Junto
aos primeiros raios de sol que dissipavam a névoa fina e fria da madrugada, eu
chegava ali na Rotunda, a espera de encontrar respostas para minhas insistentes
indagações. Sentia-me restaurada nos ares do amanhecer, especialmente em dias
assim, de sol morno, em manhãs de outono.
Sabia que àquela hora ainda não haveria ninguém para atender-me. Faltava
muito para o início do expediente mas, eu esperaria com prazer.
Fiquei
observando a construção em ferradura, a engenhosidade do virador de máquinas,
tentando imaginar o movimento dos operários da ferrovia, preparando-as para a
viagem, para a difícil subida da Serra da Mantiqueira. Uma “Maria Fumaça”
puxando e outra empurrando os vagões serra acima, apitando angustiadas! Eu me
lembrava disso. Fizera algumas viagens com meu pai, que a certa altura, no alto
da serra, acertava meu cachecol cor-de-rosa para proteger-me do frio, do hálito
úmido do gigante preguiçoso que nunca quis despertar.
Notem
que o dorminhoco, o “gigante adormecido” foi escolhido como símbolo da cidade.
Quantos
sonhos foram transportados naqueles vagões sobre os trilhos? Teria a Maria
Fumaça, levado consigo o nosso patrimônio cultural? Teria a nossa história
alimentando suas fornalhas e depois se dissipado no ar como a fumaça? Não
restou sequer a fuligem para ao menos desenharmos um fino esboço dos
acontecimentos passados?
Esperei
horas até que um funcionário apareceu informando que não havia ninguém para
abrir a biblioteca naquela manhã. “O responsável está em férias e não foi
designado substituto”. Voltando logo após o almoço, certamente eu poderia
ser atendida. Decepcionada, sai para voltar às 2:00, às 3:00, às 4:00, às 5:00
horas da tarde, quando já estavam fechando, e nada. Como um grande favor,
obtive a informação que o funcionário estivera por lá “quatro vezes” durante a
tarde e não havia “me encontrado” ... Curiosamente, ele, o funcionário “até
quis me encontrar, esperou bastante tempo!”...
Voltei
no dia seguinte à tarde. Também não havia ninguém para atender-me. “É que
hoje ele veio de manhã” porque ele não poderá vir agora a tarde. Ah, sim? “E
como vamos saber se amanhã ele virá antes ou depois do almoço?” “Não temos como saber só vindo aqui. Se ele
estiver, estará”. “Ora, não diga?” Observei cheia de surpresa. Com essa colocação devo deduzir que se
ele não estiver não estará, correto? “É isso mesmo Senhora”. E como vamos
saber...? “A Senhora verá se vier e ele estiver na hora que a Senhora vier”...
Sim claro! Eu entendo. “E se eu ligar antes, para saber?” “Pode ser que atendam
ou não. Aqui só tem um ”orelhão” . “Não temos linha de telefone ligada no
escritório.” “Não?!” Perguntei surpresa. “Está me dizendo que no século
XXI, aqui no eixo Rio/São Paulo, temos um Centro Cultural isolado do Universo
Cultural? Um Centro Cultural que não se liga a coisa nenhuma nesse mundo?”...
“Então, pela lógica, certamente, temos aqui um orelhudo e não um orelhão”...concluí.“Mudar
pra que, não é meu bem?” Disse à moça que apressou-se a me explicar que
estava ali apenas pra ensaiar uma peça de teatro. “Ah, sim?”. Então devo
agradecer a sua gentileza. Mas, não há um funcionário responsável pelo
atendimento. Tem sim senhora, o Alemão! ... Seria por ventura um alemão
assim como Fernando Henrique, naturalizado brasileiro? Certamente que não. Nem
neoliberal, nem vendedor do Brasil. Era apenas um alemão cruzeirense, genérico,
tipo: do Paraguai”... apenas “alemão”. Alguém que, como a Diretora do Centro
Cultural Rotunda nomeada pelo Prefeito, pensa e age como “dono” do patrimônio
público municipal.
Olhei para a biblioteca de
longe. Estávamos separados por uma longa distância, por grades amarradas ainda
como naquela noite do casamento. Ultimamente vunha acontecendo festas particulares no espaço do "Centro Cultural"Havia um imenso espaço vazio para se chegar
até lá. Perguntei por onde era a entrada. “Por aqui mesmo”, respondeu o
homem que chegava com a vassoura na mão. “Mas as grades estão amarradas”, insisti.
“Fica assim mesmo. A entrada é por aqui mesmo”. Virou-se e foi sumir na
primeira porta, encerrando a conversa. Baixei os olhos e saí desanimada. Havia
se passado mais um dia!
Voltei
na tarde do outro dia. O funcionário “da vassoura” do dia anterior riu;
naturalmente, “de” mim e não “para” mim. “A Senhora novamente?” “Sim, hoje vou esperar e não vou pra casa
sem o que quero”. Ele balançou a cabeça ainda rindo. “Deve ser muito
importante o que quer, não?”
hãrã... Respondi virando a costa, me vingando da indiferença com que me
havia respondido no dia anterior.
Fui procurar um lugar para sentar-me ... 2h30 minutos depois ninguém, absolutamente
ninguém mais havia entrado ali, resolvi sair pra tomar um café. Ocorreu-me que talvez pudesse conseguir o
livro que eu queria, ou quem sabe outros títulos, na biblioteca da maior escola
da cidade. Animada, fui até lá.
Cheguei
na entrada principal. Parei por uns instantes pra conter a emoção. Lembrava da última vez que ali estivera e ao
sair, parei para despedir-me. Suas paredes branquinhas refletiam a luz do sol.
Naquela manhã fui a última a sair do prédio e quando a porta foi fechada, com
um aperto dolorido na garganta, entendi que o período dourado, o mais doce de
minha vida, havia terminado. Logo, estaria perdida do meu batalhão e nunca mais
seria reconhecida por ele.
As poucas amigas que minha timidez me permitiu ter,
professores, risos e brincadeiras; a minha falta absoluta de habilidade para os
esportes que tanto fazia rir meus companheiros, a fragilidade de minhas
perninhas extremamente finas e a baixa estatura que sempre me deixaram em
desvantagem nos momentos de competição, tudo seria esquecido.
Até
mesmo a minha invejada intimidade com os números, a facilidade com as letras e
línguas, tudo em breve estaria dormindo no passado. Ninguém saberia com quando
carinho eu guardaria o resto do lápis, da borracha, do caderno de desenho e o
caderno de música que usei no meu último ano de estudos ali.
O primeiro livro
que “li inteirinho”...Uma História e Depois Outra... Eu o encapei, cobri
com uma capa vermelha brilhante para se destacar dos demais, mais tarde, um
dia, quando eu tivesse a minha sonhada biblioteca. Assim, guardo até hoje o
volume, a “minha relíquia”. A verdade era única e vibrante: Eu amava aquela
escola! Era o que me restara depois da mudança de minha família para a Capital.
Transferido
meu pai para São Paulo, anos depois eu deixava a casa de minha avó e partia.
Não queria mudar, mas, não queria viver longe dos meus pais. Receava perder a
intimidade, a familiaridade, ficando longe deles; o que de fato acabou
acontecendo. Tinha sido muito difícil, muito triste os últimos anos. Não sabia
que tudo seria ainda pior depois disso. Com 14 anos eu já me sentia com mais de
vinte. Agora teria que perder definitivamente, meu batalhão. E isso doía, doía
muito.
Lembrava
de quando sentei no fundo do pátio e ponderando todos os pontos possíveis,
tomei a decisão extremamente difícil para uma menina de apenas 14 anos. Iria
pra São Paulo. Qualquer que fosse a minha escolha, ir ou ficar, eu sabia,
implicaria em grandes perdas: do convívio com a família, meus pais; ou, dos
amigos, professores, do cenário da Serra da Mantiqueira que parecia abraçar e
proteger todos daqui, nessa época, meus irmãos.
Aprendi
muito cedo que escolher também é rejeitar, é abandonar. Por outro lado, foi justamente a
sensação de abandono que me fizera estreitar os laços com a leitura, me fizera
ainda mais próxima dos livros, os quais não apenas lia mas, “ouvia”, como se
fossem as longas histórias que na infância, meu pai costumava contar antes de dormir.
Não consumia,
convivia, conversava com os livros para diminuir a possibilidade de lágrimas.
Meus avós não entenderiam. O velho detestava choro. Restava-me a leitura. Sem
televisão, longe dos meus irmãos, seriam os livros os meus companheiros. Eles sempre
teriam novidades para me contar, e o
que era melhor, nunca se aborreciam comigo e me levavam para realidades e
universos fantásticos. Era como uma viagem. Sentia muito prazer em viajar!
Agora eu
estava ali, lembrando minha opção. Depois de uma vida, voltava à porta de
entrada da minha velha escola, antes, sempre aberta e sem vigia. A possível
sensação de familiaridade, no entanto, era negada pelo cadeado balançando como
pêndulo na corrente, como a dizer não a minha expectativa de entrada.
Respirei
fundo e me aproximei. Logo fui atendida “pelas grades”, por uma senhora
simpática, com um sorriso ensaiado. “Gostaria de saber se a biblioteca desta
escola tem algum livro antigo sobre a história de Cruzeiro?” A resposta foi
seca, automática: “Não sei não senhora, mas mesmo “qui tivesse”...
a biblioteca é de uso exclusivo dos alunos”. “Sim, claro.” “Queria apenas saber sobre alguma publicação
antiga” ... “Só para os alunos,
Senhora.” Repetiu, cortando a minha frase pelo meio.“Não acredito que eu
não possa ao menos visitar, saber, ver”. Teimei. “Se não é possível
levar, gostaria apenas de saber se há e consultar, talvez anotar algum título,
alguma informação”...“Posso falar com a Diretora? Ela está?”. ”Sim, mas tem que dar a volta no prédio e
entrar pela Rua 7”. “Por lá? Esta bem. Obrigada.”
Uma
esperança se abriu no horizonte. No entanto, quando cheguei ao pequeno portão
igualmente com grades e trancado a cadeado surpreendeu-me ser atendida pela
mesma pessoa que a pouco estava na entrada principal. “Ora, podia jurar que
você estava agora mesmo do lado de lá”. “Sim, estava”. Respondeu, agora sem
sorriso. “O que deseja?” Perguntou como se nunca tivesse me visto. Seria
essa, uma forma ensaiada, programada para atender? Estranhei. “Falar com a
Diretora, lembra?” Que estranha amnésia, pensei. Em tão pouco tempo, alguns
minutos passados e já não lembrava? “A Diretora é aquela”. Apontou na
direção da porta principal, mas sem destrancar o portão ou me convidar pra
entrar, mostrava exatamente na direção onde eu estivera minutos antes. “Sim?
Pode fazer-me o favor de dizer-lhe que eu gostaria de falar com ela?”. Balançou a cabeça em sinal afirmativo e foi
no sentido contrário ao que a diretora estava, entrando na secretaria. Deve
estar ocupada, justifiquei. Deve levar meu recado em seguida. Mas não, não saiu
de lá. Desapareceu no fundo da sala.
Passado
uns 15 minutos a Diretora veio em minha direção, ha uns três passos,
desviou-se. Fiz um sinal mostrando que eu queria falar com ela. Pediu que
aguardasse um momento. Encostei-me na grade ainda do lado de fora, em frente ao
relógio que me mostrava a hora pelo guichê da secretaria. O telefone tocou. Ela
atendeu. Chegou uma funcionária, ela atendeu. Um pai de aluno. Um aluno, outro
aluno, uma professora, a funcionária que me recebeu. Outro aluno, um professor,
outro professor, o telefone, outra professora. E o ponteiro do relógio ia
completando a volta quando ela resolveu se aproximar. Como a recepcionista,
veio com ares de quem estava me vendo pela primeira vez, embora eu não tivesse
saído nem um segundo de sua frente, e o tempo todo ela estivesse me observando
de longe. Tive a certeza que me estudava, tentando adivinhar minhas
“verdadeiras” intenções. Eu era uma “Ete” naquele corredor frio.
Eu já
estava desistindo de esperar quando ela se aproximou. Expliquei-lhe o que
queria. Severa, me preveniu. “Se encontrar o que quer tem que consultar
aqui, não pode levar.” “Esta certo, mas talvez precise de uma autorização da
Senhora, a bibliotecária não me conhece e pelo que entendi não vai querer me
atender”. “Eu vou com você até lá”. Agradeci a gentileza ela abriu o
cadeado, eu entrei e fomos andando pelo corredor. Eu estava uns dois passos à
frente quando chegamos ao saguão. Olhei em volta e parei esperando que ela
tomasse a frente, ela não veio, havia desaparecido.
Pude ver
apenas um pé numa sandália fina, quase engolida na borda da calça azul, sumindo
na parede. Diria que ela entrou na parede. Parei uns minutos sem saber se
esperava ou continuava. Iria sem ela... mas, por onde ir? O saguão abria-se em
três alternativas, seguir em frente, à direita ou à esquerda. De onde estava
pude ver os primeiros degraus de mármore da escada para o andar superior. Fundos, gastos, como conchas. Era o mesmo de
40 anos atrás. Doeu-me o coração e encolheu-me a alma.
Alguém
deve te-la chamado? Não sabia com certeza. Parei e esperei alguns minutos.
Quando a faxineira passou com o balde e o rodo, perguntei onde ficava a
biblioteca. Ela apontou para fora. Eu teria que ir ao pátio e procurar uma parede
“bem” azul. Escorreguei para fora procurando não ser vista pela “porteira” que
parecia interceptar todos que passassem a sua frente. Logo encontrei o prédio.
A porta de entrada estava fechada. Trancada!.. Um quadro de horário, numa
cartolina informava com muita clareza, os dias da semana, os horários de
“funcionamento”. Quarta-feira o dia todo até 22h00. Só não disseram que “nem
todas as quartas” porque era quarta-feira, por volta de 16h15 e estava
trancada. Ocorreu-me que poderia ter havido uma ordem da secretaria. Afinal,
porta trancada evita problemas.
Meu
Deus, como é difícil conseguir um livro nessa cidade! Saí sem olhar para os
lados. Passei pela Diretora, pela funcionária da limpeza, pela porteira e sem
olhar para elas, sem dizer nada cheguei a calçada. Do lado de fora ainda podia
sentir os olhares pesando em minha nuca. Fiquei imaginando se eu fosse alguém
que estivesse tentando “gostar de ler”... Peguei o carro e voltei a Rotunda,
decidida que aquela seria a última tentativa. Iria a Campinas e certamente
encontraria tudo sobre a cidade de Cruzeiro. Afinal, Hilton Federici havia
escrito diversas obras sobre Cruzeiro e lá, na Unicamp, onde a cultura é coisa
séria, lá onde ele havia lecionado, eu conseguiria certamente, algumas cópias
dos trabalhos do respeitável professor.
Pensava
seriamente em viajar para Campinas quando atravessei os portões do “Centro
Cultural” e chegando próximo a entrada, abriu-se, para minha surpresa, enfim,
um cenário diferente.
O Centro Cultural
estava vazio, sem qualquer atividade, como sempre, o diferencial agora era que,
na imensidão, sentado em uma cadeira branca de plástico, estava um homem com
uma pasta ao lado dos pés, no chão. Seria a alma que eu tanto esperava
encontrar? Tranquei o carro com os olhos pregados nele. Não se movia. Teria que
certificar-me de que estava vivo, considerei.
Fui até
lá. Cumprimentei contando com a possibilidade dele ser apenas uma miragem, mas
ele respondeu balançando de leve a cabeça. Para confirmar que não se tratava de
uma visão, perguntei se era o responsável pela biblioteca. Antes de responder,
ele apontou uma cadeira a pouca distância, sem dizer palavra, fazendo um sinal
para eu pegar e sentar. Só me faltava essa, deve ser mudo, pensei. Obedeci sem
tirar os olhos dele. Queria ter a certeza que não iria sumir em alguma parede,
como a Diretora daquela escola. Certifiquei-me de que não havia nenhuma parede
próxima. Trouxe a cadeira e sentei.
O homem
parecia empalhado. Não falava, não se movia, não respirava. Tinha os cotovelos
apoiados nos braços da cadeira e as mãos cruzadas, como se a espera de alguém
para estica-lo e guarda-lo num caixão. Olhava pra mim misturando aborrecimento
e vaga curiosidade. Parecia fazer um grande esforço para manter o rosto, o
pescoço virado em minha direção. Ficou me olhando um bom tempo e finalmente
perguntou. “O que você quer?” Bem, eu estive aqui algumas vezes... “Eu sei.
O que você quer?” O Senhor é o responsável pela biblioteca? “Sim”,
respondeu com autoridade. “Já está fechada?” “Não, por que?” “Pensei que
estivesse porque o Senhor está aqui e a biblioteca está do lado de lá e as
grades amarradas”... “O que você quer?” Perguntou cortando minha fala. “Um
livro”... “Isso eu sei, já me disseram”, falou cortando mais uma vez a
minha frase. “Bem, gostaria de ler sobre a história de Cruzeiro”. “Por que?”.
Perguntou sério e seco.
Por uma
fração de segundos fui a biblioteca da Praça Roosevelt, em São Paulo. Lembrei
das salas enceradas que eu costumava freqüentar; das prateleiras limpas e
alinhadas por onde é possível circular, tocar nos livros, folheá-los, escolher
sem pressa. Encontrar amigos, jogar damas, xadrez, consultar áudios. Nunca me
perguntaram “por que” estava lá ou “por que” pretendia ler este ou aquele
livro. Não diria a ele que pensava entender o porquê da cultura estar assim
imobilizada, subestimada, esquecida, deteriorando na cidade de Cruzeiro. A bem
da verdade começava a saber porque.
Mostrando
uma mórbida curiosidade, ele aguardava minha resposta. “Bem, acho que todos
devemos conhecer a história da nossa cidade, não concorda?”. “Humm!”
Resmungou e nada mais. Não se movia. Continuou sentado. Petrificado. Cheguei a
duvidar que pudesse pensar qualquer coisa. “Mas por que é importante
conhecermos a nossa história?” Não acreditava que depois de tanta espera,
tantos dias, agora teria que usar a arte do convencimento, toda a minha força
persuasiva para conseguir acesso a um livro de história.
Eu teria
paciência. Afinal eu havia reservado aquele dia para chegar a alguma publicação
e agora estava ali, bem ao lado do “Sr. Responsável pelo acervo Municipal”.
Pouco importava se ele tratava-me como se eu fosse algo diferente, uma espécie
que ele nunca tinha visto.
Talvez ele tivesse razão para tanto, afinal, de
fato, eu era uma coisa meio incomum, era uma leitora; enquanto ele, parecia-me
ser mais uma peça do acervo Municipal do que exatamente um funcionário, se
considerarmos que funcionário, pela lógica, deve literalmente funcionar. Seria
ele sempre assim? Meio desligado, um tanto emperrado, como se estivesse fora de
uso? Se “funcionava” estava aquele “funcionário” com algum defeito, avariado.
Estranho,
anacrônico como uma velha caricatura de dois séculos atrás, esforçava-se
talvez, para parecer um contemporâneo. Cheguei a acreditar que tudo não passava
de um engano. Talvez ele tivesse saído de algum livro velho caído da
prateleira, ou quem sabe, seria um daqueles bonecos empapelados, esquecidos por
lá, na Rotunda, depois da derradeira exposição.
Ele
continuava calado. Pensei em gritar em sua orelha pra ver se o despertava.
Aquele silêncio me desconcertava, começava a me fazer mal. Mas, eu teria
paciência. Afinal, “era ele quem tinha o alicate que apertava os arames, que
prendiam as grades, que cortaria os nós, que empurraria a tábua, que
atravessaria o deserto, que chegaria ao acervo, que iria até a prateleira, que
procuraria os volumes, que preencheria a ficha, que me entregaria os livros”.
Teria só que aguardar que ele fizesse isso - “se quisesse, se tivesse, se
cortasse, se empurrasse, se andasse, se chegasse, se encontrasse, se
escrevesse, se entregasse, enfim, se fosse até lá -”... Tudo tão simples!
“Acho
que deve ter alguma coisa sim”. Respondeu um bom tempo depois. “É para
trabalho de escola?” Não. “Foi algum professor que pediu?” Não. “Mas, você tem
que ter ficha na biblioteca”. Eutenho.
“A ficha tem foto?” Não. “Então não serve”. “Tem que fazer outra. É obrigado a
ter foto.” “Mas quero apenas ler alguma coisa sobre a história de Cruzeiro.
Está me dizendo que vou ter que tirar foto, pagar, esperar a revelação, voltar
aqui”?... “Tem que ter foto”. Eu não acredito! Levantei inconformada.
Quando ele sentiu que eu estava à beira de uma explosão, levantou também.
Nisso
entrou um funcionário. Veio correndo direto em nossa direção e ainda de longe,
dirigiu-se a ele: “Senhor, minha esposa está passando mal. O Senhor poderia
leva-la ao Pronto Socorro, por favor?” Quase sorrindo voltou-se e disse: “Acho
que hoje não vai dar pra te atender, preciso ajudar esse rapaz”. “Não? Ora...” Era preciso pensar em
alguma coisa rapidamente, afinal ele havia se levantado e ensaiava o segundo
passo. Devido às circunstâncias isso não representava pouca coisa. Justamente
naquele momento acontecia sermos interrompidos? Bem agora que me parecia estar
mais próxima de atingir o meu objetivo? Como podia aquele homem aflito vir
atrapalhar, interromper minha empreitada? Sua esposa não podia ter esperado pra
passar mal daqui a pouco? Parecia-me uma brincadeira ensaiada e de muito mau
gosto.
Devido
ao grau de aceleração do “responsável pela biblioteca municipal”, pressentia
que levaria um tempo considerável até chegar aos livros. Primeiro teria que
desamarrar ou cortar o arame das grades, o que não me parecia muito fácil pela
engenhosidade dos nós; depois afastar a madeira que fechava a passagem, em
seguida, atravessar o deserto - mais de 30 metros - e tirar da frente uma série
de cadeiras e um balcão que obstruía a entrada a um metro das prateleiras.
Pensei angustiada...
“Eu a
levo ao hospital”, me prontifiquei. “O Senhor pega os livros e eu a deixo no
hospital. Assim, o Senhor não gasta seu precioso tempo, nem gasolina. Para mim,
não será trabalho nenhum, moro lá perto e estou mesmo indo pra lá. Além do mais
posso ajudar para que ela seja atendida com urgência. Ultimamente tenho levado muitos
doentes e o pessoal já me conhece. Sabe que quando chego com alguém pode ser
Dengue e... “Está certo.” Não sem
mal humor, concordou. Fechou o sorriso e foi lentamente em direção aos livros.
O aflito saiu, foi avisar a esposa.
Se
contasse ninguém acreditaria. A minha obstinação, a persistência, chegava a ser
absurda, mas eu não desistiria. Teria que ver como aquele filme terminaria. No
percurso acima descrito ele parou diversas vezes. Parava para coçar a cabeça,
ajeitava as calças, depois para coçar a cabeça novamente. Se não estivesse
sendo seguido, certamente desistiria. Estava visivelmente contrariado.
Sentia-se obrigado, empurrado, e não fazia a menor questão de disfarçar. Eu o
estava obrigando a um “grande esforço”.
Finalmente
chegamos. Ele explicou que haviam tirado as tendas de plástico abertas sobre as
prateleiras, mas, quando suspeitava que ia chover, jogava o plástico por cima,
para proteger os livros, e isso sem pedir autorização a ninguém, acrescentava
orgulhoso. O telhado feito com telhas de terceira categoria pulverizava a chuva
por toda a Rotunda, explicou. Como se não bastasse o alagamento! Em algum ponto
a água subia quase meio metro. “Um horror!” Como não dá pra cobrir todos,
acrescentou, a cada suspeita de chuva, ele cobria um lado. “Isso dá muito
trabalho! Só quem gosta mesmo de livros é que se daria a investimento
semelhante.” “A Senhora espere aqui”, ordenou e sumiu entre as prateleiras.
Voltou
com três livros na mão. Um deles era o que eu havia doado; o outro, a obra do
Sr. Borromeu de Andrade que eu ainda conservava em casa; o terceiro, este sim,
era de fato o que eu pretendia ler – escrito pelo Profº. Joaquim de Paula
Guimarães, Síntese da História de Cruzeiro – Edição Comemorativa do
Cinqüentenário do Município - Prefaciado pelo Prefeito Municipal na época – Dr.
Fernando de Oliveira Pimentel, em 02 de Outubro de 1951.
Aproveitei
o livro do Borromeu para identificar-me. Abri na página 161 – Cruzeiro nas
Artes, Poesia. “Sou neta deste senhor aqui”, apontei com o dedo o nome
em letra maiúscula - ANTONIO VIEIRA CORTEZ -, “O Senhor já ouviu falar
dele?” Ele virou o livro, esticou os olhos para cima, dentro dos óculos e
leu em voz alta: “Nascido em Cruzeiro em 1895 foi um dos fundadores da
Escola Normal onde foi professor de Inglês, Francês, Matemática e História
Geral. Além desses idiomas falava corretamente alemão, espanhol, Italiano,
Esperanto. Poeta e jornalista, fundou e colaborou em inúmeros jornais e
revistas da época (não faz referência em que época)”.
Ele
encarou-me como se estivesse ao mesmo tempo revirando a memória. “Sou neta
do Antonio, filha de Assuero Bittencourt Cortez, político no tempo do Prefeito
Dr. Avelino Júnior, seuVilico, Joab, Nelson Romanelli, João Barbosa
Rangel. Meu pai foi maçom, da loja do Grande Oriente. Mestre grau 33...” De
repente ele acordou. “Sim, claro que sei, seu avô era do Cartório! Dizem que
no enterro dele a cidade parou. Tinha gente que não acabava mais. Era muito
querido.”
Lembrava
da “morte” do meu avô? Vindo de quem vinha a observação era totalmente
compreensível. “Sim, devia ser muito querido”, emendei, dando pressa para
ir-me embora. “Até hoje eu encontro pessoas que afirmam que se não fosse ele,
não teriam a escritura de sua residência. Ele não cobrava as taxas de serviço
dos mais pobres, nem registros e outras despesas.” “Foi em 1934 que trouxeram a Comarca pra cá e ele ...” Mais uma vez não pude terminar a frase. O
“empalhado” agora me interrompia com uma sonora gargalhada. “Então você era
neta da.... ? Não senhor, minha avó era a Maria Tereza, chamavam-na Tute. Uma
senhora muito elegante, com modos, jóias e perfumes franceses. Falava o francês
e era pianista.”
“Ah,
sim?, pensei que fosse a do Cartório.” “Do cartório era... O Senhor a
conheceu?” “Claro que sim era “a maior bunda de Cruzeiro”, falou voltando a
gargalhar.
Aquilo caiu nos meus ouvidos como um insulto, ressoando com toda a
força do deboche, do desdém e do preconceito: de gênero, de classe, de condição
física. Insultou-me. Só pude responder: “Se é só disso que o Senhor se
lembra, então não a conheceu. Ela deixou o conforto e a segurança de sua casa,
alistou-se como voluntária na Revolução, como enfermeira, socorreu muitos
feridos na linha de frente. Era extremamente culta. Acompanhava meus pais na
distribuição de alimentos e cobertores. Buscava abrigo para os mendigos e
reservava parte do salário para atender aos mais necessitados, assim como fazia
meu pai. O Senhor não os conheceu, com certeza. Eles eram seletivos nas
amizades. Preferiam os bem educados, mesmo que não fossem ricos”.
Encerrei
a conversa quando ele tentava se desculpar. “O Senhor naturalmente vai
registrar a saída das obras, não é?” “Não, não é preciso”. “Sei quem você é,
sei que vai devolver”. Se puder encontrá-lo, pensei. “Pode levar, sem
problemas”, emendou, tentando agora parecer simpático. “Sem problemas”,
repeti olhando firme dentro dos olhos dele, agora sem o menor resquício de
tolerância. Peguei os livros e saí.
Tinha
finalmente conseguido a obra, mas, a que preço? O asco que senti por aquele desqualificado
municipal misturava-se a mágoa profunda. Sentia um desprezo indisfarçável por
aquele peçonhento. Aquela lesma que não respeitava sequer a si mesmo.
Prepotente, grosseiro. Certamente não estaria ali se não fosse amigo do rei.
“Mudar pra que?” Este tinha sido o slogan de campanha por mais absurdo e cínico
que possa parecer. “Ao menos foram sinceros, não mentiram. Está muito bom
pra eles, então, mudar pra que?!” Diria um conhecido. Tinha sido uma
campanha vitoriosa que deixava como conseqüência esses tipos no atendimento
público. Tudo era, de fato, demasiadamente, ridiculamente municipal.
Sem a consciência de que são os cidadãos quem pagam seus
salários; sem retaliação possível, os funcionários públicos, em sua grande
maioria, com raras exceções, comportam-se como se ninguém tivesse direitos a não ser
eles próprios, seus parentes e amigos. E o povo sem sobrenome e sem identidade,
sem representação legítima, vai engolindo tudo, perpetuando-se no conformismo,
numa inexplicável servidão voluntária, inconsciente de seu poder transformador
pela superioridade numérica.