografia dos Transportes no Brasil, in “Revista Brasileira de Geografia, ns. 2,3”.
Pedro Calmon, História do Brasil, 4º vol; 1947.    


                                                   SUMÁRIO - ÍNDICE  

Prefácio......3
Introdução...5

Capítulo I ...7
Condições de Origem e Desenvolvimento
1-     Condições Políticas
2-     Condições Geográficas
3-     Condições econômicas
4-     Condições de Abastecimento
5-     Condições de Comunicações
6-     Em Conclusão

Capítulo II..10      
Vila do Embaú
1-     Fertilidade do vale do Passa Vinte
2-     O ciclo Aurífero
3-     Comunicação com a região das Minas
4-     Nascimento e Desenvolvimento do Embaú, vila-mater de Cruzeiro

Capítulo III..16      
Fazenda Boa Vista
1-      Sua criação
2-      O Major Novaes
3-      A amizade do Imperador

Capítulo IV..20    
Estação do Cruzeiro
1-      Primitivas vias de comunicação entre São Paulo e Rio
2-      Progresso da Província de São Paulo
3-      Estrada de Ferro D. Pedro II
4-      A Estação do Cruzeiro
5-      Data da Fundação
6-      A estrada de Ferro Rio e Minas e o desenvolvimento do Núcleo

Capítulo V..27     
Município de Cruzeiro
1-     Estrada de Ferro Central do Brasil
2-     Desapropriação do Perímetro Urbano
3-     Vila Novaes
4-     Sede do Município

Capítulo VI....32     
Cruzeiro Atual
1-     Desenvolvimento Político
2-     Rodovias
3-     Conclusão Bibliografia e Fontes Diversas...35


 Veja também: História de Cruzeiro - Síntese Panorâmica

                      História Cronológica de Cruzeiro
                                                                                  

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