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Junto aos primeiros raios de sol que dissipavam a névoa fina e fria da madrugada, eu chegava ali na Rotunda, a espera de encontrar respostas para minhas insistentes indagações. Sentia-me restaurada nos ares do amanhecer, especialmente em dias assim, de sol morno, em manhãs de outono.  Sabia que àquela hora ainda não haveria ninguém para atender-me. Faltava muito para o início do expediente mas, eu esperaria com prazer.  

Fiquei observando a construção em ferradura, a engenhosidade do virador de máquinas, tentando imaginar o movimento dos operários da ferrovia, preparando-as para a viagem, para a difícil subida da Serra da Mantiqueira. Uma “Maria Fumaça” puxando e outra empurrando os vagões serra acima, apitando angustiadas! Eu me lembrava disso. Fizera algumas viagens com meu pai, que a certa altura, no alto da serra, acertava meu cachecol cor-de-rosa para proteger-me do frio, do hálito úmido do gigante preguiçoso que nunca quis despertar.    

Notem que o dorminhoco, o “gigante adormecido” foi escolhido como símbolo da cidade.  

Quantos sonhos foram transportados naqueles vagões sobre os trilhos? Teria a Maria Fumaça, levado consigo o nosso patrimônio cultural? Teria a nossa história alimentando suas fornalhas e depois se dissipado no ar como a fumaça? Não restou sequer a fuligem para ao menos desenharmos um fino esboço dos acontecimentos passados?  

Esperei horas até que um funcionário apareceu informando que não havia ninguém para abrir a biblioteca naquela manhã. “O responsável está em férias e não foi designado substituto”. Voltando logo após o almoço, certamente eu poderia ser atendida. Decepcionada, sai para voltar às 2:00, às 3:00, às 4:00, às 5:00 horas da tarde, quando já estavam fechando, e nada. Como um grande favor, obtive a informação que o funcionário estivera por lá “quatro vezes” durante a tarde e não havia “me encontrado” ... Curiosamente, ele, o funcionário “até quis me encontrar, esperou bastante tempo!”...  

Voltei no dia seguinte à tarde. Também não havia ninguém para atender-me. “É que hoje ele veio de manhã” porque ele não poderá vir agora a tarde. Ah, sim? “E como vamos saber se amanhã ele virá antes ou depois do almoço?”  “Não temos como saber só vindo aqui. Se ele estiver, estará”. “Ora, não diga?” Observei cheia de surpresa.  Com essa colocação devo deduzir que se ele não estiver não estará, correto? “É isso mesmo Senhora”. E como vamos saber...? “A Senhora verá se vier e ele estiver na hora que a Senhora vier”... Sim claro! Eu entendo. “E se eu ligar antes, para saber?” “Pode ser que atendam ou não. Aqui só tem um ”orelhão” . “Não temos linha de telefone ligada no escritório.” “Não?!” Perguntei surpresa. “Está me dizendo que no século XXI, aqui no eixo Rio/São Paulo, temos um Centro Cultural isolado do Universo Cultural? Um Centro Cultural que não se liga a coisa nenhuma nesse mundo?”... “Então, pela lógica, certamente, temos aqui um orelhudo e não um orelhão”...concluí. “Mudar pra que, não é meu bem?” Disse à moça que apressou-se a me explicar que estava ali apenas pra ensaiar uma peça de teatro. “Ah, sim?”. Então devo agradecer a sua gentileza. Mas, não há um funcionário responsável pelo atendimento. Tem sim senhora, o Alemão! ... Seria por ventura um alemão assim como Fernando Henrique, naturalizado brasileiro? Certamente que não. Nem neoliberal, nem vendedor do Brasil. Era apenas um alemão cruzeirense, genérico, tipo: do Paraguai”... apenas “alemão”. Alguém que, como a Diretora do Centro Cultural Rotunda nomeada pelo Prefeito, pensa e age como “dono” do patrimônio público municipal.  

Olhei para a biblioteca de longe. Estávamos separados por uma longa distância, por grades amarradas ainda como naquela noite do casamento. Ultimamente vunha acontecendo festas particulares no espaço do "Centro Cultural"Havia um imenso espaço vazio para se chegar até lá. Perguntei por onde era a entrada. “Por aqui mesmo”, respondeu o homem que chegava com a vassoura na mão. “Mas as grades estão amarradas”, insisti. “Fica assim mesmo. A entrada é por aqui mesmo”. Virou-se e foi sumir na primeira porta, encerrando a conversa. Baixei os olhos e saí desanimada. Havia se passado mais um dia!    

Voltei na tarde do outro dia. O funcionário “da vassoura” do dia anterior riu; naturalmente, “de” mim e não “para” mim. “A Senhora novamente?”  “Sim, hoje vou esperar e não vou pra casa sem o que quero”. Ele balançou a cabeça ainda rindo. “Deve ser muito importante o que quer, não?”  hãrã... Respondi virando a costa, me vingando da indiferença com que me havia respondido no dia anterior.   

Fui procurar um lugar para sentar-me ...  2h30 minutos depois ninguém, absolutamente ninguém mais havia entrado ali, resolvi sair pra tomar um café.  Ocorreu-me que talvez pudesse conseguir o livro que eu queria, ou quem sabe outros títulos, na biblioteca da maior escola da cidade. Animada, fui até lá.  

Cheguei na entrada principal. Parei por uns instantes pra conter a emoção.  Lembrava da última vez que ali estivera e ao sair, parei para despedir-me. Suas paredes branquinhas refletiam a luz do sol. Naquela manhã fui a última a sair do prédio e quando a porta foi fechada, com um aperto dolorido na garganta, entendi que o período dourado, o mais doce de minha vida, havia terminado. Logo, estaria perdida do meu batalhão e nunca mais seria reconhecida por ele.

As poucas amigas que minha timidez me permitiu ter, professores, risos e brincadeiras; a minha falta absoluta de habilidade para os esportes que tanto fazia rir meus companheiros, a fragilidade de minhas perninhas extremamente finas e a baixa estatura que sempre me deixaram em desvantagem nos momentos de competição, tudo seria esquecido.  

Até mesmo a minha invejada intimidade com os números, a facilidade com as letras e línguas, tudo em breve estaria dormindo no passado. Ninguém saberia com quando carinho eu guardaria o resto do lápis, da borracha, do caderno de desenho e o caderno de música que usei no meu último ano de estudos ali.

O primeiro livro que “li inteirinho”...Uma História e Depois Outra... Eu o encapei, cobri com uma capa vermelha brilhante para se destacar dos demais, mais tarde, um dia, quando eu tivesse a minha sonhada biblioteca. Assim, guardo até hoje o volume, a “minha relíquia”. A verdade era única e vibrante: Eu amava aquela escola! Era o que me restara depois da mudança de minha família para a Capital.  

Transferido meu pai para São Paulo, anos depois eu deixava a casa de minha avó e partia. Não queria mudar, mas, não queria viver longe dos meus pais. Receava perder a intimidade, a familiaridade, ficando longe deles; o que de fato acabou acontecendo. Tinha sido muito difícil, muito triste os últimos anos. Não sabia que tudo seria ainda pior depois disso. Com 14 anos eu já me sentia com mais de vinte. Agora teria que perder definitivamente, meu batalhão. E isso doía, doía muito.  

Lembrava de quando sentei no fundo do pátio e ponderando todos os pontos possíveis, tomei a decisão extremamente difícil para uma menina de apenas 14 anos. Iria pra São Paulo. Qualquer que fosse a minha escolha, ir ou ficar, eu sabia, implicaria em grandes perdas: do convívio com a família, meus pais; ou, dos amigos, professores, do cenário da Serra da Mantiqueira que parecia abraçar e proteger todos daqui, nessa época, meus irmãos.  

Aprendi muito cedo que escolher também é rejeitar, é abandonar. Por outro lado, foi justamente a sensação de abandono que me fizera estreitar os laços com a leitura, me fizera ainda mais próxima dos livros, os quais não apenas lia mas, “ouvia”, como se fossem as longas histórias que na infância, meu pai costumava contar antes de dormir.  

Não consumia, convivia, conversava com os livros para diminuir a possibilidade de lágrimas. Meus avós não entenderiam. O velho detestava choro. Restava-me a leitura. Sem televisão, longe dos meus irmãos, seriam os livros os meus companheiros. Eles sempre teriam  novidades para me contar, e o que era melhor, nunca se aborreciam comigo e me levavam para realidades e universos fantásticos. Era como uma viagem. Sentia muito prazer em viajar!  

Agora eu estava ali, lembrando minha opção. Depois de uma vida, voltava à porta de entrada da minha velha escola, antes, sempre aberta e sem vigia. A possível sensação de familiaridade, no entanto, era negada pelo cadeado balançando como pêndulo na corrente, como a dizer não a minha expectativa de entrada.  

Respirei fundo e me aproximei. Logo fui atendida “pelas grades”, por uma senhora simpática, com um sorriso ensaiado. “Gostaria de saber se a biblioteca desta escola tem algum livro antigo sobre a história de Cruzeiro?” A resposta foi seca, automática: “Não sei não senhora, mas mesmo “qui  tivesse”...  a biblioteca é de uso exclusivo dos alunos”. “Sim, claro.”  “Queria apenas saber sobre alguma publicação antiga” ...  “Só para os alunos, Senhora.” Repetiu, cortando a minha frase pelo meio.“Não acredito que eu não possa ao menos visitar, saber, ver”. Teimei. “Se não é possível levar, gostaria apenas de saber se há e consultar, talvez anotar algum título, alguma informação”...“Posso falar com a Diretora? Ela está?”.  ”Sim, mas tem que dar a volta no prédio e entrar pela Rua 7”. “Por lá? Esta bem. Obrigada.”  

Uma esperança se abriu no horizonte. No entanto, quando cheguei ao pequeno portão igualmente com grades e trancado a cadeado surpreendeu-me ser atendida pela mesma pessoa que a pouco estava na entrada principal. “Ora, podia jurar que você estava agora mesmo do lado de lá”. “Sim, estava”. Respondeu, agora sem sorriso. “O que deseja?” Perguntou como se nunca tivesse me visto. Seria essa, uma forma ensaiada, programada para atender? Estranhei. “Falar com a Diretora, lembra?” Que estranha amnésia, pensei. Em tão pouco tempo, alguns minutos passados e já não lembrava? “A Diretora é aquela”. Apontou na direção da porta principal, mas sem destrancar o portão ou me convidar pra entrar, mostrava exatamente na direção onde eu estivera minutos antes. “Sim? Pode fazer-me o favor de dizer-lhe que eu gostaria de falar com ela?”.  Balançou a cabeça em sinal afirmativo e foi no sentido contrário ao que a diretora estava, entrando na secretaria. Deve estar ocupada, justifiquei. Deve levar meu recado em seguida. Mas não, não saiu de lá. Desapareceu no fundo da sala.  

Passado uns 15 minutos a Diretora veio em minha direção, ha uns três passos, desviou-se. Fiz um sinal mostrando que eu queria falar com ela. Pediu que aguardasse um momento. Encostei-me na grade ainda do lado de fora, em frente ao relógio que me mostrava a hora pelo guichê da secretaria. O telefone tocou. Ela atendeu. Chegou uma funcionária, ela atendeu. Um pai de aluno. Um aluno, outro aluno, uma professora, a funcionária que me recebeu. Outro aluno, um professor, outro professor, o telefone, outra professora. E o ponteiro do relógio ia completando a volta quando ela resolveu se aproximar. Como a recepcionista, veio com ares de quem estava me vendo pela primeira vez, embora eu não tivesse saído nem um segundo de sua frente, e o tempo todo ela estivesse me observando de longe. Tive a certeza que me estudava, tentando adivinhar minhas “verdadeiras” intenções. Eu era uma “Ete” naquele corredor frio.  

Eu já estava desistindo de esperar quando ela se aproximou. Expliquei-lhe o que queria. Severa, me preveniu. “Se encontrar o que quer tem que consultar aqui, não pode levar.” “Esta certo, mas talvez precise de uma autorização da Senhora, a bibliotecária não me conhece e pelo que entendi não vai querer me atender”. “Eu vou com você até lá”. Agradeci a gentileza ela abriu o cadeado, eu entrei e fomos andando pelo corredor. Eu estava uns dois passos à frente quando chegamos ao saguão. Olhei em volta e parei esperando que ela tomasse a frente, ela não veio, havia desaparecido.  

Pude ver apenas um pé numa sandália fina, quase engolida na borda da calça azul, sumindo na parede. Diria que ela entrou na parede. Parei uns minutos sem saber se esperava ou continuava. Iria sem ela... mas, por onde ir? O saguão abria-se em três alternativas, seguir em frente, à direita ou à esquerda. De onde estava pude ver os primeiros degraus de mármore da escada para o andar superior.  Fundos, gastos, como conchas. Era o mesmo de 40 anos atrás. Doeu-me o coração e encolheu-me a alma.  

Alguém deve te-la chamado? Não sabia com certeza. Parei e esperei alguns minutos. Quando a faxineira passou com o balde e o rodo, perguntei onde ficava a biblioteca. Ela apontou para fora. Eu teria que ir ao pátio e procurar uma parede “bem” azul. Escorreguei para fora procurando não ser vista pela “porteira” que parecia interceptar todos que passassem a sua frente. Logo encontrei o prédio. A porta de entrada estava fechada. Trancada!.. Um quadro de horário, numa cartolina informava com muita clareza, os dias da semana, os horários de “funcionamento”. Quarta-feira o dia todo até 22h00. Só não disseram que “nem todas as quartas” porque era quarta-feira, por volta de 16h15 e estava trancada. Ocorreu-me que poderia ter havido uma ordem da secretaria. Afinal, porta trancada evita problemas.  

Meu Deus, como é difícil conseguir um livro nessa cidade! Saí sem olhar para os lados. Passei pela Diretora, pela funcionária da limpeza, pela porteira e sem olhar para elas, sem dizer nada cheguei a calçada. Do lado de fora ainda podia sentir os olhares pesando em minha nuca. Fiquei imaginando se eu fosse alguém que estivesse tentando “gostar de ler”... Peguei o carro e voltei a Rotunda, decidida que aquela seria a última tentativa. Iria a Campinas e certamente encontraria tudo sobre a cidade de Cruzeiro. Afinal, Hilton Federici havia escrito diversas obras sobre Cruzeiro e lá, na Unicamp, onde a cultura é coisa séria, lá onde ele havia lecionado, eu conseguiria certamente, algumas cópias dos trabalhos do respeitável professor.   Pensava seriamente em viajar para Campinas quando atravessei os portões do “Centro Cultural” e chegando próximo a entrada, abriu-se, para minha surpresa, enfim, um cenário diferente. 

O Centro Cultural estava vazio, sem qualquer atividade, como sempre, o diferencial agora era que, na imensidão, sentado em uma cadeira branca de plástico, estava um homem com uma pasta ao lado dos pés, no chão. Seria a alma que eu tanto esperava encontrar? Tranquei o carro com os olhos pregados nele. Não se movia. Teria que certificar-me de que estava vivo, considerei.   Fui até lá. Cumprimentei contando com a possibilidade dele ser apenas uma miragem, mas ele respondeu balançando de leve a cabeça. Para confirmar que não se tratava de uma visão, perguntei se era o responsável pela biblioteca. Antes de responder, ele apontou uma cadeira a pouca distância, sem dizer palavra, fazendo um sinal para eu pegar e sentar. Só me faltava essa, deve ser mudo, pensei. Obedeci sem tirar os olhos dele. Queria ter a certeza que não iria sumir em alguma parede, como a Diretora daquela escola. Certifiquei-me de que não havia nenhuma parede próxima. Trouxe a cadeira e sentei.  

O homem parecia empalhado. Não falava, não se movia, não respirava. Tinha os cotovelos apoiados nos braços da cadeira e as mãos cruzadas, como se a espera de alguém para estica-lo e guarda-lo num caixão. Olhava pra mim misturando aborrecimento e vaga curiosidade. Parecia fazer um grande esforço para manter o rosto, o pescoço virado em minha direção. Ficou me olhando um bom tempo e finalmente perguntou. “O que você quer?” Bem, eu estive aqui algumas vezes... “Eu sei. O que você quer?” O Senhor é o responsável pela biblioteca? “Sim”, respondeu com autoridade. “Já está fechada?” “Não, por que?” “Pensei que estivesse porque o Senhor está aqui e a biblioteca está do lado de lá e as grades amarradas”... “O que você quer?” Perguntou cortando minha fala. “Um livro”... “Isso eu sei, já me disseram”, falou cortando mais uma vez a minha frase. “Bem, gostaria de ler sobre a história de Cruzeiro”. “Por que?”. Perguntou sério e seco.  

Por uma fração de segundos fui a biblioteca da Praça Roosevelt, em São Paulo. Lembrei das salas enceradas que eu costumava freqüentar; das prateleiras limpas e alinhadas por onde é possível circular, tocar nos livros, folheá-los, escolher sem pressa. Encontrar amigos, jogar damas, xadrez, consultar áudios. Nunca me perguntaram “por que” estava lá ou “por que” pretendia ler este ou aquele livro. Não diria a ele que pensava entender o porquê da cultura estar assim imobilizada, subestimada, esquecida, deteriorando na cidade de Cruzeiro. A bem da verdade começava a saber porque.  

Mostrando uma mórbida curiosidade, ele aguardava minha resposta. “Bem, acho que todos devemos conhecer a história da nossa cidade, não concorda?”. “Humm!” Resmungou e nada mais. Não se movia. Continuou sentado. Petrificado. Cheguei a duvidar que pudesse pensar qualquer coisa. “Mas por que é importante conhecermos a nossa história?” Não acreditava que depois de tanta espera, tantos dias, agora teria que usar a arte do convencimento, toda a minha força persuasiva para conseguir acesso a um livro de história. Eu teria paciência. Afinal eu havia reservado aquele dia para chegar a alguma publicação e agora estava ali, bem ao lado do “Sr. Responsável pelo acervo Municipal”. Pouco importava se ele tratava-me como se eu fosse algo diferente, uma espécie que ele nunca tinha visto.

Talvez ele tivesse razão para tanto, afinal, de fato, eu era uma coisa meio incomum, era uma leitora; enquanto ele, parecia-me ser mais uma peça do acervo Municipal do que exatamente um funcionário, se considerarmos que funcionário, pela lógica, deve literalmente funcionar. Seria ele sempre assim? Meio desligado, um tanto emperrado, como se estivesse fora de uso? Se “funcionava” estava aquele “funcionário” com algum defeito, avariado.  

Estranho, anacrônico como uma velha caricatura de dois séculos atrás, esforçava-se talvez, para parecer um contemporâneo. Cheguei a acreditar que tudo não passava de um engano. Talvez ele tivesse saído de algum livro velho caído da prateleira, ou quem sabe, seria um daqueles bonecos empapelados, esquecidos por lá, na Rotunda, depois da derradeira exposição.  

Ele continuava calado. Pensei em gritar em sua orelha pra ver se o despertava. Aquele silêncio me desconcertava, começava a me fazer mal. Mas, eu teria paciência. Afinal, “era ele quem tinha o alicate que apertava os arames, que prendiam as grades, que cortaria os nós, que empurraria a tábua, que atravessaria o deserto, que chegaria ao acervo, que iria até a prateleira, que procuraria os volumes, que preencheria a ficha, que me entregaria os livros”. Teria só que aguardar que ele fizesse isso - “se quisesse, se tivesse, se cortasse, se empurrasse, se andasse, se chegasse, se encontrasse, se escrevesse, se entregasse, enfim, se fosse até lá -”... Tudo tão simples!   “Acho que deve ter alguma coisa sim”. Respondeu um bom tempo depois. “É para trabalho de escola?” Não. “Foi algum professor que pediu?” Não. “Mas, você tem que ter ficha na biblioteca”.  Eu tenho. “A ficha tem foto?” Não. “Então não serve”. “Tem que fazer outra. É obrigado a ter foto.” “Mas quero apenas ler alguma coisa sobre a história de Cruzeiro. Está me dizendo que vou ter que tirar foto, pagar, esperar a revelação, voltar aqui”?... “Tem que ter foto”. Eu não acredito! Levantei inconformada. Quando ele sentiu que eu estava à beira de uma explosão, levantou também.  

Nisso entrou um funcionário. Veio correndo direto em nossa direção e ainda de longe, dirigiu-se a ele: “Senhor, minha esposa está passando mal. O Senhor poderia leva-la ao Pronto Socorro, por favor?” Quase sorrindo voltou-se e disse: “Acho que hoje não vai dar pra te atender, preciso ajudar esse rapaz”.  “Não? Ora...” Era preciso pensar em alguma coisa rapidamente, afinal ele havia se levantado e ensaiava o segundo passo. Devido às circunstâncias isso não representava pouca coisa. Justamente naquele momento acontecia sermos interrompidos? Bem agora que me parecia estar mais próxima de atingir o meu objetivo? Como podia aquele homem aflito vir atrapalhar, interromper minha empreitada? Sua esposa não podia ter esperado pra passar mal daqui a pouco? Parecia-me uma brincadeira ensaiada e de muito mau gosto.  

Devido ao grau de aceleração do “responsável pela biblioteca municipal”, pressentia que levaria um tempo considerável até chegar aos livros. Primeiro teria que desamarrar ou cortar o arame das grades, o que não me parecia muito fácil pela engenhosidade dos nós; depois afastar a madeira que fechava a passagem, em seguida, atravessar o deserto - mais de 30 metros - e tirar da frente uma série de cadeiras e um balcão que obstruía a entrada a um metro das prateleiras. Pensei angustiada...   “Eu a levo ao hospital”, me prontifiquei. “O Senhor pega os livros e eu a deixo no hospital. Assim, o Senhor não gasta seu precioso tempo, nem gasolina. Para mim, não será trabalho nenhum, moro lá perto e estou mesmo indo pra lá. Além do mais posso ajudar para que ela seja atendida com urgência. Ultimamente tenho levado muitos doentes e o pessoal já me conhece. Sabe que quando chego com alguém pode ser Dengue e...  “Está certo.” Não sem mal humor, concordou. Fechou o sorriso e foi lentamente em direção aos livros. O aflito saiu, foi avisar a esposa.  

Se contasse ninguém acreditaria. A minha obstinação, a persistência, chegava a ser absurda, mas eu não desistiria. Teria que ver como aquele filme terminaria. No percurso acima descrito ele parou diversas vezes. Parava para coçar a cabeça, ajeitava as calças, depois para coçar a cabeça novamente. Se não estivesse sendo seguido, certamente desistiria. Estava visivelmente contrariado. Sentia-se obrigado, empurrado, e não fazia a menor questão de disfarçar. Eu o estava obrigando a um “grande esforço”.  

Finalmente chegamos. Ele explicou que haviam tirado as tendas de plástico abertas sobre as prateleiras, mas, quando suspeitava que ia chover, jogava o plástico por cima, para proteger os livros, e isso sem pedir autorização a ninguém, acrescentava orgulhoso. O telhado feito com telhas de terceira categoria pulverizava a chuva por toda a Rotunda, explicou. Como se não bastasse o alagamento! Em algum ponto a água subia quase meio metro. “Um horror!” Como não dá pra cobrir todos, acrescentou, a cada suspeita de chuva, ele cobria um lado. “Isso dá muito trabalho! Só quem gosta mesmo de livros é que se daria a investimento semelhante.” “A Senhora espere aqui”, ordenou e sumiu entre as prateleiras.  

Voltou com três livros na mão. Um deles era o que eu havia doado; o outro, a obra do Sr. Borromeu de Andrade que eu ainda conservava em casa; o terceiro, este sim, era de fato o que eu pretendia ler – escrito pelo Profº. Joaquim de Paula Guimarães, Síntese da História de Cruzeiro – Edição Comemorativa do Cinqüentenário do Município - Prefaciado pelo Prefeito Municipal na época – Dr. Fernando de Oliveira Pimentel, em 02 de Outubro de 1951.  

Aproveitei o livro do Borromeu para identificar-me. Abri na página 161 – Cruzeiro nas Artes, Poesia. “Sou neta deste senhor aqui”, apontei com o dedo o nome em letra maiúscula - ANTONIO VIEIRA CORTEZ -, “O Senhor já ouviu falar dele?” Ele virou o livro, esticou os olhos para cima, dentro dos óculos e leu em voz alta: “Nascido em Cruzeiro em 1895 foi um dos fundadores da Escola Normal onde foi professor de Inglês, Francês, Matemática e História Geral. Além desses idiomas falava corretamente alemão, espanhol, Italiano, Esperanto. Poeta e jornalista, fundou e colaborou em inúmeros jornais e revistas da época (não faz referência em que época)”.  

Ele encarou-me como se estivesse ao mesmo tempo revirando a memória. “Sou neta do Antonio, filha de Assuero Bittencourt Cortez, político no tempo do Prefeito Dr. Avelino Júnior, seu Vilico, Joab, Nelson Romanelli, João Barbosa Rangel. Meu pai foi maçom, da loja do Grande Oriente. Mestre grau 33...” De repente ele acordou. “Sim, claro que sei, seu avô era do Cartório! Dizem que no enterro dele a cidade parou. Tinha gente que não acabava mais. Era muito querido.”  

Lembrava da “morte” do meu avô? Vindo de quem vinha a observação era totalmente compreensível. “Sim, devia ser muito querido”, emendei, dando pressa para ir-me embora. “Até hoje eu encontro pessoas que afirmam que se não fosse ele, não teriam a escritura de sua residência. Ele não cobrava as taxas de serviço dos mais pobres, nem registros e outras despesas.”  “Foi em 1934 que trouxeram a Comarca pra cá e ele ...”  Mais uma vez não pude terminar a frase. O “empalhado” agora me interrompia com uma sonora gargalhada. “Então você era neta da.... ? Não senhor, minha avó era a Maria Tereza, chamavam-na Tute. Uma senhora muito elegante, com modos, jóias e perfumes franceses. Falava o francês e era pianista.”   “Ah, sim?, pensei que fosse a do Cartório.” “Do cartório era... O Senhor a conheceu?” “Claro que sim era “a maior bunda de Cruzeiro”, falou voltando a gargalhar.

Aquilo caiu nos meus ouvidos como um insulto, ressoando com toda a força do deboche, do desdém e do preconceito: de gênero, de classe, de condição física. Insultou-me. Só pude responder: “Se é só disso que o Senhor se lembra, então não a conheceu. Ela deixou o conforto e a segurança de sua casa, alistou-se como voluntária na Revolução, como enfermeira, socorreu muitos feridos na linha de frente. Era extremamente culta. Acompanhava meus pais na distribuição de alimentos e cobertores. Buscava abrigo para os mendigos e reservava parte do salário para atender aos mais necessitados, assim como fazia meu pai. O Senhor não os conheceu, com certeza. Eles eram seletivos nas amizades. Preferiam os bem educados, mesmo que não fossem ricos”.  

Encerrei a conversa quando ele tentava se desculpar. “O Senhor naturalmente vai registrar a saída das obras, não é?” “Não, não é preciso”. “Sei quem você é, sei que vai devolver”. Se puder encontrá-lo, pensei. “Pode levar, sem problemas”, emendou, tentando agora parecer simpático. “Sem problemas”, repeti olhando firme dentro dos olhos dele, agora sem o menor resquício de tolerância. Peguei os livros e saí.  

Tinha finalmente conseguido a obra, mas, a que preço? O asco que senti por aquele desqualificado municipal misturava-se a mágoa profunda. Sentia um desprezo indisfarçável por aquele peçonhento. Aquela lesma que não respeitava sequer a si mesmo. Prepotente, grosseiro. Certamente não estaria ali se não fosse amigo do rei. “Mudar pra que?” Este tinha sido o slogan de campanha por mais absurdo e cínico que possa parecer. “Ao menos foram sinceros, não mentiram. Está muito bom pra eles, então, mudar pra que?!” Diria um conhecido. Tinha sido uma campanha vitoriosa que deixava como conseqüência esses tipos no atendimento público. Tudo era, de fato, demasiadamente, ridiculamente municipal.  

Sem a consciência de que são os cidadãos quem pagam seus salários; sem retaliação possível, os funcionários públicos, em sua grande maioria, com raras exceções, comportam-se como se ninguém tivesse direitos a não ser eles próprios, seus parentes e amigos. E o povo sem sobrenome e sem identidade, sem representação legítima, vai engolindo tudo, perpetuando-se no conformismo, numa inexplicável servidão voluntária, inconsciente de seu poder transformador pela superioridade numérica.

                                                                      Naida Cortez
Álbum de Fotos

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