O rádio da vizinha gritava a manchete: “Libertadores 2006”... Numa fração de segundo desenhou-se em minha imaginação uma revolta popular para libertação da biblioteca, da literatura, que presa atrás das grades, amarrada, sucumbia num canto da Rotunda.
Libertadores 2006? Bem poderia ser a luta pelo direito de preservação da cultura viva... De uma reação, uma revolução cultural ... Mas, não. Não haveria de ser... Nunca aconteceria um movimento nesse sentido. Não por aqui, onde a cultura não é componente da cesta básica e sim artigo de luxo.
Tratava-se da violência de uma torcida de futebol “sedenta de pertencimento vitorioso”. Pobre povo brasileiro! Sobrava-lhe apenas aquela arena. Insaciáveis tupiniquins. “Primitivados” pela cultura européia e americanizada que tem nos "civilizado", cultura importada que para justificar os genocídios praticados por exploradores, nos rotulam “canibais”.
Pobres de nos brasileiros, herdeiros do estigma antropofágico “made in Brazil”. O empate pode ter sido a única saída para evitar-se uma tragédia ainda maior, na terra “do jogo de cintura”, “capital do terceiro milênio”, “o país do futuro” que não chega nunca; de uma São Paulo, metrópole do verde amarelo ... de um sonho intenso e do brado retumbante de um povo heróico, invejavelmente unido somente nas tragédias ou nas copas.
Trezentos policiais para fazerem o patrulhamento de uma partida de futebol... Lembrei da guarda municipal na minha pequena cidade de Cruzeiro... Como agiriam se acontecesse por aqui algo assim? O que fariam “os meninos” e as “meninas” nessas circunstâncias? A princípio foram recrutados para “organizar o trânsito”, mas se fosse necessário colaborar com a PM. Será que foram treinados ou são apenas “flanelinhas” de luxo?
Quantos seriam os afilhados privilegiados, nomeados para a guarda municipal? Reportava-me agora ao tempo da Guarda Nacional do Império, no Brasil Colônia. Assim como a nossa guarda nacional, a municipal também fora criada para atender aos interesses de grupos? Aos menos, aqueles, saberiam defender os amigos do rei, os travestidos “aristocratas”?
A guarda do império justificava-se na defesa da “nobreza”, abusando da autoridade de seus títulos comprados, barganhados, negociados, “nunca conquistados heroicamente”; enquanto, por outro lado, desmantelavam propositalmente a estrutura do Exército Brasileiro da Colônia... E aqui no município, seria o mesmo?
A Guarda Nacional era mais confiável do que o Exército pelo compromisso pessoal com a elite. Tantas corporações bem pagas! ... As milícias... Deviam ser mais confiáveis. Queriam que fosse. Eram bem remunerados para defesa dos interesses da corte. Uma espécie de mercenários oficiais, legalizados? Talvez.
O tempo todo a perambular pelas ruas, agora em Cruzeiro a história se repetia com os “meninos”. Dariam conta, ao menos, da próxima campanha eleitoral. Serviriam aos padrinhos, candidatos no município. Mesmo sem os títulos disponibilizados pela velha guarda nacional no Brasil Colônia, em Cruzeiro, terra de muitos desempregados, ainda valia a pena ser Guarda Municipal. É sempre um papel imbuído de certa autoridade. Mudam-se os tempos, os uniformes, mas não as posturas e os objetivos. Sempre haverá o abuso de poder?
Lembrava agora um episódio ocorrido pouco tempo atrás, quando tive necessidade de ajuda do “guardinha municipal”. Precisava sair com urgência e havia um carro estacionado em frente a minha garagem. Precisava socorrer uma conhecida que passava mal com sintomas de Dengue e não encontrava quem se dispusesse a levá-la ao hospital.
Ao telefone, eu ouvia... O 8º caso na mesma rua em três dias. “Sim”. “E não tem ambulância não senhora!” Esposa de um funcionário municipal, a pobre mulher tinha pressa em chegar ao Pronto Socorro, igualmente Municipal. Não havia ambulância também municipal para buscar a enferma. Quase tudo por aqui é Municipal! Fora os profissionais competentes. “Não é pressão alta”. “As vizinhas dizem que é Dengue sim”. “E a vigilância sanitária?” Perguntei, mas não obtive resposta.
Entre besouros, borboletas e casulos o criminoso ambiental noticiado no terra, devia ter recolhido também os mosquitos de “meinhas” de listras pretas. Poderia levar muitos e ninguém o acusaria de coisa alguma. Com certeza, seria um grande favor. Eles já estavam fazendo muitos estragos por aqui. “Se tomar AS a coisa vai se complicar... Ela pode ter uma hemorragia...” “É melhor não se automedicar”. “Ela está muito gorda e não há ninguém que queira levá-la ao hospital... Por favor, precisamos de sua ajuda”. “Sim, sim, eu já estou indo”. “É só tirar o carro da garagem”. Repeti angustiada, mais uma vez, no celular, já descendo a escada.
E o veículo estacionado em frente a minha garagem continuava lá. E eu ali, olhando para aquele guarda, um rapaz confuso que não sabia o que fazer. Tirou um caderninho do bolso. Escreveu, riscou, tornou a escrever, riscou novamente. Tive a impressão que anotava indeciso as dezenas pro jogo do bicho. E a gordinha da Dengue que espere... Quem manda ser só a mulher de um funcionário municipal?
Aflita, perguntei: E então seu guarda? Há mais de 3 horas esse carro foi deixado aqui. O guarda: Sim, eu sei, respondeu cheio de mau humor. Ele estava aqui quando eu fui almoçar. Eu: Ah é? Já tinha visto? E então? O guarda: Silêncio.... Eu: Ao menos chame uma ambulância, pelo amor de Deus. O guarda: Silêncio... Eu: Voltou a anotar as “dezenas” pro jogo do bicho! – pensei. O guarda: Ajeitou o “quepe”. Eu: Essa coisa aí não funciona? Apontei o aparelho que ele trazia pendurado na cinta. O guarda: Silêncio... Eu: A gordinha da Dengue...Chame a ambulância pelo amor de Deus, o resgate, o guincho... O guarda: Olhou pra mim com estranheza. Eu: O guincho para o carro e não para a gordinha. Expliquei tentando evitar uma possível confusão. Tire esse carro da frente da minha garagem, por favor. É uma emergência! O guarda: Está certo, gritou. Mas não temos guincho. Eu: Não? Então como é que faz? O guarda: A Senhora quer me fazer o favor de aguardar? Eu: Sem nenhum favor a você eu estou aqui a quarenta e cinco minutos e a gordinha da Dengue lá, passando mal, me esperando, precisando de socorro. Respondi, agora ainda mais angustiada. O guarda: E então? Eu: Então o quê? O guarda: Não responda pra mim desse jeito... Engrossou a voz trêmula querendo me lembrar de sua autoridade, mas, sem olhar pra mim. Talvez para evitar ter que admitir que com a minha idade, eu poderia ser sua avó. Não gritaria com sua avó, gritaria? Pensei. O guarda: “Volto em um minuto”. Falou e saiu. Voltou meia hora depois e declarou quase solenemente: “O guincho já vem”. “Este carro está com os documentos vencidos”. Eu: Desculpe “seu” guarda, mas a gordinha da Dengue... O guarda: Eu sei, respondeu aos berros.
Teria talvez me escalpelado, se o motorista do carro não tivesse aparecido. Surgiu não sei de onde e apresentou sua identidade: “Militar – aposentado”. O guarda: “Ah!... Sim Senhor. Sim Senhor. Sim Senhor. Agora eu já chamei o guincho! Falou tristemente franzindo a testa, simulando arrependimento. “O Senhor sai com o carro, da uma volta no quarteirão e volta aqui pra pagar os noventa reais, esta bem?” “O guincho é particular... Sabe como é? Chamou, tá chamado!”
O aposentado ensaiou um sorriso malicioso, entrou no carro e ligou o motor... O guarda debruçou na janela com ares de gravidade e perguntou: - Como está Angra dos Reis? ... O homem olhou sem entender, visivelmente avesso a intimidade. “A chapa do carro Senhor”. Explicou o guardinha sorrindo, apontando a frente do veículo. “Ah! Sim, está uma beleza! Uma beleza!”, respondeu o reformado.
“E a gordinha da Dengue, como deve estar?”, perguntei ao guarda. Ele bufou, roncou junto com o motor do carro do homem que engatou e sumiu, repetindo: “Uma beleza!... Uma beleza!”
Bem que eu tinha lido que neste período, com “a lua em Áries” eu estava no meu inferno astral... Quem pode sobreviver ao inferno astral?... Mas, existe um “inferno astral?” Não é demais? Não chega o inferno físico-material? Uma epidemia, a falta de ambulância, os privilégios de poucos, o descaso, “os desvios de verba” etc., com tudo isso e tantas outras coisas mais, será que merecemos ainda mais “um inferno astral?”