A cidade vivia momentos
dramáticos. Um grande número de operários fora demitido da maior fábrica de
Cruzeiro e o desemprego atingia níveis alarmantes. Preocupados com a situação,
aos sete dias do mês de fevereiro de 1991, reuniram-se a Rua Idelfonso Pinto,
no Bairro São Judas Tadeu em Cruzeiro, José Roberto da Costa, Maria Elizabeth
Marçal da Costa, Dr. Tarcísio Leite e sua esposa, na época, a Sra. Mara Leite que juntos, organizavam um bloco carnavalesco na cidade, há alguns anos.
Participavam
também da reunião, Naida Cortez, Maria Auxiliadora Ramos, Maria Margareth
Marçal, Marlene da Silva, a Sra. Maria Margarida da Costa, que gentilmente,
abriu sua casa para nos reunirmos, oferecendo-nos os indispensáveis cafezinhos.
O nosso objetivo centrava-se na preocupação com a situação
extremamente difícil em que viviam diversas famílias no Bairro e nas
redondezas. Situação esta que reproduzia-se em toda a comunidade, agravando-se
muito depois das últimas demissões.
A questão
era o quê poderíamos fazer para ajudar a diminuir a aflição, a carência das
famílias dos desempregados. Populares e vereadores haviam se reunido na Câmara
Municipal e em outros locais para discutir a questão, mas tudo transpirava
principalmente interesse político partidário e, principalmente, busca de votos,
apoio para a próxima eleição.
As
discussões da "elite" não traziam em seu bojo nenhuma expectativa de solução
mínima. Por mais boa vontade que tivessem alguns, via-se alí, que a maiori estava
muito distantes da realidade, do cotidiano das pessoas mais humildes. E, no
mais, se houvesse alguma decisão certamente, essa viria de cima, como sempre,
e não atenderia a urgência da questão. Mas isso acabou não acontecendo. Ao
cabo de algumas reuniões o grupo dilui-se sem que tivessem conseguido definir
um só projeto de auxílio, sequer.
Era certo
que para resolver o problema seria necessário o envolvimento direto do
legislativo e do executivo sabíamos disso e, acima de tudo, seria necessária
uma vontade política determinada para chegar-se a uma realização, o que parecia
faltar.
Enquanto cidadãos poderíamos fazer pouco naquele momento, não tínhamos
dúvidas nem grandes pretensões quanto a isso. Mas sabíamos que era urgente
tentarmos alguma coisa. Deveria haver algo que pudéssemos fazer para minimizar
a aflição das famílias que estavam ali, tão perto de nós, como que paralisadas,
sem possibilidade de reação, necessitando de tudo.
Morando num
bairro operário, estávamos bastante próximos da aflição das famílias dos
trabalhadores demitidos. Imediatamente sentimos os efeitos dessas demissões, do
desemprego. A desolação era geral. Por hora, a situação parecia ainda sob
controle porque alguns ainda podiam contar com o dinheiro das indenizações.
Mas, sabíamos que esgotados esses recursos, a necessidade de muitos era eminente.
A situação estaria a beira da calamidade.
Dispostos a
auxiliar, teríamos que pensar, definir um projeto de socorro
urgente. Foi então que surgiu a idéia de criarmos um grupo de apoio a
comunidade, que pudesse desenvolver um trabalho assistencial; que minimizasse
as dificuldades dos mais desfavorecidos, garantindo-lhes um mínimo para a
sobrevivência.
O Carnaval
estava próximo e o enredo do bloco que eles estavam preparando, era voltado para a questão do desemprego.
Naquele ano sairia com o nome de “Bloco dos Desempregados”, uma forma de
denunciar, de chamar a atenção das autoridades para o problema já que seria um
momento especial, quando os políticos, vereadores e prefeito estariam sobre o
palanque, com atenção voltada para o desfile, ou seja, para a possibilidade de
voto.
Vestir foliões de “mendigos” e
desenvolver o tema seria uma oportunidade para denunciar a situação no
presente, um futuro próximo eminente para muitos. Levar a comunidade a pensar
no assunto, abrir uma discussão com a sociedade mais estabilizada, inclusive
envolvendo as causas e as conseqüências da retração do mercado de trabalho na
cidade.
Com o
sindicato dirigido por pelegos, sabíamos que não poderíamos contar com ele
para coisa alguma. Prova disso era o fato de não ter havido qualquer
mobilização, uma tentativa sequer, de algum negociação que servisse para
minimizar a gravidade da situação, nem antes e nem depois das demissões.
Aceitariam tudo em nome da generosa convivência com o poder público, como já haviam
aceitado as demissões sem questionamentos.
E, por outro lado, até ali, as
autoridades mantinham-se omissas, limitavam-se a apenas assistir os fatos, sem
maiores envolvimentos A bem da verdade, nunca houve na cidade uma iniciativa
séria, efetiva, para incentivar a diversificação da economia local. A cidade
dependia e ainda depende quase que exclusivamente da uma única grande
industria. O que torna Cruzeiro extremamente vulnerável. E, além do mais, as
pequenas fábricas ou empresas de prestação de serviços sobreviviam, e muitas
ainda aobrevivem tereirizando atividades da grande metalúrgica, produzindo ou prestando serviços.
Assim, a
cidade resistia há muito, com a população cada vez mais dependente dos dois
únicos grandes empregadores: a indústria metalúrgica e a prefeitura, o que
terminava definindo a vulnerabilidade de nossa economia. Com o domínio político dos
grupos, a empregabilidade de muitos é intermitente, mudando de 4 em 4 anos, dependendo do grupo que
ganha a eleição, que assume o poder, que dirige a cidade.
Em tempos
de prosperidade, ninguém pensa seriamente em diversificação do mercado de
trabalho. Acomodam-se os ânimos e não há nenhuma iniciativa para o
desenvolvimento de alternativas. Ninguém se lembra do assunto, até que a
empresa entre em declínio e o desemprego venha a abater a população,
como acontecia naquele momento.
Diante
desse quadro, nos colocamos ali, em reunião, com nossos modestos objetivos,
para discutirmos o que poderia ser feito no sentido de tentarmos minimizar o problema. Assustava-nos a fome, o desabrigo
de tantas famílias e todo o problema social decorrente de situações assim.
Esboçava-se a fome de centenas de pessoas. Os créditos nas casas comerciais
tinham sido cortados e o setor de atendimento médico, os postos de saúde
municipais, já estavam abarrotados, começavam a apresentar as primeiras conseqüências das tensões e da carência.
A curto ou a médio prazo, o futuro esboçava-se sem qualquer expectativa de melhora, envolvendo a comunidade numa onda de
desesperança e de angustia.
A princípio, definimos que o grupo seria aberto aos
voluntários que quisessem e pudessem trabalhar em favor da comunidade. Para
tanto convidaríamos os amigos, os conhecidos, os próprios desempregados.
Decidimos também que ao Grupo seria dado um nome e que com atribuições mais ou
menos específicas, com responsabilidades delegadas aos seus membros,
organizando o atendimento, faríamos o melhor possível partindo de um projeto,
estabelecendo prioridades.
O Grupo
então, foi denominado Grupo de Ação Comunitária da Vila Brasil, seria uma entidade sem
fins lucrativos. Apolítico, beneficente, assistencialista. Sem distinção de
raça, de convicção política ou religiosa. Atenderíamos em toda a cidade de
Cruzeiro, e até fora do perímetro urbano ou em outros municípios, se fosse
possível, independendo da localização onde residisse o necessitado.
Definido o
projeto, iniciaríamos o trabalho com campanhas. Principalmente com a coleta de
alimentos. E para angariar fundos para as contas de luz, gás de cozinha e para
a compra de remédios a opção viável seriam os almoços com a venda antecipada de
convites nos fins de semana e as quermesses. Outros eventos poderiam ser
realizados nas quermesses, como bailes, concursos, bingos, rifas, torneios,
gincanas e brincadeiras diversas.
Um bazar da pechincha e até um balcão de trocas
onde fosse possível obter o necessário sem a utilização de dinheiro, também foi
pensado. Até mesmo materiais de construção, tão necessário nos pequenos reparos
poderíamos receber como doação. Tudo o que pudesse ser útil para minimizar as
inúmeras necessidades que já começavam a atingir as famílias.
Organizamos
então uma 1ª. feira na praça 9 de julho. Com pequenas barracas de pães e doces
caseiros; artesanato, brinquedos e produtos diversos. E logo em seguida,
criamos a feira na praça do bairro onde residíamos, que contava com esses
produtos além de gêneros alimentícios horti-fruti-granjeiros, ao mesmo tempo
em que incentivávamos a plantação em hortas domésticas, “de fundo de quintal”.
Em seguida
criamos a bolsa de auxílio ao trabalho alternativo. Oferecíamos a matéria prima
obtida com doações, para que pudesse ser iniciada uma atividade. Logo que os
assistidos começassem a ganhar pagariam o empréstimo com matéria prima, dentro
de suas possibilidades, para que outra família pudesse ser incluída no projeto
e começasse a desenvolver a atividade escolhida, o trabalho alternativo.
O projeto
previa ainda, grupos de compras de gênero alimentício no atacado, assistência e
encaminhamento médico. Auxilio para registros civis dos nascidos carentes e
apoio para "tirar" os primeiros documentos – rgs, carteira de trabalho, título
eleitoral etc.
Alimentação
alternativa, distribuição de cestas básicas e remédios. Campanhas do agasalho.
Coleta seletiva de lixo. Cobertura financeira para contas de luz e água em
atraso, aos mais carentes. Programa de ocupação para adolescentes – lazer e
cultura. Cursos básicos profissionalizantes. Apoio psicológico através de
atividades artísticas e esportivas.
Foi assim
que o Grupo trabalhou durante anos. Com muita dificuldade chegamos a distribuição
de 70 cestas básicas mensais, mantendo em sigilo as informações confidenciais
que obtínhamos das pessoas cadastradas, jamais divulgando publicamente os nomes
dos beneficiários.
Não demorou
muito para que o poder público descobrisse nossas atividades. Embora nunca
tivesse auxiliado em nada o projeto, não só encaminhou para nós muitos casos
que deveriam ser atendidos pela promoção social, como "filmou as doceiras e
artesãs para posteriormente, cinicamente, exibir pela televisão local o filme,
em sua campanha eleitoral".
Quanto ao
prefeito que se seguiu, esse fez ainda pior. Além de não oficializar um espaço
onde pudéssemos continuar trabalhando e atendendo a população, ainda incentivou
a demolição de uma granja abandonada que usávamos para a realização de alguns
eventos.
Assumiu um compromisso na campanha com a
população do bairro e traiu os compromissos assumidos. Fechou-se no gabinete criando toda a sorte de dificuldades para a
nossa atuação, no que diz respeito a autorizações de uso do logradouro público,
alvarás e etc.
Mas,
próximos que estávamos do povo, vendo a necessidade de um registro para que
tivéssemos força legal partimos para a conquista da associação de bairro
Savibras – Sociedade de Amigos da Vila Brasil, que embora legalizada, estava inativa, sem diretoria, na ocasião.
Mas não foi
fácil chegarmos a ela. Os documentos foram disponibilizados depois de muitas
brigas com seu criador, que mesmo admitindo que a associação não tinha mais uma
diretoria e não estando em atividade, insistia em não abrir mão e não permitir
trabalharmos através dela. Por algum motivo que nunca chegamos a conhecer ele
não queria a nossa administração. Conseguimos que o "guarda dcumentos" marcasse as eleições
recorrendo ao juiz, que após váriase exaustivas audiências, terminou por determinar que
fosse realizado o pleito.
Finalmente
em 26 de maio, os moradores do bairro puderam votar na Escola Municipal Padre
Murílio Tomanik, das 8 ás 14 horas. Votaram 393 moradores. Com 6 votos nulos e
6 votos em branco, saiu vencedora a chapa 2 com 247 votos contra 138, da chapa
1, do antigo Presidente, que não poupou esforços para dificultar o pleito,
chegando a impedir que muitos votassem,
exigindo documentos pessoais, conta de luz ou de água em nome do eleitor,
principalmente daqueles que moravam em ruas numeradas, ainda sem denominação.
Enfim,
vencidos tantos empecilho lá estávamos nós, José Roberto da Costa – Presidente
e Naida Cortez Vice-Presidente, finalmente eleitos.
Dias
depois, driblando novas dificuldades criadas pelo antigo presidente, recebíamos
a posse na presença do Prefeito Dr. Hamilton Vieira Mendes, do Vereador Carlos
Roberto da Silva, do Professor Marcelo Marcondes de Carvalho, do Assessor de
Assistência Social Tem. Conceição e do Assessor de Esportes e Turismo, Celso di
Marco e demais diretores que compunham nossa chapa além de populares.
A festa foi
noite a dentro. Mal sabíamos a carga de trabalho que daí para frente nos seria
imposta. A responsabilidade e as contendas que se abririam dificultando sempre
e cada vez mais o desenvolvimento de nosso trabalho.
Ligado ao
Partido dos Trabalhadores desde a sua criação em Cruzeiro, o “herói negro
cruzeirense”, José Roberto da Costa, que mais tarde seria, enfim, o Presidente
do PT de Cruzeiro, sofria todos os tipos de pressões possível de se imaginar.
Era constantemente envolvido em situações polêmicas, desestimulantes, enquanto
eu, não filiada a partido nenhum, tentava abrir as portas das instituições
elitizadas incansavelmente, recorrendo aos microfones das rádios, às
autoridades, tentando realizar o projeto da Associação, que partindo do Grupo
Ação Comunitária abria-se agora, obrigatoriamente, às questões de infra
estrutura do bairro, ao atendimento das reivindicações dos moradores e portanto
para assuntos de competência das secretarias municipais.
Logo morre
Dr. Hamilton Vieira Mendes nosso parceiro na luta em favor da população mais
carente. A cidade assume uma outra fisionomia. Continuando o plano piloto do
prefeito, enquanto substituto o agora Prefeito Celso de Almeida Lage ouvia e
atendia não sem restrições, "na medida do possível", nossas inúmeras
reivindicações.
Seguimos,
agora não apenas assistindo e atendendo as famílias dos desempregados mas,
estendendo a nossa preocupação e dedicação ao bem estar de toda a população em
geral.
Em síntese
podemos listar algumas de nossas reivindicações e conquistas em diversas áreas:
Comunicação:
Instalação de telefones públicos.
Lazer: Construção de banheiros nos parques
infantis, construção de quadras de esporte, construção do centro comunitário,
instalação de bebedouros nas escolas.
Logradouros:
Solicitação de denominação; regularização de dupla denominação; calçamentos,
asfaltamento principalmente da Rua Jandira Thomas que liga a V. Brasil ao Km 4,
reparos dos incontáveis buracos, esgotos entupidos e desvios no caminho natural
das águas da chuva que provocavam enchentes e alagamentos; instalação, remoção
e consertos dos obstáculos. Instalação de rede de esgoto em diversas casas de
famílias de baixa renda. Transporte:
Correção de percurso, instalação de abrigos, melhora na localização de pontos,
horários das linhas, melhora no atendimento da empresa de transporte coletivo.
Trânsito: Diversas solicitações de
sinalização, placas, faixa para pedestres.
Segurança:
Cadastramento e Registro dos “Guardas Noturnos”, regulamentação de
contribuições; vigia de praças e quadras de esporte, parques infantis.
Instalação da delegacia Regional no Bairro São Judas Tadeu.
Saúde: construção do Posto de Atendimento
Médico no Bairro Pontilhão e ampliação do Posto Médico da Vila Brasil.
Implantação de política de atenção especial à saúde do adolescente
(principalmente usuários de drogas e grávidas
adolescentes); atenção especial no atendimento ao idoso.
Cultura: Festivais de Música, de Teatro, de
cultura popular; mostra de artes plásticas e audiovisuais. Instalação de
biblioteca e centros de informática nos bairros.
Zona Rural: Estudo do solo para definição de
plantio em hortas familiares, tratores, posto médico, transporte para
estudantes e atendimento médico.
Muitas foram as reivindicações
das quais extraiu-se as bandeira políticas que serviram para compor planos de
governo de alguns prefeitos que se seguiram; outras solicitações, não obstante
a importância para a população, morreram nas promessas de vereadores, alguns eleitos
e outros não.
Se pouco conseguimos concretizar enquanto representantes da
Associação de Bairro, ao menos ficaram
evidenciadas as múltiplas
necessidades dos moradores da periferia, infelizmente considerados
e lembrados somente nas épocas de
campanhas eleitorais.
Mesmo que a
coragem e a vontade de trabalhar e modificar a realidade seja desmedida, hoje
sabemos que pouco será realizado quando
a população com medo de comprometimentos, de represálias, de retaliação,
esquece de sua superioridade numérica e se dobra a servidão voluntária dos
opressores políticos.
Deixamos a associação por cansaço. Vencidos quatro anos de
luta não havia mais como continuar quando veio por terra, demolidos os nossos
sonhos. Quando foi-nos tirado o galpão onde atendíamos a população. Mesmo
assim, continuamos auxiliando aos mais necessitados, agora não mais pela
associação, mas através do Grupo Ação Comunitária.
O
Presidente da Associação de Bairro José Roberto da Costa tornou-se Presidente
do PT – Partido dos Trabalhadores e eu Vice Presidente do PDT – Partido
Democrático Trabalhista, ambos em Cruzeiro. José Roberto continua seu trabalho
liderando, organizando desde 1995 a campanha do Natal Sem Fome e eu, com mais
de 16 anos de anos de pesquisa e estudos sobre a cultura africana, desenvolvo
um trabalho anti-racista através do Grupo Cultural Zumbi.