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Dr. Assuero Cortez e o Dr. Nesralla Rubez na sala, era uma ordem para baixar o som do rádio e diminuir o ruído doméstico. Não passávamos ligações telefônicas e não os interrompíamos em hipótese alguma. Não havia o que fosse mais importante, que justificasse uma interrupção daquele diálogo.  

O que  deixava-me admirada era sabe-los adversários políticos, diante da forma polida e cordial com a qual se tratavam. Extremamente comedidos e educados, as divergências de ponto de vista não eram suficientes para sequer alterarem o tom de voz. Compreendi então, que os grandes homens, de fato, respeitam, incondicionalmente, a liberdade de opinião dos outros, mesmo sendo inflexíveis em seus princípios.   Liberdade – Igualdade – Fraternidade! ... E respeito, muito respeito!

Era o Iluminismo refletido nos modos, nos costumes, na educação dos filhos. Não apenas em discursos, mas no ser, no convívio cotidiano, foi-nos transmitido - a mim e aos meus irmãos - com inúmeros exemplos, desde a infância.  

Assim como o respeito pelo próximo, aprendemos a respeitar o direito de opinião e de decisão dos outros; e, principalmente, respeitar aqueles que efetivamente dedicam  suas vidas ou parte delas para cuidar das pessoas, das cidades, dos bens coletivos.  

Assim fomos educados. Esses valores nos foram ensinados por meu pai, não apenas como um modo de viver, mas, como princípio fundamental que terminou incorporando-se a nossa personalidade. Ele ensinou e eu aprendi.  

Guardei com tanto zelo esses valores, que por eles acabei senti-me profundamente mal e muito triste, quando na semana passada, fotografando a  bela praça Antero Neves Arantes, deparei com uma realidade: A incontestável falta de respeito com aqueles homens dignos do passado que fizeram a nossa história.  

As antigas placas históricas de “Avelinistas” e a do “Prefeito Dr. Scamilla” desrespeitosamente, foram fixadas a cerca de 50 cm do chão, na lateral úmida de um canteiro, como podem ser observadas na foto.

Foi necessário descer a máquina quase ao chão para conseguir fotografá-las.  

A praça foi reformada e a mesma administração que a deixou tão bela, assinou com arrogância e desdém o atestado de seu caráter  e de sua personalidade, na escolha infeliz do local para a colocação das peças, tão próximo do chão.   

Por que não construíram um lugar mais digno para aqueles documentos históricos? Por que deixá-los ali, tão vulneráveis, quase na altura dos nossos pés? Já começa a despregar-se das pedras. Em breve terá o mesmo fim da placa histórica do cinqüentenário da Ferrovia que desapareceu do marco à Rua Eng. Antonio Penido.  

Lembro-me de quando minha mãe subiu as escadas da Câmara Municipal para ver o nome de Antonio Vieira Cortez – meu avô – colocado respeitosamente sobre a porta de entrada da tribuna. Depois da última reforma essa placa desapareceu e não mais voltou para o lugar onde esteve durante décadas. Certamente o espaço acabou ganhando outro nome, para atender interesses sabe-se lá, de quem.  

Assim, também desapareceu o busto do Prefeito Avelino Júnior colocado próximo a Praça da Bíblia, na V. Canevari. Da mesma forma desapareceu o vagão histórico que havia sido colocado na mesma praça Antero Neves Arantes, num ato de preservação histórica ferroviária. Sumiu uma noite sem deixar o menor rastro, como num passe de mágica, sem que ninguém tivesse visto.  

Há em Cruzeiro um prazer indiscutível em destruir a memória histórica da cidade. Há sempre um motivo político para isso,certamente, obviamente.  

A exemplo, temos a estação ferroviária em franca deterioração. Inúmeros municípios conservam suas estações, como centro cultural, como patrimônios públicos que são. Utilizam seus espaços como abrigo da produção cultural e isso, nunca impediu o desenvolvimento de nenhuma dessas cidades; ao contrário, incentiva o fluxo de turistas e contribui para o aumento da  movimentação comercial.  

Mas em Cruzeiro nada disso é possível. Só aqui acontecem os impedimentos. O que há por aqui é um profundo desrespeito pela nossa memória história, pelos nomes dignos e sérios que construíram a nossa cidade.  

Se logo não surgirem dirigentes políticos que valorizem a nossa cultura; se não elegermos homens dignos que respeitem o nosso passado, logo teremos apenas a memória de Cruzeiro registrada em fotografias.  

Precisamos de administradores com cérebro! Que entendam a importância dos marcos e monumentos históricos para uma população. Homens sérios e cultos como foram Dr. Nesralla Rubez e Dr. Assuero Cortez e muitos outros, que mesmo sendo adversários políticos, foram capazes de se respeitarem, colocando os interesses públicos acima das suas convicções pessoais.  

Preocupa-nos a remoção do soldado da praça 9 de Julho, do livro dourado com o nome dos heróis da guerra!   Vejam, não sem razão.   

                                                                                Naida Cortez
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