Nas
pequenas cidades do interior a população não pode contar sequer com a imprensa
para denunciar, defender seus direitos. A grande maioria dos veículos de
comunicação é comprada. Necessita de subsídio do poder público para sobreviver.
A maioria não tem formação profissional. Assim, seguem os amadores recolhendo
migalhas, defendendo seu pão, muitas vezes em detrimento da verdade.
Prostituídos, muitos, acreditam que são jornalistas e se aventuram sem medir
conseqüências.
Minimizam
os fatos quando não negam ou simplesmente omitem. Manipulam as informações.
Ironizam, ridicularizam as queixas muitas vezes torcendo os acontecimentos sem
imparcialidade, sem conferir a verdade, desmotivando as reclamações. Em vista
disso, os mais humildes preferem engolir a indiferença, o insulto nos diversos
setores nos quais são atendidos; não reagem. Suportam toda a sorte de
preconceitos daqueles que “vem de cima” e olham pra comunidade do alto de seu
pedestal, atrás dos balcões de atendimento. A negação do outro sempre foi uma
ferramenta eficiente para a auto-afirmação.
No rádio
do carro ouvia a declaração descarada, de que não se tratava de epidemia: “São casos isolados de Dengue, apenas uns
600 e tantos casos”. “Não tem porquê, tanta preocupação”. Ouvia indignada
aquela notícia. Tinha presenciado a preocupação de funcionários do hospital
comentando entre eles que os casos de dengue ultrapassavam o número assustador:
mais de 1500 atendidos. “O povo é o culpado”. Continuavam falando no rádio.
Deixam caixas d’água, vasilhas, pneus, latas e pratos sob os vasos de planta
com água limpa ou de chuva, nas varandas e fundos de quintais”.
De
radialista a juiz transitam sem cerimônia, os pretensos críticos. Como podiam
falar de vidas, da saúde humana como se fossemos apenas um número impresso numa
estatística e ainda responsabilizar o povo? Desliguei o rádio e sai para levar
a pobre desconhecida ao Pronto Socorro. Mais um caso sem ambulância, mais um
“caso isolado”, mais um pobre a espera do médico na aflição de uma vida sem
solução.
A mulher
havia piorado no corredor a espera de socorro. Eu ainda estava ao lado dela,
acalmando-a, consolando-a. Era tudo o que eu podia fazer. Parada em frente à
sala de raios-X procurava ajudar a enfermeira no que eu podia, no atendimento
aos pacientes em aflição. Era realmente difícil a situação dos funcionários. O
hospital estava intransitável, o corredor, lotado. Não havia leito para atender
a tantas emergências que não paravam de chegar. Velhos, moços e crianças
misturavam-se na agonia que parecia aumentar com o choro infantil e os gemidos
de gente de todas as idades. Muitos negros. Muitos afro-descentes. Chegava a conclusão de que também na cidade
de Cruzeiro, a doença, a espera, a pobreza tem cor.
Lembrava
dias atrás quando socorrendo outro doente eu havia estacionado o carro na rampa
que dá acesso direto ao P.S. Tentando evitar a lentidão do atendimento da
portaria, fui correndo buscar uma cadeira de rodas pro enfermo que chegava
comigo, quando um outro carro, enlouquecido, encostou à traseira do meu. De
dentro, saiu um casal gritando para eu sair da frente que o homem que estava
com eles era cardíaco, precisava de atendimento urgente.
Vendo a
minha dificuldade, não insistiram. Voltaram ao carro e agora com a ajuda do
motorista carregavam de mau jeito um homem, para dentro do hospital. Passado
algum tempo alguém anunciou: “Esta morto.” Estabeleceu-se a gritaria, a
confusão. A mulher aos berros acusava-me de estar obstruindo a passagem, de
tê-los retardado no socorro. Não respondi. Não disse nada. Apenas olhava para
ela sem sentir absolutamente nada, não me ofendia, não me atingia. Apenas olhei
respeitando sua dor. Chamaram a polícia.
Logo em seguida ouvimos outra versão.
O morto havia discutido com alguém que lhe pegara pelo pescoço tentando enforca-lo...
“Ele não podia ficar nervoso, era cardíaco!” Outra versão dizia que ele
estava bebendo num bar quando aconteceu. Mas a mulher transtornada continuava
me acusando. Passado um tempo, depois de muitos insultos e muita confusão,
apareceu o legista. Sem marcas de enforcamento, afirmava que o homem havia
morrido há mais de uma hora. Chegara ao hospital em óbito. Não havia o que
fazer.
Inconformados,
aos berros, os parentes desistiram de achar um culpado por ali e saíram do
hospital. O corredor voltou ao movimento anterior. Na verdade o homem já havia
morrido bens uns quarenta minutos antes que eles o socorressem, afirmava o
legista. Eu ainda aguardava o atendimento do paciente que trouxera, quando o
resgate chegou. Traziam um homem ensangüentado. Os parentes do cardíaco, que a
pouco tinham deixado o hospital, encontrando aquele que supostamente se
desentendera com o morto, junto a vizinhos, tentaram lincha-lo. Acusado,
detido, algemado, era responsabilizado agora, pela morte do cardíaco. Tinha
muitas escoriações, hematomas pelo corpo todo e várias costelas quebradas.
Livrara-se da morte por um fio, com a chegada da polícia. Agora, gemia sem
ousar reclamar de coisa alguma. Era mulato. Não levantava sequer os olhos.
Com que
violência investiram contra aquele pobre homem! Magro, vulnerável, impotente
diante da multidão. Senti pena. Chorei a dor do desconhecido. Ele parecia
confuso sem saber onde estava ou o que estava acontecendo. Escondia mal o rosto
entre os braços algemados, espetados agora, com a agulha do soro. Um estado
humilhante aos olhos de todos. Virei o rosto e rezei por ele, na minha aflição.
“Meu Deus, quanta violência... que loucura! Que descontrole!” Repetia a mim
mesma diante do quadro lastimável a minha frente, emendando orações. Não
bastava o infortúnio da morte de um parente, teriam que arrastar para o
hospital um ser tão esquálido como aquele?
“O
brasileiro é pacífico... não é violento”. “Cruzeiro é uma cidade
abençoada, aqui não temos grandes problemas!”
É fácil definir o mundo vendo
os fatos apenas pela nossa própria ótica. Aquele homem algemado, por exemplo,
diria o mesmo? Quando muito, seria apenas mais um número na estatística, nos
relatórios do atendimento. A não ser aos olhos dos que presenciaram a cena, a
chegada daquela sucata humana no hospital; aquele quadro sórdido, não iria ao
conhecimento público com toda a força trágica que se apresentava pra nós.
O lamentável episódio, certamente não
causaria a indignação popular. Temos perdido ao logo da existência a capacidade
de nos indignarmos. Nos acostumamos a ver cenas e mais cenas de todas as
espécies de infortúnios, de traições, de torturas e assassinatos nas
reportagens e filmes nas Tvs. Passamos a perceber a violência do cotidiano do
mundo, com se tudo não passasse de fantasia, como se fizesse parte apenas, de
alguma cena forte da 7ª Arte.
Muitos
ali diriam, talvez, que “Essa gente da ‘vilinha’ é assim mesmo. Sempre acontece
dessas coisas”. Sem levar em conta a dose de sofrimento humano envolvido
naquele drama, tudo haveria de ser minimizado até ser esquecido completamente
em face de um novo acontecimento trágico ou, quem sabe, um escândalo político,
uma denúncia envolvendo algum nome da “elite” da cidade. Passada uma semana
ninguém mais se lembraria. Em Cruzeiro todos os jornais são semanários. Logo,
tudo passa.
Tudo é substituído e substituível, ate o escândalo ou a tragédia.
Então, com ufania, novamente ouviríamos: “Cruzeiro é uma cidade pacata,
abençoada. Devemos dar graças a Deus por ser como é, tão sossegada! Aqui não
temos grandes problemas”. Quando muito, dirão: “Cruzeiro está ficando uma
cidade violenta”.
Diferente
dos jornais editados nos municípios maiores de nossa região, provavelmente, no
futuro, os jornais produzidos aqui nessa terra, não servirão a pesquisa
histórica mais séria, mais profunda. A absoluta falta de cultura e o nível dos
bajuladores que os redigem, em sua maioria tendenciosos, não possibilitará a
transmissão do perfil do munícipe de nossa época, nem retratará, com um
conteúdo capaz de servir como mostra, o modo de vida nessa comunidade.
Eles
abordam apenas e exclusivamente, três únicos temas: Os escândalos políticos; as
“grandes” realizações da administração atual; e a marginalidade. Não divulgam
os anseios, as iniciativas, nem as realizações da população no cotidiano da
comunidade. E quando o fazem, pecam pela falta de interesse em noticiar os
fatos sem erros, sem más interpretações e equívocos. Na maioria das vezes, é
como se o povo não existisse no cenário. Um cidadão comum que não possa pagar
pelo espaço poderá realizar o que for, nunca será notícia. Todos os jornais
seguem e se sustentam nesse idêntico tripé: escândalo, bajulação,
marginalidade.
No mais,
o que vemos nos periódicos são fotos de festas, casamentos, aniversários e
outras comemorações da “elite” que paga pelas fotos nos bufês, em clubes e
restaurantes, vendendo a imagem de família perfeita e feliz, como nas
propagandas de margarinas; além de um excesso cansativo de pequenos “anúncios”,
sem a menor criatividade, amontoados na parte inferior das páginas, de uma
forma que empurram os olhos para cima ou para fora dos jornais. Trabalho
amador, típico de quem não teve escola, não tem técnica e não é leitor
habitual.
Não
divulgam com imparcialidade coisa alguma com relação às atividades desenvolvidas
pelos segmentos sociais. E quando o fazem, não noticiam, exaltam ou
desmoralizam fazendo questão de demonstrar não o fato por si mesmo, mas a
prepotente opinião do “escrevedor”. Em linhas gerais, os jornais servem
sistematicamente para testemunhar a falta de profissionalismo da maioria dos
editores, a ausência de sensibilidade dos responsáveis que supõe sejamos todos
os leitores um bando de medíocres. Talvez por que não façam os jornais para os
leitores e sim, apenas para alimentar a vaidade e o interesse dos pagadores, já
que é distribuído como propaganda eleitoral, gratuitamente, nos pontos
estratégicos da cidade, durante todo o ano.
Com a
maior naturalidade, freqüentemente os editores e jornalistas roubam a cena dos
acontecimentos. Pousam para as fotos, como nas propagandas de dentifrícios, por
uma necessidade psicológica incompreensível. Coisa que não vemos nos grandes
jornais metropolitanos. Talvez por um ataque de menos-valia supurada, de
necessidade de auto-afirmação infecciosa ou, quem sabe, apenas por um “surto”
de estrelismo incontrolável, e não raro hilariante; talvez curável com um
simples vermífugo.
Se os
levássemos para a avaliação do pediatra do meu filho, certamente ele diria o
que ouvi durante anos nas consultas: Parece verminose, deve ser dá água, está
“dando isso mesmo” nas crianças por aqui! O fato é que eles, os da mídia, estão
sempre lá, se autopromovendo em encontros políticos - inaugurações ou jantares
“boca livre” ou em pequenas festas, com autoridades e visitantes. Portanto,
ocupam-se em afirmar-se como “o 4º Poder”, capaz de destruir sumariamente
qualquer cidadão, como os marginais. “Basta eu querer!” Repetiram. Assim,
brincando de “homem aranha”, terminaram por identificar-se com ele, ”grudando
nos políticos com fios quase invisíveis”.
Prestam-se
a enaltecer exageradamente qualquer administração pública, independente da
qualidade de seu caráter endeusam sistematicamente o prefeito, seu secretariado
e assessores, garantindo para si e sua prole, os subsidiados dos cofres públicos.
Ou seja, dedicam-se com fidelidade “canina” a campanhas políticas eleitorais,
enquanto durar o mandato do “padrinho”, ou seja, o tempo que permanecerem subsidiados.
Por
outro lado, os descontentes, por não haverem sido contemplados com as benesses
públicas, os demais - literalmente
falando -, buscam a desmoralização dos concorrentes, dos beneficiários do poder
administrativo e/ou do poder legislativo, ou, de ambos, ocupando-se em
denunciar vilezas e deslizes, na maioria das vezes, como pequenas “futricas” e
“fofocas”, como fazem as comadres ociosas: de uma forma pessoal, não
profissional e pouco digna, desconsiderando toda a técnica da crítica, da boa
redação.
Tão
vazios quanto os primeiros, estes “pobres” delatores, assim como a maioria dos
políticos, acreditam servir a si próprios e ao trágico do cotidiano, quanto
acontece poderem exibir fotos ou discursos sobre a escória ou o infortúnio
humano. Na verdade não acrescentam um ponto sequer na qualidade cultural da
comunidade, não cumprem minimamente o que seria o seu mais digno papel social.
Jamais fazem cobranças com o que se relaciona a cultura.
Nesse
ponto da análise, sou tentada a reportar-me ao século 15, quando Voltaire,
assinando como Mufti Cherébi escreveu um artigo intitulado “Do horrível perigo
da leitura”. Naquela época era comum aos letrados franceses passarem-se por
“nobres” da Ásia Menor, assinando com nomes fictícios os artigos, as críticas,
satirizando as decisões opressivas a que estavam obrigados a submeterem-se.
Desta forma evitavam a censura e a condenação inquisidora do clero.
Voltaire
assinando como Mulfti, identificando-se como sendo do “Santo Império Otomano”,
vindo do ocidente maravilhado com a máquina de imprensa, pergunta aos sábios do
reino turco-otomano (inimigos históricos dos cristãos), a opinião deles sobre o
invento. Os sábios, diz Voltaire, ou melhor, Mufti, responderam condenando o
invento infernal – a Imprensa – apresentando os “argumentos” que transcrevo
abaixo:
1. Ela,
a imprensa, é perigosa porque facilita a comunicação dos pensamentos, tendendo,
evidentemente, a dissipar a ignorância que, afinal, é a guardiã e a salvaguarda
dos Estados bem policiados.
2. É
especialmente temível que cheguem, entre os livros que aportam vindos do
Ocidente, alguns que tratem da agricultura e sobre os meios de aperfeiçoar-se
as artes mecânicas, obras que podem, a longo prazo (o que não agradaria a
Deus), revelar o gênio dos nossos cultivadores e dos nossos manufatureiros,
exercitando-lhes a indústria, aumentando-lhes a riqueza, inspirando-lhes assim
a elevação das suas almas e um certo amor ao bem público, sentimentos que são
opostos à sã doutrina.
3.
Chegará por fim o tempo em que teremos livros de história descomprometidos com
o maravilhoso, o que sempre entreteve a nação numa feliz estupidez: haverá
nesses livros a imprudência de fazer justiça às boas e às más ações e de
recomendar a equidade e o amor à pátria, o que é visivelmente contrário aos
nossos direitos locais.
4. Logo
chegará a vez dos miseráveis filósofos que, sob pretextos especiosos, mas
puníveis, irão querer esclarecer o homem comum e tentar fazê-los melhores,
ensinando-lhes virtudes perigosas as quais o povo jamais deve tomar
conhecimento.
5.
Argumentando que têm enorme respeito por Deus, eles, os pensadores, terminarão
imprimindo escandalosamente, fazendo por diminuir os peregrinos a Meca,
provocando um grande detrimento da saúde das suas almas.
6. Sem
dúvida chegará o momento em que, à força de ler os autores ocidentais que
tratam das doenças contagiosas e da maneira de preveni-las, ficaremos infelizes
por nos garantirem contra as pestes, o que seria um grave atentado contra a
Providência.
Baseado
nos argumentos acima expostos, Mufti sugeri que: pelo “bem das almas”, jamais
ninguém leia um livro sequer para não cair em danação eterna. Voltaire segue em
sua sátira, como Mufti, aconselhando aos pais a nunca ensinarem seus filhos a
ler e a escrever, incentivando-os a defenderem as crianças da tentação de
“pensar”, encorajando os crentes a denunciarem qualquer pessoa que conseguisse
falar quatro frases seguidas que tivesse sentido.
Em vista
da qualidade dos jornais publicados em nossa cidade, fico pensando se teriam os
editores dos semanários de Cruzeiro, juntamente com vários “edis”, muitos
secretários e assessores, tomado conhecimento, algum dia, desta sátira – do
Parecer e das Recomendações do Mufti Joussouf Cherébie – e acreditado nos
“Argumentos dos Sábios Otomanos”. Alguém precisa avisa-los que isso é só uma
sátira, uma brincadeira, uma forma de dizer a verdade brincando.
A
exemplo disso, o cardíaco morto, assim como a vítima do linchamento, se
chegassem a ser notícia, seriam esquecidos na semana seguinte. Ninguém pensaria
em propor auxílio a essa gente, ajuda material, psicológica. Numa pequena
sociedade, sempre há como evitar muitos males. Aquela família de negros
moradores na mal afamada ”vilinha” do bairro do Itagaçaba, sem dúvida, muito
pobre, não mereceria atenção, nem até o próximo número dos jornais.
Gente assim, que já chegou ao
mundo em desvantagem, jamais merece a preocupação das autoridades. “Os
desdentados”, como diriam maldosamente na secretaria da cultura da cidade ao
referirem-se aos mais humildes, merecem preocupação, apenas, na proporção exata
da fotografia trágica que produzem suas desgraças e popularizam os jornais; ou,
pela quantidade de votos que podem representar nas eleições.
O que a
administração pública poderia fazer por essa pobre gente? E pelo Pronto Socorro
abarrotado? Como será daqui a alguns anos se não houver investimento nos
setores? Ninguém questiona. Sou tentada a acreditar que todos vamos morrer
espancados na fúria incontida dos indignados, ou, na melhor das hipóteses, quem
sabe, nas calçadas dos hospitais. Hoje, não há mais lugar nos corredores assim
como parece quase não haver mais disposição para o trabalho competente, a
reportagem de qualidade, o diálogo sério. Não há mais lugar para a fraternidade
e mesmo assim insistimos intitulando-nos: “seres humanos civilizados”.
Esquecidos
no mundo sem Deus, os humildes teimam em sobreviver na periferia de Cruzeiro.
Basta passar por lá para conferir. Mas os “homens de bem” não ousam entrar
naquele antro. “Na Vilinha?” Eu? Você deve estar brincando!” Alguns moradores
estão associados a traficantes e ladrões. A pobreza extrema torna impossível a
dignidade. Ninguém passa por lá, a não ser os consumidores para “comprar”, ou
seus agentes, quando trata-se de um nome ou uma imagem que não pode aparecer ou
que não deve correr riscos. Afinal, “Mudar, pra que?”