Estávamos
em 1993. Embora a história oficial de Cruzeiro – “que hoje encontramos nos
livros” - chegue apenas até o ano 1992, e não haja nenhum investimento, nenhum
incentivo no sentido de escrevê-la asseguro ao leitor que os acontecimentos e
alguns movimentos sociais, continuaram lentamente se desenrolando.
Na maioria
das vezes não divulgados pela imprensa local que, preocupada em receber
subsídios, só se ocupa com a política (como muitas outras pequenas cidades
brasileiras, “ainda colônias”); sem a devida atenção do poder público (já que ignorar as iniciativas populares é um instrumento de manutenção do poder); vagarosamente, movimentos resistentes e teimosos, continuaram
acontecendo mesmo que sem o brilho e o vigor necessário. Exemplo
disso é a questão do trem turístico.
A bem da verdade devemos esclarecer que
embora tenha ocorrido aos olhos da população “um único movimento” em
favor da implantação do chamado “Trem das Águas”, na verdade sempre houve duas
concepções, duas expectativas, duas tendências de pensamentos. Com o passar do
tempo, um desses dois grupos, mais uma vez se dividiu em outros dois.
De um lado
encontramos a Sra. Lídia Zappa liderando um grupo que acreditava ser de
importância fundamental Cruzeiro posicionar-se como um ponto de parada do
chamado “trem bala”, o “trem de prata”, um trem de passageiros, com máquinas
modernas, no mínimo, a diesel.
Esse grupo
esperava que fosse restabelecida a circulação dos trens de forma que os
viajantes, os passageiros vindos de São Paulo e do Rio de Janeiro, pudessem ter
como opção, parar em nossa cidade e aqui seguir para o Sul de Minas Gerais, para
as “cidades das Águas” – Estâncias Hidrominerais: São Lourenço, Caxambu, etc.
Para tanto, empenhou-se, esta Senhora. Fez contatos e
lutou desmedidamente para o restabelecimento do movimento ferroviário em nossa
região. Fez diversas viagens, inúmeras ligações e contatos, dispensou horas a
fio em favor do que acreditava ser uma alternativa viável para iniciar um
movimento turístico em nossa cidade.
Do outro
lado, um outro grupo acreditava que a questão era, fundamentalmente, viabilizar
um trajeto para a circulação da “Maria Fumaça”, que, partindo da estação
ferroviária de Cruzeiro chegasse a São Lourenço – MG, ou seja, implantar um
trajeto turístico, um trajeto específico para Minas, partindo de Cruzeiro,
independente da circulação ferroviária a diesel no trajeto Rio/São Paulo.
Antecedendo
a discussão sobre o percurso e animados, principalmente, com a possibilidade da
“volta dos trens”, em 1989 um grupo de apaixonados pela “Maria Fumaça” aceitou
o desafio e em nome de um sonho iniciaram uma luta. Nascia em Cruzeiro a ABPF –
Associação Brasileira de Preservação Ferroviária.
Foi em 12
de Outubro daquele ano, por ocasião do 12º aniversário da Ferrovia
Anhumas/Jaguariúna que o Sr. Geraldo Godoy – Presidente da ABPF de São Paulo e
Campinas recebeu os amigos de Cruzeiro: o então prefeito Dr. Hamilton Vieira
Mendes, Benedito Pereira da Silva – “Pereirinha”, Carlos Rabello, Milton
Antonio Rodrigues e João de Deus, ferroviários aposentados. Tinham ido até lá
para conhecer o trabalho preservacionista da entidade, estimulados pelo
Prefeito Dr. Hamilton.
Abandonado,
existia ainda em Cruzeiro, um prédio histórico, patrimônio da RFFSA, de valor
incalculável que se perdia. Foi então que o Grupo da ABPF pensou na velha construção
como um possível museu ferroviário. Muitos contatos foram feitos e com o apoio
e empenho do Grupo “Casa do Engenho”, formado por universitários cruzeirenses,
com disposição preservacionista, chegou-se afinal no dia 23 de março de 1990,
data em que o Diretor Administrativo da ABPF – Cruzeiro, Benedito Pereira,
assinou o termo de responsabilidade sobre o prédio da Rotunda.
A seguir,
em 30 de março do mesmo ano, em Belo Horizonte foi decidida a transferência de
duas automotrizes para Cruzeiro e assinado o comodato reconhecendo a Rotunda
como Patrimônio Histórico, graças ainda, ao trabalho do Sr. Pereirinha e
empenho do Grupo Preservacionista “Casa do Engenho”.
No dia 05
de Maio de 1990, em entrevista à Rádio Mantiqueira de Cruzeiro, o então
Prefeito Hamilton Vieira Mendes leva ao conhecimento público o seu interesse em
fazer do Prédio da Rotunda um espaço cultural, um Museu Ferroviário. Falou
ainda do seu empenho junto à Diretoria da ABPF, ao Sr. Benedito Pereira – “Pereirinha”,
para a implantação de uma linha turística ligando Cruzeiro-SP a São
Lourenço-MG, linha ferroviária, que ao mesmo tempo poderia servir como
transporte para os Bairros Regina Célia, Pontilhão, Passa Vinte e toda a zona
rural cruzeirense.
Aos 7 de
Julho de 1991 – Carlos Rabello e o Diretor Administrativo da ABPF – Regional
Cruzeiro, o Sr. Benedito Pereira foram a cidade de Três Corações pesquisar e
escolher as locomotivas que deveriam ser transferidas para Cruzeiro.
Desta data
em diante foram inúmeras as viagens realizadas por eles. Sempre em busca de
peças, informações, etc. Viagens custeadas totalmente a cargo pessoal de cada
um, sem qualquer ônus para os cofres da ABPF. Entregavam-se, portanto, os
diretores da entidade, à aventura, lutando pelo sonho de ver implantado em Cruzeiro o circuito turístico.
Assim,
juntando peças tornou-se o Sr. Benedito Pereira, um guardião do todo patrimônio
da RFFSA, agora sob os cuidados da ABPF.
Em 10 de
Dezembro foi oficializada a solicitação de transferência de Campinas para
Cruzeiro da Litorina encontrada no acervo da ABPF, em Campinas. Em 06 de Julho
chegou a Cruzeiro a Locomotiva 770 trazida de Porto Novo pelo esforço
incansável e insistência do Sr. Benedito Pereira. Até então, ainda pensava-se
na possibilidade de um trajeto ferroviário que terminaria em São Lourenço-MG.
No entanto, pouco tempo depois, morria o
prefeito Dr. Hamilton Vieira Mendes. Logo a seguir, definiram-se dificuldades
incalculáveis. Seria necessário um investimento extremamente alto para a
manutenção do trecho de linha Cruzeiro-SP/São Lourenço-MG. O custo para a
recuperação da ferrovia atingia patamares impensados e não havia garantias de
retorno financeiro, apoiado unicamente no turismo, que fosse capaz de cobrir
tal montante.
Em vista
disso, foi pensado um trajeto bem mais modesto, um trem que partindo de
Cruzeiro-SP fosse apenas até a Estação Rufino de Almeida onde deveria haver
atrações de época, de interesse para o turismo histórico, e de lá, voltar a
nossa cidade.
Esse limite no sonho e no percurso devia-se a falta de
recursos para a manutenção dos trilhos e dormentes até ao alto da serra, onde o
abandono e as intempéries teriam prejudicado definitivamente o assento da
ferrovia, não oferecendo segurança aos passageiros em determinados pontos, por
terem sido, os trilhos, arrastados pelas enxurradas, e, principalmente, devido
ao perigo de desmoronamentos das encostas e pontes.
Estava o
“Grupo da Maria Fumaça”, dividido. Sem contar com o desgaste das máquinas que
muitos ferroviários afirmavam que não agüentariam a subida da serra pela idade,
pelo tempo de uso, pelo desgaste; mesmo sabendo que para subir a Serra da
Mantiqueira e atravessar o túnel histórico seria necessário um grande
investimento, que certamente não compensaria a recuperação e o custo de
manutenção, tanto do percurso como das máquinas; mesmo assim, muitos
continuaram insistindo que o trem deveria ir até São Lourenço/MG.
Outros, os
primeiros, no entanto, diante das dificuldades, continuaram afirmando que o
melhor seria um trajeto mais modesto, que poderia ser feito com total
segurança, mesmo com a idade avançada das poucas máquinas que restaram e que
ainda poderiam ser recuperadas.
Comemoração do Dia do Ferroviário
Em janeiro
de 1993, pensávamos numa comemoração para o dia do ferroviário, “30 de Abril”.
Eu, Naida Cortez, que até então cuidava de toda a correspondência da ABPF,
sugeri ao Sr. Benedito Pereira que nos empenhássemos em conseguir uma “Maria
Fumaça”, um pequeno trem para um passeio, uma pequena viagem, um presente para
os ferroviários aposentados e suas famílias, pela passagem do seu dia.
Até esta data vinha auxiliando o Diretor Regional de
Cruzeiro, o Sr. Benedito Pereira, trabalhando como secretária voluntária da
ABPF. Embora o cargo não fosse oficial para a diretoria nacional da ABPF
prestava esse serviço oferecendo minha contribuição, para realização daquele
sonho.
Iniciamos então, uma longa e difícil
empreitada. Via telefone, correio, fax e internet falamos com
autoridades de inúmeras cidades, até encontrarmos a máquina e os vagões
disponíveis que poderiam estar em Cruzeiro no dia 30 de Abril daquele ano.
Depois, o mais difícil: conseguirmos autorização para a circulação do trem e,
por fim, a forma de trazer o trem para Cruzeiro. Foi necessária intervenção do
Ministro do Transporte, de senadores e muitas outras autoridades.
Seria necessário, ao mesmo tempo, preparar a sede da ABPF, para
montarmos uma exposição histórica da ferrovia, onde pretendíamos apresentar ao
público toda a trajetória, a construção das ferrovias brasileiras desde o
primeiro momento. As estações, oficinas e demais instalações e as máquinas.
Mostraríamos também uma galeria de honra com os retratos dos Presidentes,
dirigentes da Rede Ferroviária,
incluindo a
mostra dos acontecimentos importantes decorrentes da implantação das estradas
de ferro em nosso país, desde o início dos tempos, até a atualidade.
Trabalhamos
arduamente durante três meses. De início para conseguirmos o trem e trazê-lo
para Cruzeiro. Centenas de ligações foram feitas. Muitos compromissos e
responsabilidades foram assinados pelo diretor da ABPF e a Rede Ferroviária. Um
trabalho intenso de manutenção da linha e mais o empenho do Sr. José Roberto da
Costa com sua equipe, trabalhando até altas horas, até o último momento, na
recuperação do prédio, sede da ABPF, ao lado da Rotunda, onde localiza-se o
espaço para eventos conhecido como Festódromo.
Escrevemos
também um pequeno boletim, um folheto com a síntese dos trabalhos realizados
até aquele momento, para distribuição gratuita e esclarecimento da população. O
trem deveria partir da Estação e seguir até Rufino de Almeida e a princípio,
deveria transportar as famílias de ferroviários e autoridades e retornando para
outras viagens, levando gratuitamente a passeio, os populares interessados.
Contudo, o
então Prefeito, João Bastos, contrariando as determinações do Presidente da
ABPF, de última hora, determinou que o trem saísse o mais próximo possível da
Rotunda. Um lugar aberto e sem controle do pessoal da segurança e de apoio, que
já estavam apostos na Estação.
Diante
dessa imprevidência, terminou ocorrendo o óbvio: uma desorganização total. Não
havia como controlar a multidão que surgiu não se sabe de onde e invadiu o trem
em grande alvoroço, atropelando os que se colocassem na frente. Estabeleceu-se
o tumulto. Com a multidão avançando, a principio, até quem não tencionava
entrar no trem foi obrigado a embarcar para não ser massacrado pela multidão. Uma verdadeira loucura!
Mesmo assim, com gente presa pela barriga, pendurados
em algumas janelas, com uma super lotação, o trem partiu. Queríamos que fosse a
primeira de um número infinito de viagens, mas o que ocorreu depois provou que
sem honestidade de propósito, sem fidelidade à causa, sem vontade política
responsável, não se concretiza absolutamente nenhuma iniciativa,
satisfatoriamente.
Tiveram acesso ao trem praticamente todos aqueles que
se encontravam no Festódromo e quando a composição chegou a Estação, “de onde
deveria ter partido”, não havia mais lugar para as famílias dos ferroviários
que educadamente ali aguardavam o trem, que demorou a sair por causa dos
discursos oportunistas dos políticos, que cinicamente roubaram a cena dos
ferroviários, “cumprimentando o povo com o nosso chapéu.”
Foram
necessárias várias viagens para que acalmassem os ânimos. Embora a idéia, o
trabalho e o empenho de trazer o trem e de montar a exposição tivesse sido
minha, com o apoio total do Pereirinha, José Roberto da Costa, Paulo
Roberto da Conceição e outros; embora
eu tivesse chegado a estafa pela luta para concretizar o sonho, dedicando-me
em tempo integral durante três meses para a realização do evento; empenhando-me
diariamente, inclusive aos sábados e domingos, “não fui convidada, não fomos
convidados para participar da festa”, que tornou-se, no último momento, um
evento tristemente, demagogicamente, cinicamente político.
Mais
tarde, ainda tive que ouvir da Dra., - papagaio de pirata de carteirinha –
parceira política e na época, possivelmente bem paga, “com dinheiro público”,
pelo tal prefeito, que “naquele momento”, Ela era uma “autoridade” e eu,
que idealizei, e trabalhei no projeto, que montei o cenário pra “ela” pousar de
estrela, que junto ao Pereirinha lutávamos para a realização do sonho de
tantos, sem a menor ajuda ou apoio financeiro do tal prefeito ou da prefeitura
municipal, “eu não era ninguém”. Esse era o “pobrema”! Por isso não fomos
convidados, disse-me a distinta advogada, não se importando em, mais uma vez,
deixar faltar o “r” depois do “p” e o
colocando no lugar do l, como é seu costume pronunciar, sem preocupação, a
palavra “problema”.
"Coisas de cidade do interior".
Assim, com
os amigos que foram impedidos de entrar no salão de exposições, acabamos, - eu
e os demais voluntários laboriosos -, formando um seleto grupo de excluídos.
Situação atual do patrimônio histórico ferroviário
A nossa "Maria Fumaça" levada para a cidade de Passa Quatro-MG, deixa-nos saudosos e entristecidos; de posse apenas das lembranças de um sonho que quase se concretizou e muitas fotos, no acervo particular do Sr. Benedito Pereira. É 2006 e ela ainda está lá, na cidade mineira.
O marco
histórico ferroviário erguido na comemoração do cinqüentenário da ferrovia, a
Rua Engº. Antonio Penido, não tem mais a histórica placa de inscrição roubada
ou retirada, enfim, removida; e suas imediações, foram transformadas
em estacionamento particular.
A Rotunda - Centro Cultural Rotunda - além de não se ligar a parte alguma do mundo por não ter merecido sequer uma linha telefônica, não oferece um nível de cultura que se pretendia. Nem mesmo a biblioteca municipal foi montada com dignidade, como pode ser constatado abaixo e o espaço não atende minimamente ao projeto original.
Coberto com tendas plásticas e por vezes inancessível pelas águas da chuva que é pulverizada pelo telhado frágil e sujeita a enchentes no seu interior, a biblioteca transformou-se em um triste depósito de livros velhos e umidecidos que em nada estimulam o hábito e o prazer da leitura.
A Rotunda,
construída entre abril de 1929 e setembro de 1930, única no Brasil em 180º,
“patrimônio público”, não seguiu o projeto original que define o espaço como
Centro Cultural, determinando 11 módulos, onde deveriam funcionar: -
“Administração, Loja, Lanchonete, Teatro, Sala de vídeos, Salão de jogos,
Biblioteca/Informática, Exposições Administrativas, Exposições variadas,
Exposição permanente e Ludoteca e Oficinas de arte, no antigo Almoxarifado.
O espaço
reservado as oficinas foi cedido ao Conselho do Negro, convenientemente alí instalado e que também
não atende aos seus propósitos, terminou sucateado, estabelecido num salão sem bebedouro e sem
sanitários, “como os antigos porões de navios negreiros”, sem dignidade física.
O mais,
sobrevivendo no jardim, na entrada da Rotunda, está o histórico girador de
trens com a base guardando a água da chuva e servindo de criadouro de
mosquitos e um velho e desolado vagão em franca deterioração - e que em
breve terá desaparecido se não correrem em seu socorro - ou,
quem sabe, termine desaparecendo, como o “trenzinho” estacionado na praça
Antero Neves Arantes, que da noite para o dia, na administração de João Bastos
Soares, desapareceu, inexplicavelmente,
e pasmem: “sem que absolutamente ninguém soubesse o motivo, ou, tivesse
visto”!
Não há vontade política de preservar a história da cidade com seus valores, por isso me sinto a vontade para relatar a verdade. A nos, outros, que não vivemos de "aparências", que "não somos ninguém", que não temos o poder de decisão mas respeitamos os valores do passado, resta-nos “preservar a história”, nada
mais.
O instrumento mais
eficiente de manipulação do povo é a destruição de sua história! Sem
história não somos ninguém e se não somos ninguém, não temos
auto-estima, orgulho, coragem e vontade suficiente para resistir.
Enfraquecidos somos levados como os gados, as manadas, para os
matadouros. Nos tornamos inevitavelmente mansos e dispostos a "servidão
voluntária".
Este texto é cópia autorizada do Capítulo X do livro "Cidade Desvelada" de Naida Cortez