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Voltava ao micro. Tinha dormido mal. Tivera um pesadelo. Acordara num sobressalto. Não conseguiria reconciliar o sono. Naquela manhã, levantei-me antes do sol, dos indiscretos “bem-te-vis” e das lamuriosas “pombinhas”. As sete horas teria que proferir uma palestra para professores. “Tudo bem, a cidade fica perto daqui”, me consolei. Descansaria um pouco à tarde. Mas, à tarde, o telefone não parou de tocar. Ele havia combinado um revezamento com a campainha. “Mais que diacho!” Era a porta e o telefone... porta e o telefone... Não paravam de chamar por motivos diversos. Ao cabo de uma hora de deita-levanta, deita-levanta, meu esqueleto dolorido não queria mais tentar o repouso. Desisti. Vou escrever. Escrever sempre foi meu analgésico. Está anoitecendo, observei. Vou curar com letras a dor de cabeça e a dor das costas.  

Ligo o PC e logo ouço... “Hoje não tem “janta”? Quero escrever... Tenho que buscar alguém na rodoviária... Quero escrever... O telefone toca... Quero escrever... Agora é a vez da campainha... Quero escrever... Percebo que a camiseta do meu filho ainda está sobre a mesa de passar. Tem as mangas cruzadas demonstrando contrariedade. Esta ali a cobrar-me, a repreender-me. Há muito me espera, como a pobre gordinha da Dengue naquele dia. Quero escrever... A porta, a campainha... mas que diacho!... Quero escrever! ... O sistema automático entra on line:    ... Os R$ 7,2 milhões dos créditos de ISS -  distribuídos para projetos culturais este ano ... tinham acabo em vinte segundos...  

Como é possível R$ 7,2 milhões em 20 segundos? Enquanto aqui, no Centro Cultural Rotunda, salão de festa dos apadrinhados e desmandados, nada é feito em favor de uma biblioteca que morre abandonada, na indiferença...  Estou novamente, inevitavelmente na Rotunda. Lembro o gambá audacioso que atravessou o jardim em frente e entrou sorrateiramente por baixo da porta pesada do antigo almoxarifado, espaço agora cedido ao Conselho da Comunidade Negra. O bicho se esticou e passou pela fresta.  Teria pago pelo uso do espaço público? Alugou? Mesmo sem banheiro e sem bebedouro? ... Não seria o primeiro.  

Eu tinha ido até a biblioteca, várias vezes durante a semana.  Queria ler mais sobre a minha cidade, a “História de Cruzeiro”, não por Carlos Borromeu de Andrade, contemporâneo, de quem tive a ventura de comprar um volume autografado no dia de seu lançamento. Procurava alguma coisa mais antiga, escrita no passado; algo que me apontasse ao menos uma razão para a cidade estar assim, num estado de total imobilidade cultural, mais do que na imobilidade, num visível processo de franca e definitiva deterioração. Sucumbia na cidade, não só a biblioteca mas a cultura de uma forma geral.  

Numa das vezes, estava saindo da Rotunda quando chegou um bolo “de noiva”. ... De casamento? Acontecem coisas estranhas por aqui. Um bolo de casamento no Centro Cultural? São estranhos os bolos “de noiva” de Cruzeiro. Um dia desses, conversava com um conhecido na rua sete quando passou por nos um bolo enorme, “transportado por uma ambulância”. Na noite anterior dormira bem. Sem pesadelos. Nos vimos. Não foi imaginação. A porta traseira aberta, ele estava lá, sobre a maca e com direito a acompanhante. Estaria doente? Com Dengue talvez?  

A cidade mostrava claramente sua acefalia irreversível, insultante, debochando dos poucos cérebros que resistiam se negando a “emburrecer”. Tudo por aqui, sem dúvida, é demasiadamente municipal. Efetivamente nada importava a não ser os movimentos de efervescência política nos anos de campanha eleitoral. Nada acontece fora desse âmbito.  

Absolutamente nada acontece que justifique a existência da Secretaria da Cultura com seu secretário eurocêntrico, heráldico, admirador de espetáculos não populares, mas, de “alto nível” e seu assessor de “turismo”, turismólogo que sem entender bem as atribuições de sua função, viajava o tempo todo, obviamente com dinheiro da população, sem que alguém algum dia tivéssemos visto qualquer mínimo resultado prático dessas viagens, qualquer benefício para a comunidade.  

Não fossem algumas iniciativas populares, assim como o Centro Cultural Rotunda o teatro da cidade, que se transformara em escritório publico de “turismo”, estaria inteiramente entregue às moscas, ou melhor, as famintas e insaciáveis “traças”; quem sabe a espera das óperas e de outros espetáculos similares.  

Nada seria pensado ou promovido, referente a cultura regional, á tradição cultural popular da cidade ou da região; em favor da cultura dos “sem eira nem beira”. O que importava era a promoção de espetáculos de “alto nível” - para os telespectadores de novelas, cuja grande maioria nunca jamais entrou no Teatro Municipal Capitólio, - mas que importa? É mesmo só “para inglês ver”... se é que abrasileirados, acruzeirenciados, eles ainda existem por aqui.  

Há alguns anos atrás junto ao acervo doado, entreguei à biblioteca municipal um pequeno volume que tratava de nossa história. Devia estar lá. No livro havia uma bibliografia. Queria consulta-lo. Talvez encontrasse referências, uma pista, uma citação, uma nota talvez que me apontasse um caminho. Queria chegar ao fundo na história de cruzeiro. Não me interessava ler meias verdades polidas, queria a verdade dos fatos escrita corajosamente, quando a palavra valia mais do que uma assinatura, e o fio do bigode, esse ainda era honrado e ainda não compunha os cavanhaques modernos, uma espécie de selo, de identificação daqueles que têm dupla preferência sexual, como hoje são interpretados os cavanhaques por alguns cruzeirenses preconceituosos.  

Sem revisitar o passado, sem fazer uma releitura da história não há como entender o presente. Em algum ponto teria que haver um porque desse marasmo cultural e eu estava determinada a encontrá-lo.  

Lembrava da empreitada de Berlim, comprando, surrupiando, recolhendo peças africanas em diversos países durante anos para estudar aquela cultura, os hábitos dos habitantes daquele continente. O Museu de Berlim, hoje, com o maior acervo de arte africana do mundo - 75 mil peças de 31 países da África Subsaariana - teria sido criado pelo empenho dos estudiosos que buscavam conhecer os africanos antes de dominá-los.  

Como  Hernan Cortez que venceu Montezuma no interior do México, com seu pequeno exército de cerca de 600 homens, dizimando a civilização asteca – “25 milhões de pessoas” -, vitória que só foi possível porque o espanhol conheceu profundamente as fraquezas do universo indígena antes de invadí-lo e conquistá-lo. Valia lembrar que a desestruturação dos sistemas moral, político, cultural e religioso que regiam essa civilização que não acreditava nela mesma, e o otimismo cristão opondo-se ao pessimismo fundamental da mitologia asteca, mais resignada à morte do que determinada a sobreviver, definiram a vitória de Cortez.  

De qualquer forma, precisava conhecer mais sobre a história da cidade de Cruzeiro, não para domina-la, é obvio, mas, para entender a causa de sua paralisia, de sua atrofia cultural. Queria saber mais sobre a cidade, sobre os fatos, não apenas como foi apresentada até agora: com um Major controverso, idolatrado, reverenciado; enquanto lemos as inúmeras contendas judiciais que travou contra seu próprio irmão, por invasões de terras, abusos, violências, arbitrariedades. Pouco sabemos das dezenas e dezenas de anos que se passaram desde os tempos do excêntrico Major até hoje. É como se nada de muito significativo houvesse acontecido durante todo um enorme período.  

No meu entender, alguém virara ao avesso a cidade e eu estava disposta a conhecer o herói dessa façanha. Não podia ser obra do acaso a nossa estagnação cultural. Não queria acreditar nisso. Uma cidade que tivera em outra época, no passado, até uma Academia de Letras, parecia impossível que a disposição cultural coletiva tivesse morrido por obra do acaso, assim, de repente.  

Não me interessava a biografia de um homem que mereceu dos pobres operários cruzeirenses, uma carta de denúncia endereçada a regente Princesa Isabel, publicada na Gazeta de Notícias – RJ em 18 de Fevereiro de 1888 - ... “Os habitantes desta povoação estão de posse pacífica, e a povoação passou ao domínio do Estado e não é propriedade de Novaes, ela está edificada e construída por um povo livre, laborioso e civilizado e não pode suportar o peso da tirania, da violência, da rapina, desse fantasma “negro”, que surgiu da oficina do erro e do crime para a completa destruição desta infeliz povoação” ...  

Acusações que entendo gravíssimas, mas que, no entanto, não mereceu maiores investigações por parte de nenhum historiador até o momento. Nada mais consta nos livros sobre esta carta. Qual a repercussão? Ninguém saberia responder. Mas, na memória do povo ficou gravado o inconformismo do Major que ao ver-se privado das terras já desapropriadas que viriam a tornar-se a cidade de Cruzeiro, por seus homens, aterrorizava a população, investia contra os casebres ateando fogo, assaltando e torturando violentamente aquela gente humilde, no meio da noite. O mesmo Major referenciado como o honrado amigo do rei.  

E o que importa saber que vantagem teve o tal Major, ao promover uma festa de desagravo em que estiveram presentes cerca de 1.200 cidadãos, se a população na época somava-se em torno de 4.000 habitantes e, mais de um quarto era beneficiário do poder público, dependendo direta ou indiretamente do dito “Major” para sobreviver? Seria a referida festa um atestado de bem querença, de demonstração de simpatia pública como querem que pareça os bajuladores? Os que lá compareceram não se colocariam nunca contra o patrão. Pelo que se tem notícia, foi na Fazenda do Major que aconteceu o primeiro festival “Boca Livre”, tão comum na cidade. O tal “pão e circo” tão solenemente reproduzido em Cruzeiro, principalmente nos tempos que antecedem as urnas ou quando se pretende agradar o prefeito pra não perder o cargo. Conquista-se amigos pelo estomago e pelos bolsos. A dignidade vale pouco em Cruzeiro. Troca-se incompetência por “arroz vermelho”.  

Não vou engrossar a fileira dos aduladores que desconhecendo os fatos elevam a condição de “nobres” os burgueses, ou, melhor dizendo, - os burgáfros ou burguíndios cruzeirenses - nativos, miscigenados com “negros seqüestrados”, emigrantes e/ou imigrantes que chegaram, quando muito, com suas trouxas dependuradas em cabos de vassouras, quando não “com a mão na frente e a outra atrás” como diriam depois. Melhor seria se todos confessássemos a origem humilde de nosso povo, que teve como berço ou a senzala, ou os porões de navios de nações diversas.  

Melhor seria ainda, se reconhecêssemos sem preconceitos, que por benesses, por barganhas, tornaram-se “alguns”, proprietários de terras e/ou de estabelecimentos comerciais, quando não agregados diretamente ao violento Major a quem a maior parte dos bens passou a pertencer-lhe por herança de viúvo.  

Os "burgafros" ou "burguíndios" cruzeirenses, de tempos mais recentes, curiosamente, foram elevados em sua condição social pela proximidade de políticos e dos cofres públicos, para depois, transfiguraram-se em rolos compressores, massacrando sistematicamente as classes menos favorecidas. Eis o cerne de nossa história.  

Notem que Cruzeiro só veio a existir no fim do Império, portanto, os graduados que compraram suas patentes na Guarda Nacional, encontrados na vida urbana de Cruzeiro, são pouquíssimos remanescentes da incipiente aristocracia rural que o Embaú conheceu. Se aristocratas respiraram os ares cruzeirenses foram em visitas eventuais, já que a presença deles em nossa terra foi reduzidíssima, como nos assegura Hilton Federice em Histórias de Cruzeiro – Volume I.  

Portanto, somos a maioria de origem indiscutivelmente humilde, rural, operária, mas, não por isso somos “todos” desinformados ou incultos; submissos ou passivos; sem identidade e sem história; incapazes de questionamentos, como querem fazer crer os “leiteiros”, grandes manipuladores do poder político desde a criação de Cruzeiro.  

Sejamos justos: Na verdade somos muito artificiais, antipáticos, prepotentes. Com raríssimas exceções – e existem exceções - muitos de nos, cruzeirenses “por nascimento ou por adoção” temos o “nariz empinado”, mas, na verdade, somos mesmo originários da classe menos favorecida. O peso da nossa arrogância é inversamente proporcional a altura que sobrevoamos os acontecimentos. Num estilo borboleta, não pousamos para não sermos obrigados a envolvimentos mais sérios com os fatos.  

Nesses dias, porém, eu procurava uma literatura corajosa que me falasse mais, por exemplo, sobre o “Cemitério dos Afogados”, o açude ao qual se referiu o Sr. Turner em dado momento da história. Queria saber mais sobre as inúmeras revoltas dos escravos, sobre as manifestações da população urbana no período seguinte a criação oficial de Cruzeiro e depois disso. Devia estar por aí, dissimulada, a nossa verdade histórica, assim como camuflados, escondidos, os nossos verdadeiros heróis, que, se os tivemos, devemos suas origens certamente entre os mais simples, trabalhadores, operários de nossa região que sobreviveram e produziram herdeiros.  

Sempre haveria de questionar as colocações que afirmavam a bondade e a lealdade do Major que prepotente “dominava completamente sua colônia” de trabalhadores livres. Parece-me insensatas, contraditórias, equivocadas estas colocações. Como é possível ser bondoso e leal quando se é dominador e dado a excentricidades, violências, etc.?   

Notem que o Major entende como “sua” a colônia de trabalhadores livres. Temos então que esclarecer “para quem ele teria sido bondoso e leal?” Para consigo mesmo? Chegua-se a duvidar que a equivocada professora e os demais que se aventuraram a falar sobre o patrono, estivessem se referindo a mesma pessoa, ao mesmo Major que afirmam “não ter sido entusiasta do trabalho escravo”, quando o enaltecem dizendo que logo ao assumir a fazenda Boa Vista, ele implantou a “sua” colônia de trabalhadores livres, formada por espanhóis, cearenses e jagunços.  

Por que temos sempre que cuidar de Cruzeiro como se a cidade não fizesse parte do mundo? Para considerarmos os fatos havemos de levar em conta o momento histórico. Havemos de considerar o cenário nacional, o momento político. Isso, se quisermos seriamente entender a postura, o raciocínio, as decisões dos fazendeiros da época. Havemos de procurar saber o que acontecia no mundo, no Brasil, em São Paulo em dado momento, antes de expressarmos nossa opinião. Nisso se justifica as informações disponibilizadas na “História de Cruzeiro inserida na história do Estado, do Brasil e do Mundo”, quando ao mesmo tempo, procurei inserir a cidade alienada de Cruzeiro, num contexto histórico mundial para que seja possível analisar o que era feito por aqui enquanto no mundo, no Brasil e em São Paulo a história enchia diariamente, inúmeras páginas, como verão os que chegarem a ler até lá.  

Mas, voltando a nossa análise, devemos lembrar que muitos paulistas se beneficiaram como fornecedores de escravos ao Império. A grande maioria poupava seus filhos enviando os negros em seu lugar. Os escravos serviam nas Guerras. E quando estas Guerras terminavam muitos escravos não voltavam a lavoura, a exemplo da Guerra dos Farrapos (1835 a 1845) - que durante dez anos consumiu “peças africanas”, e que por fim acabou dizimando de uma só vez, de 600 a 700 “Lanceiros Negros”, na Traição de Porongos, quando obedecendo a ordem superior, supostamente de “Caxias”, os heróis negros depuseram as armas no final do combate, esperando receber a alforria, e, como prêmio, depois de desarmados, foram brutalmente assassinados, chacinados.  

Igualmente na  1ª. (1849) e na 2ª. (1864) Guerra contra o Uruguai, na Guerra contra a Argentina (1852) e na Guerra do Paraguai (1864 a 1870), foram utilizados negros escravos como soldados; inclusive mulheres, para “atender aos oficiais”. Nota-se, assim, que havia a necessidade de buscar-se uma alternativa, de empregar com urgência, trabalhadores livres. Devemos considerar também que desde 1850 tinha sido aprovada sob pressão inglesa a Lei Eusébio de Queirós, proibindo o tráfico negreiro no país. O que encarecera a “peça africana” tornando possível apenas o difícil tráfico interprovincial.  

Temos que o dito Major casou-se e começou administrar a fazenda Boa Vista em 1865, portanto, “quinze anos antes de seu casamento” o tráfico de escravos vinha ficando mais difícil a cada ano, devido a Lei de 1850. Se considerarmos que a vida útil e produtiva de um escravo alcançava em média 30 anos, parece-me que não seria lucrativo investirem muito, continuarem comprando “peças” caras que poderiam ser requisitadas para defender as fronteiras e quando muito produziriam mais alguns anos apenas, se contados os 15 anos já transcorridos desde 1850, já que o estoque não poderia ser renovado.  

Em 1856 (nove anos antes da administração Novaes), já aparecem na história as primeiras reclamações de falta de braços para a lavoura. E, além disso, devemos considerar ainda que a Lei do Ventre Livre fora assinada em 1871, ou seja, (seis anos depois de seu casamento, praticamente no início de sua administração).  

Tudo isso, certamente, levou o Major a optar pelo trabalho livre, ou seja, ele decidiu no lápis, porque, além de tudo, a reprodução racionalizada da população escrava num sistema semelhante ao utilizado nas “plantations” norte-americanas, ou seja, manter um reprodutor na fazenda, ficava muito mais caro.  

Certamente não foi nenhum eventual “ataque” de humanidade, de misericórdia que inspirou suas decisões. Fruto da sociedade da época o Major não considerava a escravidão um crime contra a humanidade, certamente. Outro fato que devemos lembrar, é que os ideais abolicionistas avançavam rapidamente e que em 1869, (quatro anos depois de seu casamento), o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro em 31 de Março, publicava o manifesto Liberal, propondo a emancipação gradual dos escravos no Brasil.  

Observamos ainda que apenas cinco anos depois dele ter iniciado a administração da fazenda, em 1870, o jornal Atybaia e outros da região já aconselhavam os agricultores a tomarem a iniciativa de implantar o trabalho livre, a partir até das crianças, porque a abolição era inevitável, uma questão de tempo conjugado com oportunidade. Tanto que em 1888, no ano da abolição, restavam pouco menos de 10% de escravos no Brasil, devido principalmente a desorganização política do país; às fugas constantes para os Quilombos; ao exército negar-se a capturar os negros. 

Mesmo não tendo ainda um modelo para tanto, todos os jornais debatiam a questão da transição dos métodos de trabalho, desaconselhando a utilização de mão-de-obra escrava juntamente com a mão-de-obra livre posto que a relação entre eles sempre resultava em perturbação da ordem e da disciplina.

Sabia de muitas coisas, mas, me faltava o porquê da desmotivação cultural cruzeirense. Entrara na Rotunda em busca de mais informações na certeza de que não falariam tão bem do Sr. Novaes se se tratasse de um homem do povo, sem posses. Isso era habitual na cidade; é até hoje. É histórico avaliar o caráter, a personalidade das pessoas, através da posição de poder que ocupa na sociedade e da quantidade de bens que possuem.  

Ainda trabalhando em São Paulo, sabia os nomes da “elite” cruzeirense que deviam financiamentos diversos, de carros zero km, por exemplo, adquiridos para manter o status, “as aparências”, quando a situação da maioria deles era bastante difícil como denunciavam suas contas bancárias.  

Transformar o Major em modelo de virtudes, em herói, é compreensível na medida que entendemos a necessidade que a classe privilegiada têm de um referencial histórico que lhe aumente a importância, o valor pessoal e “de classe”. Mais do ninguém os ricos necessitam de um símbolo que justifique sua posição superior aos demais, o status os aproximam e fortalece “a casta” e assim, estabelecem  identificação com o suposto herói que passa a ser um dos seus iguais. O mito que envolve o herói é o diferencial que justifica e fornece o aval ao explorador.  

Foi preciso criar um herói cruzeirense, um mito dotada das mais elevadas virtudes, um pai de todos, da nossa pobre história. Uma figura aristocrática que justificasse a criação da casta, da “pretensa elite da cidade quase cafeeira e quase leiteira”, sem o qual, nos tornamos apenas brasileiros.  

Mas, todos que temos um mínimo de raciocínio sabemos que sem as ferrovias, sem a população nada existiria a não ser uma grande extensão de terra, ossadas de índios Puris massacrados aos milhares, e, provavelmente a história de um viúvo privilegiado. Rico o suficiente para comprar da Guarda Nacional o uniforme e quantas patentes quisesse, as custas do trabalho gratuito de seus escravos. Se não fossem os mais humildes, os operários, certamente nem mesmo a velha estação existiria, mas o “cemitério dos afogados”, o açude “engolidor” dos inconvenientes, impertinentes e reacionários, este sim, permaneceria, mesmo que esquecido,  perdido na cartografia colonial.

                                                                             Naida Cortez
Álbum de Fotos

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