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                                                            O maior Amigo da Ferrovia!


Na cidade de Cruzeiro e região, onde existiram ou existem ainda trilhos, estações e trens, não é possível falar sobre ferrovia sem lembrar, sem mencionar uma figura ímpar, um ferroviário apaixonado, o maior e o mais dedicado
Amigo da Ferrovia, o Sr. Benedito Pereira da Silva, o "Pereirinha", que honra-nos por ocupar o cargo de Vice Presidente da Unic, e, a quem agradecemos por permitir-nos criar, nesse site, um album de fotos, reprodução de parte de seu arquivo histórico particular.

Por tratar-se de uma pessoa especial, mereceu de nós um link próprio e uma biografia carinhosamente escrita,
que fica disponibilizada a seguir:


Benedito Pereira da Silva, o “Pererinha”                                                                                                                               por Marcos Paula  

Filho de ferroviários, 78 anos de idade, Benedito Pereira da Silva, o popular “Pererinha”, nasceu na mineira e aconchegante cidade de Maria da Fé, no dia 29 de fevereiro de 1928.

Quando garoto, passava o dia sentado na pequena estação ferroviária da cidade. Gostava de observar trens de carga e de passageiros, que chegavam e partiam. Apito de trem era música para os ouvidos do menino que via nascer ali a paixão por eles. 

Jovem, forte e decidido, aos 17 anos de idade - no ano de 1945 - começou a trabalhar na ferrovia como conservador de linhas. Era um trabalho braçal pesado, mesmo para um moço de 17 anos. Mas, ele o executava pelo prazer de poder estar próximo aos trens: trocava trilhos e dormentes, fazia capina e limpeza de linha férrea em geral e socorria trens acidentados.

Até o ano de 1957 trabalhou em Maria da Fé e em Carmo de Minas na chamada via permanente. Dedicado ao trabalho e sendo exemplo para os demais companheiros, aos 30 nos de idade em 1958, foi promovido a auxiliar de almoxarife e em seguida transferido para Cruzeiro.

Aqui, devido à sua capacidade e facilidade em desenvolver funções, rapidamente foi promovido a Agente de Almoxarife, cargo que ocupou até sua aposentadoria em 1982, aos 54 anos de idade.

Como Agente de Almoxarife chegou a trabalhar na antiga FNV-Fábrica Nacional de Vagões: recebia o material que chegava para a fabricação dos vagões da Rede Mineira de Viação, que depois de prontos eram despachados por ele para Três Corações.

Embora aposentado, sua paixão por trens até hoje é algo para se admirar. Atualmente passando por problemas de saúde, Pererinha se emociona ao falar deles, volta no tempo e relembra os dias de glória da ferrovia.

Bom de memória cita nomes de antigos companheiros e começa a contar histórias. Diz que foi na ferrovia que passou os melhores dias de sua vida e, que se fosse possível voltar no tempo, voltaria e viveria novamente toda aquela emoção de ser ferroviário, pois, a ferrovia sempre teve e terá espaço em seu coração. “Foi nela que cresci e criei minha família, devo tudo que tenho aos trens e à ferrovia. Agradeço a Deus por ter me dado a oportunidade de viver tudo que vivi”, diz emocionado.

Conta que a família ferroviária era unida. Quando um companheiro se aposentava os demais ficavam tristes. Houve choradeira quando se aposentaram de uma só vez doze companheiros. Ferroviário é “chorão” por natureza, diz ele.

Quando acontecia acidente com algum trem, todos passavam a noite acordados e sem alimentação para recuperá-lo e colocar a linha férrea em funcionamento o mais rápido possível.

Se a Rede Mineira de Viação lhe proporcionou grandes momentos de alegria, também lhe deu momentos de preocupação quando foi arrendada pelo então governador de Minas Gerais, Benedito Valadares. Foi uma época difícil em que os ferroviários ficaram até seis meses sem receber pagamento.

A Cooperativa da Rede que abastecia os funcionários ficou com seu armazém vazio. Gêneros de primeira necessidade como açúcar e arroz eram artigos de luxo para os ferroviários. Eles recorriam ao comércio local, que lhes negava crédito.

Mas com a posse de Juscelino Kubistchek na presidência da república em 1955, a Rede Mineira voltou ao comando do governo federal. Bom de memória, o velho ferroviário diz que JK foi um grande presidente e excelente patrão para os ferroviários. “Até hoje não apareceu um como ele”, diz.

Com JK, os ferroviários voltaram a receber seus pagamentos em dia e o crédito no comércio voltou. Mas Pererinha também registra que foi no governo JK que a indústria automobilística cresceu dando início à decadência da ferrovia. “Chegamos a ter 40 mil km de ferrovias no Brasil, hoje elas estão praticamente desativadas”, diz ele.

Conta que nesta época tirou férias para trabalhar na campanha de JK e de Tasso Prado Galhano, então candidato a deputado estadual pelo Partido Democrata Cristão que viria a ser eleito por Minas Gerais.

Tasso era tio do cruzeirense Hamilton Galhano. Com passe livre, Pererinha vinha de Belo Horizonte distribuindo panfletos dos dois candidatos dentro dos trens e nas estações. Durante uma destas viagens um trem descarrilou perto da cidade mineira de Guatama. Sem poder seguir viagem ele teve de se hospedar na cidade.

Coincidentemente, Juscelino Kubistchek estava em campanha visitando uma cidade vizinha. Pereira não resistiu e foi ao encontro do futuro presidente, que em campanha dançava num baile popular. Neste dia ele teve a oportunidade de bater um papo com Juscelino, que lhe agradeceu a campanha nos trens. Pereira diz que “JK era uma pessoa meiga e de fácil acesso, não andava cercado por um batalhão de seguranças como é comum hoje”. Bons tempos aqueles, diz ele.  

Confessa que trens e política são suas grandes paixões. A paixão pelos trens vem desde a infância. Pela política vem desde quando votou pela primeira vez para presidente em Eurico Gaspar Dutra, precisamente no dia 02 de dezembro de 1945. Daí pra frente não teve jeito, virou vício.

Da época que morou em Carmo de Minas, conta que os “coronéis” da política visitavam as pessoas em suas residências levando presentes, como um vestidinho novo para a dona da casa. O coronel entregava o presente e levava o título de eleitor da família. “Apesar das atitudes destes coronéis, a política era mais interessante, pois o fio de bigode valia como uma palavra empenhada, ao contrário de hoje”, diz ele.

Tinha ja, a política no sangue, quando veio para Cruzeiro em 1958. Aqui filiou-se ao PTB “de Avelino Jr. e do Vilico”, fazendo campanha para os dois. Fez também campanha para Jânio Quadros, com quem teve o prazer de almoçar no local onde funcionou até pouco tempo o Dumbo Supermercado.

Ainda falando de política, diz que sempre teve o maior carinho pelo cruzeirense Nesralla Rubez. Admirava seu jeito de tratar os eleitores, principalmente os que lhe faziam oposição. Lembra-se das vezes em que passava em frente à casa de Nesralla, que da janela educadamente lhe dizia: “ -Pereira, você vai almoçar comigo hoje”. Diz que Nesralla Rubez foi um dos maiores políticos de Cruzeiro porque não guardava mágoa dos adversários.

“Eu sei que você não é meu eleitor, mas quero que saiba que tenho o maior carinho por você Pererinha”, lhe dizia o elegante Nesralla. Político que guarda mágoa no coração não vai longe, diz Pereira.

Conta também que o Dr. José Diogo Bastos, pai do atual Ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos, “todo mês dava uma passada no almoxarifado da Rede Mineira para contar e ouvir histórias dos operários”.

Do ex-prefeito Hamilton Vieira Mendes Pereira tem também lembranças carinhosas. Diz que Hamilton, a exemplo de Nesralla, também sempre o tratou com carinho e respeito, apesar de pertencerem a partidos opostos. “Homem de visão, Hamilton foi um grande prefeito para Cruzeiro, sua sabedoria e vontade de ver nossa cidade crescer, marcou a história política do município”, diz Pereira de forma enfática. “Como eu, Hamilton também era um apaixonado pelos trens”, completa.  

A política

Quando começou a trabalhar na ferrovia no ano de 1945, o então garoto de 17 anos de idade nem sonhava que ela lhe traria definitivamente para Cruzeiro, onde conheceria um jovem professor no ano de 1968 que marcaria para sempre sua vida.

Nesta época, Pereira tinha 40 anos de idade. Lembro-me como se fosse hoje, diz ele, “na antiga Av. Albuquerque Lins, rua quatro (atual Nesralla Rubez) existia uma república de estudantes onde eu, o falecido Zé Domingos e o popular Carlito tocávamos sanfona e viola. Dois jovens professores nos ouviam com carinho e atenção. Eram JB e LC do Valle”. Ali nascia uma sólida amizade, que dura até os dias atuais.

Dono de um rico acervo político histórico, escrito e falado, dos últimos 50 anos da história política de Cruzeiro e do país, Pererinha tem prazer em mostrá-lo aos amigos que freqüentam sua casa. Costuma dizer que “o jornalista e pesquisador Paulo Antonio de Carvalho se sentiria como pinto no lixo se pesquisasse este arquivo”.

Meio adoentado, de cima de seus respeitados e bem vividos 78 anos, com os olhos marejados, depois de falar sobre política, tecendo diversos comentários, encerrou o bate papo, emocionado.



Veja parte do acervo histórico fotográfico
particular de Benedito Pereira -"Pereirinha"
Clique aqui e veja as Fotos.

Leia também:  "A Verdade sobre o Trem Turístico"
 
                       Carta de Agradecimentos

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