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Depois de quase um ano de despesas havíamos finalmente terminado a reforma e a decoração da “Casa do Seresteiro”. Idealizada como espaço cultural poderíamos enfim, desenvolver nosso projeto de preservação da tradição seresteira na cidade, o sonho de Paulo Roberto da Conceição, o Paulinho Lyndóia, e promover o desenvolvimento das artes, divulgando trabalhos diversos de literatura em prosa e poesias, de artes plásticas e artesanato.            

Situada a Rua Afonso Pena, nº. 127, no centro de Cruzeiro, a “Casa do Seresteiro” abriu suas portas em 28 de Setembro de 1994, com grande sucesso. Inesperadamente, teve uma repercussão bastante positiva, elogiada por todos que ali estiveram e chegaram a conhecer de perto o nosso projeto, como iniciativa única que viria para inaugurar um movimento cultural na cidade.           

Cumprindo todos as exigências legais, abríamos as portas ao público e aos talentosos músicos de Cruzeiro e região para a apresentação do melhor da música romântica, juntando no mesmo ambiente, os melhores músicos e as melhores vozes da cidade e região, tradicionais em apresentações de músicas populares brasileiras antigas.           

Inaugurando a casa apresentaram-se: Orlando - no violão 7 cordas, Bazu – no cavaquinho, Paulo Nunes no Pandeiro e o compositor Fiico – José Izael da Silva na timba. E, convidado para uma participação especial, de São Paulo, o violonista cruzeirense, Luiz Zamponi.           

A “Casa do Seresteiro” não tinha como objetivo o lucro, portanto, oferecia um serviço de bar e restaurante bastante modesto, mas primoroso. Pensávamos numa arrecadação suficiente para mantê-la aberta, cobrindo apenas as despesas  necessárias para o seu funcionamento, já que era uma iniciativa que não contava com qualquer subsídio público ou privado.

Em menos de um mês tínhamos cadastrado músicos, cantores, compositores, poetas, artesãos, artistas plásticos e escritores e realizávamos a primeira mostra de poesias. Para tanto, criamos um mural na entrada do estabelecimento onde foram afixados os versos de inúmeros poetas da cidade e região. Intercaladas às apresentações musicais dos cantores eram declamados versos escolhidas no mural pelos autores ou por outros que desejassem declamar.           

Batizada como sala José Moacir de Castro, no interior da casa, na parede em frente a entrada, colocamos uma placa em madeira escrita com letras douradas o nome do seresteiro antigo proprietário do imóvel, a homenagem póstuma, ao lado de uma grande peça de madeira no formato de um violão, idealizada para imortalizar os nomes dos grandes talentos musicais de nossa cidade e região, da atualidade aos tempos mais remotos, até onde nossa memória e investigação pode alcançar.           

Fazia parte da decoração, três grandes painéis em madeira medindo  1,20 m de largura, por 2,10 de comprimento pintado em acrílico, de autoria de Naida Cortez. Lustres e cortinas artesanais em barbante e toalhas brancas de renda nas 15 mesas  compunham com o piso encerado, um ambiente bastante simples e extremamente agradável para sessenta pessoas.          

E foi assim que em poucos dias, tornava-se conhecida a “Casa do Seresteiro”, com seus petiscos, vinhos, cerveja e refrigerantes, recebendo visitantes da cidade e de toda a região. Em pouco tempo abríamos as portas para turistas de outras regiões do Brasil  que vinham para conhecer o projeto e se encantavam com a qualidade da música oferecida e dos cantores que se apresentavam.

A Casa do Seresteiro orgulhava-se de ser considerada um modelo de qualidade no atendimento e nas apresentações musicais e artísticas. Os microfones ficavam a disposição de quem chegasse e quisesse se apresentar, assim, em bem pouco tempo, músicos e público de mais idade  fizeram dali o "seu espaço", um lugar especial para apresentação de músicas românticas tradicionais que raramente são ouvidas nas rádios.  

Encantados com o projeto, em menos de um mês, a Casa do Seresteiro já constava do roteiro turístico de uma agência sediada em São Paulo e em São José dos Campos e recebíamos através delas: italianos, francesas e ingleses; visitantes das cidades do vale histórico, da região.         

Logo, estaríamos realizando o 1º Encontro de Poetas e Compositores da cidade de Cruzeiro. Evento que surpreendeu a todos pela qualidade da arte apresentada, revelando talentos impensados.  

Funcionando diariamente e reafirmando seu caráter de espaço reservado a todas as idades e, principalmente, firmando-se como única alternativa de qualidade para a terceira idade, a “Casa do Seresteiro” tornou-se um marco na vida seresteira da cidade.   

No entanto, sua duração foi curta, logo surgiram os insuperáveis obstáculos que em pouco tempo nos levariam a fechar suas portas, assumir o prejuízo e esquecer o projeto. Sem apoio de uma legislação municipal de incentivo a cultura ou qualquer outro subsídio; sem estrutura financeira para providenciarmos o isolamento acústico que pretendíamos, embora a altura do som estivesse dentro do permitido pela legislação, fomos obrigados a fechar.

Bem próximo dali, havia um grande galpão onde eram promovidos bailes com música eletrônica, ritmos Funk, Rock, etc. Um  ambiente de música jovem extremamente alta, que em pouco tempo de funcionamento esgotou a paciência, a tolerância dos moradores da cidade, já que era ouvido até em bairros mais distantes, madrugada a dentro.  

Juntando-se a altura do som, as constantes brigas e tumultos criados em seu interior durante os bailes, não raro terminavam nas imediações, com agressões e constante intervenção da polícia, numa declarada perturbação do sossego público que viria a motivar um abaixo assinado, solicitando o seu fechamento. Mobilizaram-se os moradores vizinhos do galpão, recolheram assinaturas por toda a cidade.

O proprietário do salão de bailes sabendo da investida contra seu estabelecimento e sendo ele uma figura política bastante conhecida na cidade, não esperou a entrega do abaixo-assinado, fechou suas portas antes que fosse iniciado o processo.  

Situado a duas quadras da “Casa do Seresteiro”, na Rua Engenheiro Antonio Penido, a sede dos bailes havia gerado um documento que acabou sendo usado contra os seresteiros, contra o nosso projeto de divulgação e desenvolvimento cultural, contra a única iniciativa do gênero na cidade, em décadas.           

Quando a “Casa do Seresteiro” firmando-se como um ambiente respeitável, recebendo famílias com crianças e adolescentes, popularizada como um dos melhores ambientes de Cruzeiro e da região, escolhida para eventos sociais de diversas empresas comerciais e  entidades respeitáveis de diversas categorias e segmentos sociais; quando, enfim, eram solicitadas reservas para festa de aniversário e casamento, de confraternização e reuniões empresariais, fomos surpreendidos pelo pior.

Numa noite, motivada por ligações telefônicas, desconsiderando a idade das crianças e idosos presentes, um grupo da PM munido de metralhadoras, de armas pesadas, invadiu o estabelecimento parando a música, o solo de violão e a voz seresteira do idoso que se apresentava, detendo o proprietário, músicos e os instrumentos.           

Iniciava-se uma batalha judicial. O velho “abaixo-assinado”  guardado, que objetivava fechar a casa noturna de bailes na “Rua 2”, seria usado contra a “Casa do Seresteiro”.  

Mais tarde viríamos a saber que inconformados, dois vizinhos da “Casa do Seresteiro”, um que pretendia comprar o imóvel para residência de seu filho antes de reformarmos, e outro, que ansiava comprar a casa para ali instalar um depósito de móveis para sua loja; usaram o tal abaixo-assinado para impedir o seu funcionamento e posteriormente viria nos procurar com uma proposta para comprar o imóvel.

A bem da verdade, durante o dia naquela semana recebemos vários moradores das imediações que sabendo certamente com antecedência, o que ocorreria, anteciparam suas desculpas, explicando o porquê de seus nomes constarem no documento mesmo sendo freqüentadores da nossa casa. Pediram desculpas mas não nos peveniram.          

Somente a noite entendemos o que estava acontecendo. Somente na hora da invasão policial é que ficou claro. Na verdade, todos, nas imediações deviam saber que a polícia invadiria a casa naquela noite, menos nós, os responsáveis.  

Meses pois, tendo o abaixo-assinado em nossas mãos verificávamos que até mesmo os moradores nos bairros localizados na saída de Cruzeiro, do outro lado da cidade haviam assinado aquele documento. Muitos conhecidos nossos, de fato, eram freqüentadores da “Casa do Seresteiro” e contestavam ter seu nome usado no pedido de interdição do nosso estabelecimento.           

O envolvimento com a polícia, denúncias, detidos, constantes invasões da polícia armada no local seguiram-se àquela noite. Mesmo diante de muitos depoimentos positivos não foi possível esclarecer o equívoco. Convinha a muitos que a “Casa do Seresteiro” parasse de funcionar. Um ambiente tradicional e respeitável voltado principalmente para a cultura, para inclusão social dos idosos, freqüentado por gente de talento e de idade, pessoas excluídas naturalmente da maioria dos ambientes sociais mais jovens da cidade? Um lugar especial, bem freqüentado, onde estabeleciam-se laços de sincera amizade e convivência saudável, convinha fechar.   

Havia ali, principalmente, o perigo de surgir uma liderança, um movimento político de conscientização que viesse a ameaçar posições, já que nós tínhamos um histórico de trabalho e de lutas sociais e representávamos a esquerda. Sendo a cidade regida por uma política administrativa disposta a acabar até com seu Vice-Prefeito, o que não fariam conosco? O Prefeito da cidade não era mais opressor, mais autoritário e anti-democrático por falta de oportunidade. E nós, estávamos agora, finalmente nas mãos dele e sem possiblidade de retalliação, completamente vulneráveis.

Um laudo Oficial da Cetesb dizia que a “Casa” estava dentro dos padrões legais de emissão de ruídos; e a declaração da assessoria do prefeito dizia que ultrapassávamos o limite de ruído permito por lei, justificando,  negando o Alvará para o funcionamento da casa.  

Houve um momento em que chamados para uma reunião com o Prefeito, foi-nos oferecido desistir do projeto como fora concebido e vincularmos a “Casa do Seresteiro” à secretaria de Cultura, que diga-se de passagem, inchada de incompetentes, não realizava absolutamente coisa alguma na cidade desde a posse do tal Prefeito, a não ser o festival de teatro, seguindo o nosso velho projeto do “Grupo de Ação Comunitária.  

Mais uma investida do poder contra a cultura deixando essa vez um prejuízo pessoal e um prejuízo cultural incalculável para a cidade. Em nenhum momento falou-se em subsídios ou amparo de “alguma lei de incentivo a cultura”. Não houve sequer negociação para que fosse providenciado isolamento acústico para o estabelecimento. Eles sabiam que não era uma casa que visava lucro, portanto, não havia caixa para bancar um aparato caro, para revestí-la, de uma hora para outra, se fosse o caso.  

Ao mesmo tempo, a secretaria de transporte da cidade aumentava nossa dificuldade sinalizando a rua em prejuízo da casa, dificultando aos visitantes o estacionamento de seus veículos e fomentando discussões intermináveis com aqueles que ali freqüentavam e apoiavam o projeto. Mais uma vez, desempenhávamos o papel de vítimas da ignorância dos “comedores de queijo”, os terríveis vizinhos.

Bastávamos filiarmos ao Partido JB Cruzeirense para cessar os problemas. Seria necessário apenas comermos nasmãos dele. Sabíamos disso. Para se ter uma idéia do que foram os depoimentos contra o funcionamento da casa, diremos apenas o que se passou com os reclamantes.

Levaram um casal bastante idoso para depor contra a Casa do Seresteiro. Ambos  beirando os 90 anos de insana resistência, muito ao contrário dos idosos que freqüentavam o estabelecimento. O velho não respondia às perguntas do delegado porque era surdo e a velha, cochilando no meio do interrogatório, dentro da delegacia, mesmo com os "ruídos" normais do trabalho cotidiano, não conseguia ouvir nenhuma pergunta inteira, portanto, nada dizia.

Notem que estas foram as testemunhas contra o "barulho" produzido por nós, contra o funcionamento da Casa. Detalhe: Eram parentes do eterno candidato a Deputado Hamilton Galhano, disseram os policiais. 

Curiosamente, estávamos na gestão do mesmo prefeito que assumira o compromisso, que prometera ao Grupo Ação Comunitária a sede da associação de bairro da Vila Brasil – a Savibras; o mesmo prefeito que declarava publicamente estar estudando a possibilidade de uma desapropriação justa, que não levasse ao prejuízo as partes, que dizia interessado em auxiliar nosso trabalho, mas que na verdade promovia a demolição dos galpões onde atendíamos a população mais carente.  

Era ainda a mesma administração que provava mais uma vez que os lúcidos, sóbrios e competentes, assim como os vices-prefeitos, ou seja, possíveis lideranças contrárias aos  seus propósitos e a seus pares deveriam ser sumariamente eliminadas do “jogo”.  

Sobreviveram às pressões e receberam auxílio tão somente os coniventes e as mulheres daquele rei. Abaixo os lúcidos, competentes, humanos e dignos até que as doenças nos invalidem. Que vivam apenas os nepóticos e generosos amigos do rei.

Quem se importa com as iniciativas populares, a necessidade  cultural da população?
A disposição para a resistência, para o trabalho e para o enriquecimento cultural, sempre ofendeu as mediocridades, os amigos dos governantes fascistas que só produzem coringas, bobos da corte e espantalhos de horta. Isso é inevitável, é tristemente histórico!

Calaram-se as vozes seresteiras até que o Grupo de "Seresta Pedacinho do Céu" surgisse para resgatar a tradição e um pouco de esperanças.

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