| Um tanto de Prosa e de Versos
Um tanto de Prosa
- O Medo causado pela Inteligência -
Vingança - Como a água reflete
nossos sentimentos Clique Aqui!
Um tanto de Versos
- Fernando Pessoa . Solano Trindade . Eliane Potiguara
Abrimos este espaço com os versos de grandes poetas "Fernando Pessoa", o maior poeta da lingua portuguêsa;"Solando Trindade" o primeiro poeta da coletividade negra brasileira e Eliane Potiguara uma escritora indígena.
Oferecemos ao leitor a excelência de seus versos:
.........................................................
Poema em linha reta
Fernando
Pessoa
(Álvaro de
Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Sobre a vida do poeta:
- 1888: Nasce Fernando Antônio
Nogueira Pessoa, em Lisboa.
- 1893: Perde o pai.
- 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban,
África do Sul.
- 1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no
exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.
- 1905: Regressa sozinho a Lisboa.
- 1912: Estréia na Revista Águia.
- 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.
- 1918/1921: Publicação dos English Poems.
- 1925: Morre a mãe do poeta.
- 1934: Publica Mensagem.
- 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.
Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram
extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José
Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 418
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Linda Negra
Solano
Trindade -"Cantares ao Meu Povo"
Naquela noite
ficou o teu olhar branco
vagando no escuro
entre ternura e medo
teus olhos grandes
dançavam como loucos
na música do silêncio
Eu era animal e poeta
a procurar em ti
o que perdi em outra
Linda negra.
Solano, vento forte da
África"
De todos os escritores
negros, ligados à coletividade negra brasileira, o que deixou presença mais
forte foi Solano Trindade. Foi o primeiro a escrever, com especificidade, para
negros, naquele tempo. Pagou o preço disso, e como!
Solano Trindade era poeta,
pintor, teatrólogo, ator e folclorista. Nasceu no dia 24 de julho de 1908, no
bairro de São José, no Recife, capital de Pernambuco. Era filho de Manuel
Abílio, mestiço, sapateiro, e da quituteira Merença (Emerenciana). Estudou até
completar um ano de desenho no Liceu de Artes e Ofício. A partir de então,
começa a escrever.
Solano
Trindade foi o poeta da resistência negra por excelência
Sua "carreira"
como militante inicia-se, de fato, a partir de 1930, quando começa a compor
poemas afro-brasileiros e, já integrado nesta corrente, participa em 1934 do I
e II Congresso Afro-Brasileiro, no Recife e Salvador. Em 1936 fundou a Frente
Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-brasileiro, que tinha o objetivo
de divulgar os intelectuais e artistas negros.
Em 1940 transfere-se para
Belo Horizonte. Depois chega ao Rio Grande do Sul, fixando-se por um tempo em
Pelotas, onde funda com o poeta Balduíno de Oliveira um grupo de arte popular.
Esta foi sua primeira tentativa de criar um teatro do povo, o que não se
concretizou devido à enchente de 1941, que carregou todo o material. Voltou
então para Recife, indo logo depois para o Rio, onde no "Café
Vermelhinho", detém-se a discutir e a conversar com jovens poetas e
intelectuais, artistas de teatro, políticos e jornalistas. Ali fez sucesso.
Em 1944, edita o livro
"Poemas de uma vida simples", onde se encontra o seu declamadíssimo
"Trem sujo da Leopoldina". Em 1945 funda o Comitê Democrático
Afro-brasileirom, com Raimundo Souza Dantas, Aladir Custódio e Corsino de
Brito.
Em 1954 está em São Paulo,
criando na cidade de Embu, um pólo de cultura e tradições afro-americanas. Em
São Paulo também funda o Teatro Popular Brasileiro – TPB, onde desenvolveu uma
intensa atividade cultural voltada para o folclore e para a denúncia do
racismo. Em 1955 viaja para a Europa, com o TPB, onde dá espetáculos de canto e
dança. Em 1958 edita "Seis tempos de poesia"; em 1961, "Cantares
ao meu povo" (com uma reunião de poemas anteriores).
Solano Trindade faleceu no
Rio de janeiro, em 19 de fevereiro de 1974. Sua obra, não! Continuará
eternamente viva, como que escrita com brasas na pele escura de todo
afrodescendente, mesmo que não queira, mesmo que não saiba...
Fonte: www.portalafro.com.br - 23.02.2007
O Negro Escrito, de Oswaldo de
Camargo
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Que
faço com a minha cara de índia ?
Eliane Potiguara
E
meus cabelos
E minhas rugas
E minha história
E meus segredos ?
Que
faço com a minha cara de índia ?
E
meus espíritos
E minha força
E meu Tupã
E meus círculos ?
Que
faço com a minha cara de índia ?
E
meu Toré
E meu sagrado
E meus "cabôcos"
E minha Terra
Que
faço com a minha cara de índia ?
E
meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos ?
Brasil,
o que faço com a minha cara de índia ?
Não
sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro
Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só ...
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantava
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo
Textos do livro “METADE CARA, METADE MÁSCARA” Global editora
Sobre a vida da poetiza:
Eliane é escritora
indígena, professora, mãe, avó, 54 anos, remanescente Potiguara. É Conselheira
do Inbrapi, (Instituto Indígena de Propriedade Intelectual) e Coordenadora da
Rede de Escritores Indígenas na Internet e o Grumin/Rede de Comunicação
Indígena.
Eliane foi indicada para o Projeto
internacional Mil Mulheres Para o Prêmio Nobel da Paz.
É uma das 52 brasileira sindicadas.
Formada
em Letras (Português-Literatura), licenciada em Educação pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro, participou de vários seminários sobre Direitos
Indígenas na Onu, organizações governamentais e Ongs nacionais e
internacionais.
Eliane
Potiguara foi nomeada uma das “Dez Mulheres do Ano de 1988”, pelo Conselho das
Mulheres do Brasil, por ter criado a primeira organização de mulheres indígenas
no país: Grumin (Grupo Mulher-Educação Indígena), e por ter trabalhado pela
Educação e integração da mulher indígena no processo social, político e
econômico no país e por ter trabalhado na elaboração da Constituição
Brasileira. Com a bolsa que conquistou da ASHOKA em 1989 (Empreendedores
Sociais) mais seu salário de professora e o apoio de Betinho/IBASE e os
recursos do Programa de Combate ao Racismo, (o mesmo que apoiava Nelson Mandela
), ela pôde prosseguir sua luta, além de sustentar e cuidar de seus três
filhos, hoje adultos.
Em 1990, foi a primeira mulher
indígena a conseguir uma PETIÇÃO no 47º. Congresso dos Índios Norte-Americanos,
no Novo México, para ser apresentada às Nações Unidas. Neste Congresso, havia
mais de 1500 índios. Por isso,
participou durante anos, da elaboração da ”Declaração Universal dos Direitos
Indígenas”, na ONU, Genebra, por essa razão recebeu em 96 , o título “Cidadania
Internacional”, concedido pela filosofia Iraniana “Baha´i”, que trabalha pela
implantação da Paz Mundial.
Defensora dos Direitos Humanos, além
de vários Encontros, e criadora do primeiro Jornal Indígena e Boletins
conscientizadores e cartilha de alfabetização indígena no método Paulo Freire
com apoio da Unesco, organizou em Nova Iguaçu/RJ, em 91 outro Encontro inédito
e histórico, onde participaram mais de 200 mulheres indígenas de várias
regiões, tendo como convidados especiais a cantora Baby Consuelo e vários
líderes indígenas internacionais. Organizou vários cursos referentes à Saúde e
Diretos reprodutivos das mulheres indígenas e foi consultora de outros
encontros sobre o tema.
Em 92 foi Co-Fundadora/Pensadora do
Comitê Inter-Tribal 500 Anos (kari-oka), por ocasião da Conferência Mundial da
ONU sobre Meio-Ambiente, junto com Marcos Terena, Idjarruri Karajá e muitos
outros líderes do país, além de ter participado de dezenas de Assembléias
indígenas em todo o país.
Discutiu a questão dos Direitos
Indígenas em vários fóruns nacionais, e internacionais, governamentais e não
governamentais, diversas diretrizes, estratégias de ordem político-econômica,
inclusive no fórum sobre o Plano Piloto para a Amazônia, em Luxemburgo/1999.
No final de 92, por seu espírito de
luta, traduzido em seu livro “A Terra é a Mãe do Índio”, foi premiada pelo PEN
CLUB da Inglaterra, no mesmo momento em que Caco Barcelos (“Rota 66”) e ela
estavam sendo citados na lista dos “Marcados para Morrer”, anunciados no Jornal
Nacional da Rede Globo de Televisão, para todo o Brasil, por terem denunciado
esquemas duvidosos e violação dos direitos humanos e indígenas.
Em 95, na China, no Tribunal das
Histórias não contadas e Direitos Humanos das Mulheres/Conferência da ONU,
Eliane Potiguara narrou a história de sua família que emigrou das terras
paraibanas nos anos 20 por ação violenta dos neo-colonizadores e as
conseqüências físicas e morais desta violência à dignidade histórica de seu bisavô, avós e descendentes. Contou
também o terror físico, moral e psicológico pelo qual passou ao buscar a
verdade, além de sofrer abuso sexual, violência psicológica e humilhação por
ser levada pela polícia federal, por estar defendendo os povos indígenas, seus
parentes, do racismo e exploração. Seu nome foi jogado na lama nos jornais do
Estado da Paraíba. Tudo isso à frente de suas três crianças na época.
Eliane no último governo foi Conselheira da Fundação
Palmares/Minc, é FELLOW da organização internacional ASHOKA, dirigente do
Grumin e membro do Women´s Writes World. Eliane participou de 56 fóruns
internacionais e para mais de 100 nacionais culminando na Conferência Mundial
contra o Racismo na África do Sul, em 2001 e outro fórum sobre Povos Indígenas
em Paris, 2004.
Eliane
é do Comitê Consultivo do Projeto Mulher_ 500 anos atrás dos panos que culminou
no Dicionário Mulheres do Brasil.
É
autora de seu mais recente livro ‘Metade
cara, metade máscara, Global, pela GLOBAL EDITORA que aborda a questão indígena no Brasil. Fonte: http://fotolog.terra.com.br/elianepotiguara
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Leia em "Um tanto de Prosa": - O Medo causado pela Inteligência - Vingança - Como a água reflete nossos sentimentos
Página Inicial
|