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Fui encontrar Lucrécia no asilo, numa cidadezinha de Minas Gerais, um pouco distante do município de Cruzeiro. Não a conhecia. Soube dela através de uma colega de trabalho, em São Paulo, por uma feliz coincidência. Numa segunda-feira, voltando de uma viagem para casa, Mariana falou-me sobre ela. Uma velha senhora que dizia ter vivido no “Cruzeiro do Embaú”. “Cruzeiro não é a sua cidade?” “Então, Lucrécia é de lá ou das redondezas, não sei ao certo”. Concluiu Marina, que guardava um carinho especial pela velha senhora. “Ela sempre gostou de contar muitas histórias”.                                                                                                        
Lucrécia teria sido internada num asilo depois de uma cirurgia porque não tinha parente, precisava de tratamento. As freiras a receberam, cuidavam dela. Foi bem tratada, mas, nunca se recuperou completamente. Era uma amizade de longa data com a família de Mariana. Sua mãe a conhecera durante uma visita ao asilo. Com o tempo, dedicava horas a ela. Ouvia suas longas histórias quando levava doações. Aproveitava para cortar-lhe as unha, o cabelo. Cuidava de Lucrécia como se fosse a avó de quem gostava tanto. 

Naquele fim de semana, no entanto, ao visitá-la, notou que a pobre mulher estava bastante debilitada em comparação com a fisionomia serena que a tinha visto pela última vez. Falou-me com tristeza. 

Sempre vinha com novas histórias quando viajava para casa e aproveitava para fazer uma visita ao asilo. Os episódios relatados por Lucrécia sempre despertaram minha curiosidade.  No entanto, desta vez, Marina viera lamentando que depoimentos como os de Lucrécia em breve estariam inevitavelmente perdidos sem que pudéssemos comprovar os acontecimentos que ela narrava. E o que parecia pior era um fato inevitável: A velha ia aos poucos se retirando da vida sem que ninguém se preocupasse em colher e aproveitar ou, ao menos, guardar as informações que ela dispunha.    

No sábado seguinte, lá estava eu viajando para Minas Gerais para conhecer e ouvir dona Lucrécia.     

Logo na entrada senti o cheiro bom de comida caseira que vinha do fundo do edifício, embora ainda fosse umas dez horas da manhã. Atravessando a saleta onde registravam as visitas chegava-se a um pátio largo rodeado por pequenos quartos, onde podíamos ver muitos velhinhos. Alguns deitados, outros sentados rezando em grupos, outros, simplesmente caminhando ou ao sol em cadeiras reclinadas. A maioria em silêncio, com o pensamento e o olhar perdido no nada, mergulhados talvez no labirinto de si mesmo.    

No centro, sobre quatro pilares finos e roliços havia uma espécie de quiosque, uma cobertura sem paredes, com diversos bancos e muitas plantas. A temperatura fria do inverno trazia para o ar uma nostalgia e um silêncio pétreo, entrecortado com uma quase imperceptível ladainha que mais parecia um coro de anjos a chamar as almas cansadas. O murmúrio vinha e ia com o vento, como a pulsar lentamente no compasso de um adeus, da mão que levemente se move pra lá e pra cá, numa interminável despedida.    

Emocionava-me aquele não sei o que de saudade estampada no rosto daqueles pobres velhos. Do outro lado, apressadamente, logo veio ter comigo uma velhinha de olhar miúdo e rosto em pergaminho, trazendo uma trouxinha que parecia um lenço amarrado, cheio de moedas que oferecia–me, em troca de levá-la para casa de seu filho. Dizia que estava ali por engano. Só porque esquecera o endereço de sua casa quando saíra da missa. Tudo era um engano e só estava ali porque seu filho não sabia. Certamente ele ficaria muito bravo se a encontrasse naquele lugar. “Quando ele descobrir que estou presa aqui, vão só ver o que vai acontecer... Ele é muito bravo!” “Ele é muito bravo!” Repetia afastando-se, sem esperar pela minha resposta.
   
Lucrécia sorriu quando me viu entrar, como se me conhecesse há anos. Devia ter sido uma mulher muito bonita. Era negra de olhos verdes e aparentava ser bem mais velha do que diziam. Nunca havia se recuperado de uma fratura nos quadrís e não ficava mais em pé sem dor e sem auxílio. Perguntou-me se não havia errado de quarto quando a beijei na testa e me apresentei. Mostrou-me uma cadeira e pediu que sentasse ao lado dela, "do esquerdo, o lado do coração".    

Quando eu disse que tinha vindo de São Paulo para conhecê-la, para conversar com ela, a doce senhora cobriu o rosto com as mãos enrugadas e dedos hesitantes de unhas bem aparadas, simulando timidez, dizendo que teria ao menos penteado a “gafurinha” se soubesse que ia receber visita naquele dia. “O pixaim tem jeito sim senhora”. Falou sorrindo. “Dá trabalho mais tem jeito”. Completou. Baixou os olhos e cruzou os dedos esperando a minha fala. Expliquei que Mariana havia me falado sobre ela e que viera para ouvir tudo que ela pudesse me falar sobre Cruzeiro. Era a minha terra natal e me interessava saber notícias, ouvir histórias. Tudo o que ela pudesse se lembrar.    

De repente acendeu-se uma luz no seu interior. Pareceu-me desapertá-la para a vida. O verde dos seus olhos, agora visto mais de perto, parecia-me mais profundo, mais intenso... como o verde da Serra da Mantiqueira antes de perder-se em azul nas alturas, em linhas onduladas cada vez mais distantes. “Minina... ocê num tem medo de saber das coisa? A gente do exército pode num gostá. Tem verdade que é melhó num sabe.  Acha não?” “A nega veia aqui já ta mais pra lá do que pra cá, num tem perigo de perdê nada. Mai ocê cum esse cabelinho lindo... esse zóio grande, loco de bunito!, pur que se preocupa cum estas coisa?  Ta na idade de namorá,  num de ficar aqui cuma veia que não sabe mais nem andá. Veja só! Veio pra ficá ovindo história de difunto? Cruiz credo! Ria, tentando me dissuadir, quando perguntei sobre como viviam as pessoas na década de 30, de 40. “E sua mãe? D. Quitéria devia ter também, muito pra contar, não Dona Lucrécia?”. É minha fiinha, e como!”... Confirmou, emendando logo uma velha história.    

Lucrécia foi “gente da família” por muito tempo. Filha da ex-escrava Quitéria que vira no princípio da infância os entreveros da abolição. Mais ou menos no cinqüentenário da Proclamação da República trouxe a luz a Lucrécia, em derradeira gravidez, na desesperança de ver realizada a promessa dos republicanos, de regulamentar a situação dos libertos, votando as leis complementares da Lei Áurea. Esses complementos das três quase insignificantes linhas que oficializaram a abolição facilitariam a vida dos libertos, entretanto, nunca foram sequer discutidos, pelo que se sabe.    

A exemplo do que foi oferecido aos emigrantes italianos, esperavam alguns ex-escravos, pelo reconhecimento das décadas de trabalho gratuito dos seus antepassados. Reconhecimento esse, que deveria traduzir-se em pequenas faixas de terra doadas pelo governo. Um mínimo que garantisse a sobrevivência dos descendentes dos africanos seqüestrados e trazidos para o Brasil. Como haviam sido distribuídas terras aos estrangeiros, para os italianos que para cá vieram, muitos esperavam receber um pedaço de chão para sua sobrevivência. Imagine se iam dar terra, semente e ajuda em dinheiro aos pretos! Observava Lucrécia com visível amargura.    

Acho que nunca acreditaram nisso de verdade, mas era preciso ter esperanças, acreditar em alguma coisa para não entrar em desespero, completou. Minha mãe dizia que muitos não acreditavam nem mesmo que estavam livres depois da assinatura da princesa e teimavam em ficar na fazenda, temendo que ao sair fossem mortos, como aconteceu com os “lanceiros negros”. Eles foram para a guerra e lutaram porque iam receber a carta de alforria. Os que voltaram da “Farroupilha” entregaram as armas e depois “passaram fogo neles.” Todo mundo ficou sabendo da traição.    

Quando veio a abolição, depois da festa, no outro dia, muita gente ficou com medo. Muitos morreram sem saber ou sem acreditar que eram livres. Isso no interior, porque na "cidade grande" nem havia quase escravo no dia da abolição. Já viviam livres nas fazendas ou então tinham fugido em turma pros Quilombos. Ninguém conseguia controlar mais não, depois que o exército do Caxias não quis mais sair "catando" nego fugido pelo mato. Só se ouvia falar numa tal de república. Disso se ocupavam os homem.    

O tempo foi passando e nunca receberiam, por bem, qualquer espaço, a não ser aquele pedaço de chão que não se pode negar a ninguém, mas que nem sempre era reservado dentro dos muros de um cemitério. Sem terra, sem casa, sem trabalho, lembrava com emoção os olhos avermelhados de choro mal disfarçado de sua mãe, referindo-se a humilhação pela qual se viu obrigada a passar, a pobre  dona Quitéria, com Lucrécia recém-nascida nos braços, a bater em retirada, expulsa do sítio estéril onde vivia de favor, para pedir trabalho em casa do Sinhô, do detestável “Coronel” seu antigo dono. “Minha mãe teve de vorta e por isso foi morrendo aos pouquinhos”, falava com a voz embargada, com meios soluços, dona Lucrécia.    

Assim Lucrécia acabou vivendo durante muitos e longos anos, como “gente da família”, trabalhando em período integral, sem salário, sem estudo, sem informação. Recebendo apenas um vestido de chita como presente de natal, no final do ano, e às vezes, um relógio velho, um broche usado, um frasco de perfume rejeitado pela patroa, a dona-madrinha. “Gente da família” foram pessoas agregadas aos mais afortunados que em troca de cama e comida, de uma discutível proteção, incondicionalmente, serviam a família que a adotara até a morte, na maioria das vezes. Lucrécia sabia que dona Quitéria suportaria tudo por ela, a “rapa do tacho”, como sempre dizia. Agüentaria fosse o que fosse pra menina não “passar falta”, em troca de sua sobrevivência. De bom grado, aceitou até morrer naquela espécie de escravidão disfarçada, sem tronco, sem pelourinho; mas, “com casa grande e senzala”.             

Já estava “madura” quando enterrou D. Quitéria em idade muito avançada. Logo depois de morrer também a matriarca da família do Coronel, filha e marido resolveram mudar para a cidade de Guaratinguetá. Lucrécia não iria. Não queria morrer como sua mãe, sempre debaixo dos saltos das “madamas”. Na véspera da mudança, fugiu. Esteve perambulando pela estação fingindo esperar o trem. Dormiu num vagão de carga durante dias. Depois procurou abrigo nas casas da rua um, mas não queria aquela vida de “dama”, obrigada a sair escondida atrás da lona nas charretes. Não tinha nascido para “aquilo”. Preferiu dormir no relento, bebeu água da bica e chorou desesperada ao pé do Cruzeiro, na Santa Cruz. Ouvia a missa de longe. Um dia, sozinha e faminta, quando pensava em se jogar no Rio Paraíba, conheceu um velho ferroviário que lhe pagou o banho e o almoço.    

Ele vinha a Cruzeiro uma vez por mês e ficava na cidade durante uns dias. Trazia muita “comida” que depois ela descobriu, era tirada da cooperativa dos empregado da ferrovia. Trazia também, não sabia de onde, alguma roupa e ainda deixava umas “patacas” pro gasto. Com o tempo o velho deu de beber e antes de ir embora, sempre arranjava um jeito de desfechar-lhe uma surra. Urrava cheio de ódio por coisa nenhuma, ameaçando-a de morte se sumisse e não estivesse bem ali quando ele voltasse. Com certeza ele a acharia. Com aquelas “belas ancas e olhos verdes”, com pouco dinheiro? Ele iria de estação a estação até encontrá-la e então, acertariam as contas. Gritava em suas orelhas exalando o cheiro de cachaça curtida. Sentia náuseas, nojo, passava mal e depois, quando ele ia embora, se curava com bálsamo em água benta, pedindo perdão a “Jisuis” por deitar com aquele asqueroso na “tarimba”.     “Mais como havéra de sê? Hai de suportar pra num morre de fome e na rua”. “Ciúme besta. Nunca deixo eu gostá dele. Depois das bebedera, aí não dava memo. “Mai eu era agradecida dele cuidá de mim, coitado.” ”Mais isso já passô faiz muito tempo, doninha. “Bendita seja minha mãe, N.S. Aparecida e São Binidito que me valha.” “O ixcumungado deve de te se perdido nus inferno. Cruz em credo”.

Benzeu-se fazendo uma pequena cruz sobre a boca com o polegar direito. Contou ainda que uma vez se viu grávida. Não hesitou em fazer uma garrafada com “erva de escrava”. Não repetiria o nome sem “precisão” porque dava “azar”. Não deixaria nascer o “filho do cão”, “o coisa ruim” para estragar a vida dos outros. Filho de quem era não podia “dar em boa coisa”, se justificou. “Mais foi só essa vez, num aconteceu outra”.    

Pobre dona Lucrécia. Completava a confissão dizendo que por isso não podia reclamar de viver ali, sozinha. Se tivesse tido o filho, não teria ninguém do lado dela do mesmo jeito. “Num viu essas coitadas que vive aqui, muitas têm família e ficaram birutas esperano que os filho viessem buscar”. “Isso é com Deus, vivê sozinha. É uma cruz que eu tenho que carregá e pronto. “Mais ocê num veio de tão longe só pra escuta história da vida da Lucrécia, num é? O que que ocê qué sabê memo?”  “Eu fiquei falano de otras coisa e acabei esqueceno” . “Da cidade de Cruzeiro”... “Ah é! Eu vô contá tudinho que eu sei. Mas antes, faiz um favo, me dá um pouco d'água da moringa?” Falou pegando a caneca de louça no criado mudo e estendeu em minha direção, dizendo que estava abusando de mim. Onde já se viu? A Lucrécia que sempre serviu... veja só que “moda”, que luxo! Falou sorrindo.    

Embora não movesse as pernas e tivesse há muito tempo deitada, falava com relativa desenvoltura, fazendo uma pausa de vez em quando, parecendo descansar e tomar fôlego. Já tinha ouvido de Marina aquela história, mas, para conferir sua lucidez deixei que falasse o quanto queria. Não havia dúvida que sofrera muito durante a vida. Isso estava gravado em sua fisionomia. Fiquei pensando nas incontáveis Lucrécias solitárias do pós-libertação. Nas inúmeras Quitérias. E emocionada, via-me um pouco Lucrécia, um pouco Quitéria. Lembrava algumas amigas ... acabava por entender que todas as mulheres, exatamente todas têm seus dias de Quitéria e de Lucrécia.    

Descansei a moringa sobre o pires. Ela bebeu a água lentamente e ficou em silêncio, como se buscasse longe, no fundo da memória um arquivo quase perdido. Estava séria, concentrada, quando voltou a falar. Da cidade de Cruzeiro havia guardado muitas histórias. Mas me prevenia de que depois, eu deveria procurar a ordem correta dos fatos porque não recordava com precisão as datas.    

Começou pelo Major. Disse-me que falavam sobre ele na casa da filha do Coronel. Tinha ouvido dizer que ele foi jurado de morte no “Jataí”, do outro lado do rio, hoje bairro do Itagaçaba. Ele não podia atravessar o Rio Paraíba. Se passasse da metade do Rio para o lado de lá seria morto. Afundariam o barco ou tomariam qualquer outra providência pra que ele não voltasse vivo, só não se lembrava porque. “Mais devia de se porque ele era bonzinho igual qualqué mandão daquele tempo, né memo?” Completou rindo.    

Falou sobre muitas pessoas. E riu muito ao lembrar do menino levado o Assuero, Suerinho na sua pronúncia, que acabou músico. Era muito levado mesmo tornou-se um boêmio e sempre era confundido com meu pai. Eu mesma já ouvira aquela história. Mães amigas que tiveram o filho na mesma semana e resolveram dar a seus filhos o mesmo nome. Diferente de todos os nomes que ouviram na região. Quando falassem deles seria fácil identificá-los. Saberiam sempre onde “andavam”.  Escolheram um nome na bíblia. Bem diferente: Assuero. E chegando a uma decisão conjunta, assim batizaram os meninos. Eram os dois únicos na cidade.    

No entanto, não contavam com o que iria ocorrer depois. Não puderam supor que um seria o posto do outro.  Eram dois extremos.  Para o mais sério isso acabou representando grandes problemas. Trouxe muitas complicações. Para as famílias, trabalho dobrado. Um brigava lá iam as duas mães. Um bebia lá iam os dois pais, e assim por diante, da infância a adolescência até a idade adulta, quando definiram-se finalmente os hábitos e assentaram-se as personalidades. Mas ainda assim os dois seriam sistematicamente confundidos.    

Durante muito tempo isso causou toda a sorte de mal entendidos. Um seria homenageado mas o convite da cerimônia foi entregue na casa do outro que compareceu na solenidade causando o maior desconserto. E assim por diante, repetiu-se a confusão inúmeras vezes, durante muitos e muitos anos. Até a correspondência era entregue muitas vezes, em mãos trocadas. Boletins escolares, resultado de concursos, etc. O entregador do alfaiate então, coitado! Nunca acertava.    

Lucrécia ria da confusão e chamava um de “Suerinho, seu pai”, referindo-se ao outro como “Suerinho da Premiada”. Imagine que encrenca com as namoradas! E tinha gente que gostava de complicar a vida dos dois, abusando com aviso falso de um estar com tal pessoa e quando ia-se conferir era sempre o outro Suerinho. Lucrécia divertia-se contando passagens da histórias que não raro causavam transtornos aos dois. De repente, os comentários terminavam sempre assim: Não sei. Aconteceu com um dos dois, qual deles eu não sei, mas que foi com um Suero, isso foi. Nunca soube o que acontecera ao outro que não conheci. Disse a ela enquanto ria.    

Agora Lucrécia voltava a ficar séria para fazer-me uma importante revelação. As mulheres daquela época eram “de amargar”. Você precisava ver o que elas fizeram! Atrasaram o pagamento dos funcionários da ferrovia. Quando completou oito meses sem que ninguém tivesse recebido um tostão, as esposas, mulheres dos operários juntaram-se a eles e decidiram acampar sobre os trilhos. Os trens não podiam sair nem chegar. Aos poucos foram se juntando ao movimento todas as mulheres da cidade, em solidariedade as que estavam passando dificuldades. Mulheres de todas as idades e classes sociais com panelas e colheres nas mãos protestavam contra o descaso, a indiferença dos patrões. Deu-se afinal o chamado “panelaço”.  

Com faixas colocadas em pontos estratégicos, diziam com muito barulho e em letras vermelhas, que “a luta era contra a fome e a miséria”.   O piquete promovido pelas mulheres dos ferroviários tinha como objetivo auxiliar os maridos, parando a locomotiva 437 impedindo-a de seguir viagem esfriando sua caldeira. A ousadia das esposas não parou ao tomar a Estrada de Ferro, acabaram fazendo de dormitório os vagões vazios da composição. Diziam que não sairiam dos trilhos enquanto não recebessem todos os atrasados. Levaram as crianças e se ajeitaram como puderam.  

A corrupção e os desvios, os super salários e o alto custo da estadia dos Engenheiros em Cruzeiro, somando-se a má administração dos recursos aos volumosos empréstimos contraídos pela empresa; os desmandos e incompetências e toda a sorte de abusos haviam provocado a má situação financeira que parecia irreversível. Diante disso, as mulheres corajosamente optaram pela greve, pelo piquete.  

Num dia combinado elas saíram batendo as colheres nas panelas, fazendo um barulho ensurdecedor. Chegaram na linha e tomaram conta do espaço. Estava na hora de passar a Maria Fumaça que apelidaram de Joana. As mulheres ficaram na linha, o trem vinham apitando, em vez de afastarem, elas iam de encontro sem medo, sem arredar o pé. O maquinista foi obrigado a parar. Chamaram a polícia para desobstruir a passagem, mas quando os soldados chegaram com suas baionetas em vez de retirarem-se, as mulheres corajosamente foram de encontro a eles, num enfrentamento obstinado. Desconcertados, não tiveram coragem de tirar. As crianças, muitas crianças, estavam também participando da manifestação. Os soldados desarmados bateram em retirada.  

Chamaram os padres que chegaram com o objetivo de enfraquecer as mulheres, tentar convencê-las a saírem da ferrovia. Para sensibilizá-las fizeram primeiro ameaças e como não obtivessem resultado positivo, empenharam-se em longas orações, ladainhas e lamentações. Mais orações. Sermões e mais sermões, longos discursos que buscavam uma retomada de decisão. Falaram, explicaram e rezaram. Rezaram e rezaram durante horas e nada, não conseguiu vitória no seu intento. Pediram, imploraram, mas as mulheres recusaram-se a sair.  

Então veio o delegado Manoel Barulho, vereador e ferroviário. Diziam que era muito bravo e que não tinha nenhuma paciência. Ele chegou com um ultimato, gritando, dizendo que iriam todas “mofar na cadeia”, tentando intimidá-las. Queria que saíssem e deixassem apenas os homens na "linha do trem". Falava enquanto os soldados ficaram de longe ouvindo e aguardando. Elas sabiam que se saíssem não poupariam os homens. Mas, os gritos do delegado não foram o suficiente para intimidá-las. Ele não obteve êxito. Acabou expulso a pontapés. Nada que tentassem poderia fazê-las desistir da luta.  

Nesse tempo, o movimento de passageiros na estação e no município, era muito grande, fazendo com que na cidade se desenvolvesse o comércio e as artes. Viajantes que chegava de São Paulo e do Rio de Janeiro paravam em Cruzeiro para seguirem rumo a Minas Gerais e vice-versa. E os trens carregavam além de passageiros, muito minério e café.  

A cooperativa formada pelos funcionários ferroviários estocava alimentos para a distribuição, no gigantesco armazém da Rede Mineira. Com o tempo, os operários começaram a perceber que estavam sumindo os alimentos, vigiaram dia e noite e acabaram descobrindo os ladrões. Acusaram de roubo a administração da ferrovia. Aí a “coisa ferveu” de verdade. Mas o sindicato era forte e exigia os direitos, sem medo. Nesse tempo eles "não faziam política", lutavam de verdade pelo trabalhador. 

Com os salários atrasados e tanta desorganização, além de nenhuma perspectiva de receber o pagamento, deflagraram a greve a partir da cidade de Cruzeiro. Com a paralisação, o movimento grevista acabou se estendendo para outras estações/entroncamento no Estado de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Contudo, não terminaria vitorioso se não fosse a coragem, a persistência das grandes mulheres dos operários.  

Lucrécia aguçou a minha curiosidade quando falou sobre a menina que durante toda a noite e madrugada adentro levava recado das mulheres da cidade para as mulheres grevistas, e vice versa. Todos os habitantes da cidade e da região terminaram participando da greve, em solidariedade, engrossando ainda mais o batalhão das manifestantes, graças a “Julieta”.  

A menina podia ter uns nove anos de idade. Ela cumpria seu papel sem medo. Pequena, “miudinha”, podia andar de um lado para outro pela madrugada, sem ser vista, articulando as grevistas de Cruzeiro com as de outras estações e vice-versa, levando e trazendo informações dos trilhos ao telégrafo da Estação. Teve muita coragem e muito trabalho a pequena. Logo pela manhã chegou a notícia de que a paralisação atingia a todas as grandes estações de Minas, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Onde trabalhavam aqueles que estavam com os salários atrasados.  

Quem seria essa pequena heroína de quem não lembrava o sobrenome? Gostaria de poder identificá-la. Teria casado e se submetido a autoridade do marido como era comum na época? Teria encontrado em Cruzeiro um homem corajoso de personalidade forte a altura de sua dignidade e heroísmo precoce? O mais provável é que tenha ficado solteira. Os homens temem e se afastam de mulheres sábias e corajosas.  

Parei para considerar a questão. Ela nada mais me dizia. Nenhuma pista que pudesse seguir para encontrar “Julieta”. Disse-me apenas que, se eu fosse um Romeu poderia localizá-la com facilidade. Terminara sorrindo. Na verdade, eu era apenas um soldado que há muito tempo atrás perdeu o seu batalhão e que agora, apenas esperava a aposentadoria para poder voltar a viver em minha terra, talvez criar meus filhos ao abrigo da magnífica Serra da Mantiqueira que, às vezes, como minhas lembranças, parecia tão próxima e de repente diluía-se nas nuvens que a roubavam do meu zelo.  

Após o almoço, Lucrécia falou ainda sobre a coragem dos comunistas quando reunidos acabaram com o comício dos fascistas, na praça velha de Cruzeiro. Munidos de pedaços de pau e muitas pedras expulsaram o grupo que tentava enganar a população com discursos mentirosos. A praça virou um campo de guerra; mas, eles, os fascistas, gente rica que queria só o poder, não tinham a força da verdade, disse-me sorrindo, logo foram vencidos pelos comunistas.

Diziam que eles queriam enganar a população e que entraram na cidade a mando de gente nazista, veja só! Começavam a falar do “anjo do mau”, por todo canto. Nunca soube se isso era mesmo verdade, mas que sobrou muita “paulada e pedrada” pra todo lado, no tal comício, isso sobrou. Pra você ver como Cruzeiro foi importante: “virava e mexia, o pau comia”. Não tinha meio termo não. Só não sei o ano que aconteceu isso, mas que aconteceu, aconteceu, posso garantir. Os comunistas botaram todo mundo pra correr. Tinha que ver!  

Ia meu pensamento tentando definir o tempo daquele episódio quando notei que Lucrécia, aos poucos, apagava o verde dos seus olhos. Vencida, adormeceu. Era o cochilo da tarde, explicava-me a enfermeira que lhe trouxe um comprimido. Sorriu pedindo desculpas aconselhando-me a voltar no outro dia. “Ela só vai acordar na hora da canja”. Explicou-me.  

Apressei-me a sair em seguida, deixando um beijinho de leve na testa de Lucrécia. Onde estaria ela agora? Devia ter poupado a pobre mulher. Talvez tivesse forçado sua memória ou quem sabe a tivesse exaurido nas recordações hilariantes que fiz brotar. Que descansasse com os anjos. Bem merecia depois de tanta vida em solidão e sofrimentos diversos. Jamais conheceria sua dor e suas angustias por inteiro. O infortúnio, talvez providencial que a levara finalmente ao leito, ao abrigo e proteção daquele asilo.  

Olhando para ela do lado de fora do quarto assim, adormecia. Lembrava seus modos, era como as “vovós” de doces histórias infantis. Mais brilhante em seus modos de senhora do que muitas da elite. Doce Lucrécia! Teria despertado muitas paixões, certamente.

No dia seguinte...

Voltei ao asilo nas primeiras horas da manhã e, novamente, sentei-me ao lado dela, assim que permitiram a minha entrada. Ela parecia bem. Mais docemente negra que no dia anterior, vestida como um anjo e coberta com uma colcha leve, branca, impecável. Estava recostada e observava de longe as flores que surgiam miúdas nas plantas dos vasos do quiosque, explicou-me quando eu cheguei. Os sininhos vermelhos são um chamariz de beija-flores. Disse-me sussurrando como a revelar-me um segredo, como se tivesse a poupá-los do susto, como se pudessem ouví-la.  

Disse-me que todos os dias ficava horas a observá-los com carinho, depois do banho e do café da manhã. A cama bem em frente a porta, proporcionava-lhe o prazer de observar o crescimento, a modificação das plantas e as visitas dos pássaros e borboletas. Não tardaria a entrar JB, prevenia-me. Um homem pequeno, de baixa estatura de olhos vivos e uma memória impecável, que vinha todos as manhãs trazer a Lucrécia as notícias que ouvira no rádio. Depois lhe oferecia a declamação de uma poesia, sempre dois títulos para sua escolha. Declamava com emoção, dramaticamente, se fosse o caso, encenando as colocações como faria em um palco de teatro. Joaquim Silvério Brasileiro, dizia orgulhoso ao terminar... “Poeta e amigo verdadeiro... a seu dispor”. Estendendo a mão para cumprimentar.  

Lucrécia me dizia que ele ocupava-se em declamar para todos os que apreciavam poesia ou requisitavam sua presença. Ia de quarto em quarto, rigorosamente no mesmo horário, todos os dias, visitando um por um dos moradores do asilo. Há bem pouco tempo havia chegado e já se fizera logo conhecido de todos dali. Popular, querido e respeitado contava em versos seus amores, venturas e desventuras. E por motivo algum se intimidava, mostrando familiaridade com as artes cênicas, da qual viveu durante muitos anos de sua vida. Trouxera um vasto acervo na memória e dizia orgulhoso ser essa, uma herança que jamais ninguém lhe roubaria. Patrimônio guardado em seu coração, em sua cabeça. Riqueza única que levaria consigo para a eternidade. Jamais seria solitário porque era um, com todos os seus versos, seus filhos inseparáveis. Falou solenemente, sorrindo.  

Ouvíamos agora a longa recitação sem constrangimento. Esperava, que Joaquim Brasileiro o JB, finalizasse para dirigir-me a Lucrécia que durante a recitação havia me segredado, quando o poeta pronunciara a palavra luz, dizendo-me discretamente: “É sobre isso que vou lhe falar. Se eu esquecer me lembre: "Luz”. Em meio a declamação, no calor da emoção dos versos, Joaquim Brasileiro nada pode perceber daquele segundo de distração. Já não podia ouví-lo. 

Aguçada a curiosidade pensava sobre o que poderia dizer-me Lucrécia que se referisse a história de Cruzeiro, relacionado a palavra “luz"? Procurava e não encontrava absolutamente nada. A curiosidade agora fazia-me inquieta e mal esperava o desfecho do “Amor Sublime” de JB, interpretado com muita dramaticidade, contra luz do sol que entrava pela porta.  

A silhueta do velho criava estranha figura a mover-se contra o sol. A claridade que vinha de fora o envolvia definindo seu contorno. Seria a mesma luz a qual se referia Lucrécia? Uma sombra envolvida em claridade talvez uma visão fantasmagórica? Um episódio desenrolado assim... Voltei a ouví-lo quando Lucrécia aplaudia levemente, com as mãos em concha, sem ruído e Joaquim agradecia envaidecido com a nossa atenção. Perguntou se podia declamar mais um breve poema. Olhei para o verde dos olhos de Lucrécia a pedir socorro angustiada, ao que ela acudiu respondendo por mim.  

Joaquim Brasileiro agora explicava tirando um papel do bolso e ajeitando os óculos, que além dos seus “rebentos” guardava também muitos outros, filhos adotivos, como os que escreveu o Dr. “Quer ouvir?” Perguntou. E sem esperar pela resposta, ajeitando o colarinho da camisa, começou a declamar.  

Pobre velha Maria...
não reze para o deus inclemente que frustrou suas esperanças,
sua vida inteira,
não peça clemência na sua morte,
sua vida foi horrivelmente coberta de fome
e termina coberta pela asma.
Mas eu lhe quero anunciar,
numa voz baixa viril de esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças.
Quero jurá-la na exata dimensão de meus ideais.
Pegue esta mão de homem que parece a de um menino entre as suas,
polidas pelo sabão amarelo,
esfregue os calos duros
e os nós puros na suave vingança de minhas mãos de médico.
Descanse em paz, Maria, descanse em paz,
velha lutadora,
seus netos viverão todos para ver a alvorada.  

O velho, ao final, olhava fixamente em direção ao céu. Permaneceu assim alguns segundos, em silêncio. Da soleira da porta, com o braço erguido e mão aberta, voltou a olhar em nossa direção declarando solenemente, completando: ... “Dr. Ernesto Guevara” - Homenagem à sua paciente, que morreu vítima de asfixia da asma e do descaso social. Dizendo isso, entregou-me o papel, virou-se e saiu, mergulhando na claridade, tentando guardar o óculos no bolso da camisa.  

Dona Lucrécia sorrindo explicou que o verso ele havia tirado de uma revista numa de suas saídas para consulta médica. Joaquim Brasileiro era asmático e o poema de Guevara acabara em suas mãos e ele o declamava como se fora escrito para ele. “Sem querê, a gente sempre atrai o que parece com a gente, já viu?” JB era um parnasiano e declamava poucos versos livres como aquele. Certamente nada lhe teria despertado se não fosse asmático também.  

Não se conformava com a falta de rimas dos poemas modernos e morreria conservador. Mas aquele poema era especial era do Dr. Ernesto, condecorado pelo presidente Jânio Quadros em 1961, com a mais alta comenda brasileira, a “Ordem do Cruzeiro do Sul”, e além do mais, falava de um problema de saúde que também era o dele. Motivo mais do que suficiente para justificar a exceção. No mais, poderia ter havido uma modificação, já que havia sido traduzido para o português. Como “a bíblia”, ninguém pode garantir que o original seja assim mesmo, mas não seria ele a emendar-lhe ou arranjar-lhe a métrica. Isso seria um desrespeito com o autor, alguém tão importante.  

Dona Lucrécia, finalmente voltou-se para mim querendo saber do que iríamos falar naquela manhã. “Ah, sim! Luz... é verdade". "Quero falar de um funcionário da Light”, explicou. O nome dele era Hermogênio da Silva Fernandes, casado com Julieta da Silva Fernandes, tinham uns cinco ou seis filhos quando foram morar em Cruzeiro. Na época, dona Lucrécia devia ter mais ou menos um 17 ou 18 anos. Calculo, pelo que me disse, que devia ser por volta de 1913 ou 14. Lembrava que falavam na Guerra. Provavelmente a 1ª Guerra Mundial.  

Hermogênio era um homem muito inteligente. Logo fez muitos amigos. Diziam que ele era “Anarquista”, isso não quer dizer que ele gostasse de desordem confusão, você sabe. Explicou-me. Anarquista era aquela gente que acreditava que no mundo não devia ter um governo; que estava errado um homem governar todos os outros. Se todos tivessem responsabilidade e fizessem a sua parte, ninguém precisava mandar em ninguém. Não precisava nem mesmo ter soldado, nem Guarda Nacional, nem Exército, nem Guerras.

Bem, na verdade se Hermogênio tinha sido anarquista, em Cruzeiro deixou de ser. Passou a ser Comunista. Cruzeiro era uma cidade de Comunistas, Oswaldo Aranha a chamou de Moscouzinha quando passou por Cruzeiro de trem, em companhia de Getúlio Vargas. 

Quase todos empregados da ferrovia eram Comunistas: José Mendes, Sebastião da Luz e Tião Monteiro; o Joaquim, o Antonio Luiz e o José de Barros; o Argentino Pisão, o Crisóstemo, o Juca Leal e muitos outros que já não  lembrava os nomes.  

Fiquei surpresa. Então o marido da Tia Iracema, Irmã da minha avó, era Comunista? “Era sim”. Por isso mudou-se para Petrópolis. A maioria deles foi embora para o Rio de Janeiro, se ficassem seriam mortos. Lucrécia lembrou de alguns outros nomes no decorrer da conversa e todos de uma forma ou de outra eram conhecidos ou ligados a minha família, como parentes ou amigos. 

Esse grupo acabou fundando o Partido Comunista em Cruzeiro. A cidade era conhecida pela tradição de luta. Num tempo onde os donos das fazendas ficaram contrariados com o governo, diziam que Cruzeiro havia se emancipado com outras cidades do Vale do Paraíba, de Guaratinguetá até Queluz, pra mais tarde, tornarem a pertencer a São Paulo novamente. Como sempre a situação acabava “fervendo” em Cruzeiro, no entroncamento com o Estado de Minas Gerais e muito próxima da divisa com o Rio de Janeiro, a Capital e sede do poder. As coisas mais sérias sempre aconteciam no Rio, em São Paulo e no Sul de Minas. As agitações populares eram organizadas por sindicatos e associações. A União 1º de Maio, por exemplo, além de suas atividades diárias, promovia passeata nesse dia. Os associados levavam  bandeiras vermelhas e desfilavam por toda a cidade de Cruzeiro cantando hinos.  

Havia também a Associação 23 de Agosto, que funcionava numa casa em frente a entrada da Rede Ferroviária. Lá existia uma grande biblioteca visitada por muita gente importante da região e das capitais. Eram feitas palestras, conferências, era um lugar onde as famílias se encontravam. Aprendiam muito. Ensinavam. Além disso, tinha o Partido Comunista, mas lá, só freqüentavam os filiados e o Socorro Vermelho que ninguém conhecia os componentes. Eles ajudavam as famílias quando os filiados eram presos.  

Assim, com um grande movimento na ferrovia, crescia a cidade e a população, desenvolvendo o comércio e a indústria quase de um dia para o outro. Em Cruzeiro estiveram muitos mestres brasileiros e do exterior. Funcionava como uma grande escola. Tinham restado na região algumas fazendas de café e outras com criação de gado. Funcionavam no município a torrefação de café, processamento de açúcar, um frigorífico, uma indústria de laticínios, a fábrica de vagões e ainda as oficinas da Ferrovia além de outras empresas menores. O movimento era muito grande.

Hermogênio e seus companheiros comunistas estiveram envolvidos em pelo menos quatro das manifestações dos operários. Uma delas o “panelaço”, da qual falamos ontem. Reivindicavam melhores condições de trabalho, diminuição da jornada para oito horas, entre outras coisas. Havia também muitos adversários dos comunistas porque eles não batizavam os filhos, não assistiam missa. As “baratinhas da igreja” não se davam com eles.  

Lucrécia era criança, com uns sete ou oito anos quando uma noite apagou toda a luz da cidade. Fomos dormir no escuro. Passado muito tempo, ouvi comentários que tinha sido a esposa do Hermogênio e um amigo dele que haviam desligado a luz de Cruzeiro, Cachoeira, Lavrinhas e outras cidades vizinhas, para obrigar o delegado a soltar o Hermogênio que estava preso junto com seus companheiros. Só ele sabia como ligar e fazer acender a luz das cidades. Eles sempre eram presos. Os soldados do exército vinham de Lorena buscar os comunistas. Não demorava muito eles estavam de volta. Diziam que davam liberdade a eles quando queriam descobrir alguma coisa. Soltos sempre era mais fácil descobrir o que queriam. “A polícia não dava folga pros coitados”.  

Um dia, a esposa do Hermogênio morreu.  Depois da Revolução de 32. Dizem que foi fazer mais um aborto e acabou complicando. Tudo era feito com parteira e ninguém entendia o que podia ter acontecido com Julieta Fernandes.  Morreu muito moça. Não era a primeira vez, que “parava” uma gravidez, mas acabou não agüentando.

Dizia que era melhor não ter o filho do que ter e não poder sustentar. Lembro que estavam falando dela na cozinha quando eu entrei. Fiquei atrás do “guarda comida” mas, pude ouvir o que diziam. “Eu era muito criança nessa época, não participava das conversas, mas ouvia sempre tudo escondida”. “Ficava de castigo depois de apanhar uma surra com vara de marmelo, quando me descobriam. Veja só! Hoje você está aqui ouvindo o que eu escutei escondida!”. “Viu só como são as coisas?”. Acrescentou Lucrécia sentido-se justificada.  

Sendo tão vivas suas lembranças, podia ser que recordasse alguma coisa da revolução de 32. Não perderia a oportunidade de saber. Mas, o que ela pôde me dizer seria o que já ouvira de minha mãe. Quando começou a confusão saímos de Cruzeiro. Diziam que era perigoso ficar, não só pelos tiros mas, pelos soldados. Eles sabiam que ali moravam muitos comunistas e não gostavam deles.  

Todos ficavam muito apavorados porque diziam que os soldados invadiam as casas e abusavam das moças, comiam tudo que havia na dispensa, mechiam nos guardados, deitavam nas camas sem tomar banho. Estavam sempre bêbedos. Depois colocavam a culpa nos comunistas. "Diziam que na guerra, não sei onde, eles comiam carne de gente morta pra não morrer de fome, essa história acabou fazendo a má fama dos comunistas". "Saíram falando que eles comiam criança, veja se pode?" Cruzeiro era "cheio" de comunista e nunca soube de ninguém "cumido" por eles. "O Dr. Diogo Bastos, que foi escolhido pra tomar conta da cidade quando os comunistas foram embora, sabe que isso de comer criança é mentira!"

"Mas a gente estava falando da guerra né? Nunca soube se os soldados do exército faziam tudo aquilo mesmo. Ninguém ficou pra conferir. A cidade esvaziou. O povo fugia de qualquer jeito, tava todo mundo muito assustado. Saímos no primeiro trem, para o Rio e Janeiro e só voltamos quando tudo estava terminado". "A única coisa que me lembro é do aviãozinho voando muito baixo, as pessoas chamavam de vermelhinho. Quem estava na rua deitava no chão, na sombra, porque eles matavam qualquer um. Jogavam bombas lá de cima. Parecia de brinquedo, mas quando a bomba caia, Deus me livre, acabava com tudo".

"Diziam que os soldados abriam valas de muitos metros e jogavam os mortos lá dentro; os que estavam muito machucados e ainda vivos também eram jogados lá dentro". Depois eles cobriam com a terra por cima pra não “dar” mal cheiro. Muita gente viva acabou morreu lá dentro, com certeza. Ninguém podia chegar perto porque os soldados atiravam e jogavam lá dentro também. O Exército nunca falou sobre o “número certo” de mortos.  

Como pode dona Lucrécia guardar tantas informações assim? Afinal, era tão criança, tão pequenina. Na verdade, ouvira essas e muitas outras histórias, com mais ou menos detalhes, inúmeras vezes de sua mãe, dona Quitéria e o que lembrava por si mesma, não poderia esquecer pela aventura de ter ficado escondida, às vezes durante horas, até poder sair do esconderijo, atrás do guarda-comidas, para não ser vista. Fiquei pensando que idade teria quando conheceu o “velho ferroviário”. Ela não sabia dizer ao certo, mas devia ser muito moça, praticamente menina ainda.  

Agora eu precisava ir. Teria que voltar para São Paulo, mas antes, pretendia ver minha família que já estava morando novamente em Cruzeiro. Despedi-me de D. Lucrécia prometendo logo voltar para ouvir mais histórias, sem saber que não mais a veria. Dias depois eu recebia no escritório, em São Paulo, a notícia de sua morte. Falência múltipla dos órgãos. Pobre Lucrécia...  lembraria dela para sempre.  

Naquela última visita ao asilo, antes de sair pelos portões voltei ao quarto com a última pergunta: “Dona Lucrécia, me desculpe, mas gostaria de saber por que não falou de seu pai? A senhora o conheceu?” “Não, não conheci". Ele já estava muito doente quando eu nasci. O nome dele era Joaquim. Minha mãe me dizia que ele era “almotacéu". Jogou-me um beijo e acenou um adeus.

Nunca pensei que ouviria isso de alguém. "Almotacéu" era uma espécie de fiscal com múltiplas atribuições. Fiscalizava desde os pesos e medidas a higiene nas casas comerciais. Limpeza das ruas e fossas. Limites de construções e livros fiscais. Cuidava até mesmo de conferir pagamentos de impostos e opinava nas mais diversas contendas entre vizinhos, nas cidades coloniais. 

                                                                             Naida Cortez
Álbum de Fotos

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