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                                            RETRATO DA DESIGUALDADE SOCIAL 

População Brasileira:            
54,0%  branca
10,0%  negros puro
35,1%  negros mestiços  
0,9%  amarela, indígena
 
Cerca de 45% da população negra no Brasil sobrevive abaixo da linha de pobreza 
41% maior o nº de desempregados negros                  
De 100 empregados negros 46% não tem carteira assinada                  
Os negros têm 60% do salário menor que os não negros
  
Homens e Mulheres com o mesmo nível de escolaridade, na mesma função:        
Homem Branco – Tem o Maior Salário                  
Mulher Branca  – Recebe Salário mais baixo do que o homem branco – 30% MENOS       Homem Negro  – Recebe Salário mais baixo do que a mulher branca – 60% MENOS          Mulher Negra   – Tem o Menor salário – 70% MENOS
  
Crianças:
De 1.000 crianças negras 65 morrem antes de um ano
De 1.000 crianças não negras 37 morrem antes de um ano  

Negros com mais de 10 anos têm 4,2 anos de estudos
Não Negros com mais de 10 anos 6,2 anos de estudos  

Mortalidade Materna:                  
Morrem mais mulheres negras por: Hipertensão, diabetes e anemia falciforme  

Saneamento Básico:                    
64,7% das casas de negros têm água tratada                  
49% das casas de negros têm esgoto                    

91% das casas de não negros têm água tratada                  
73% das casas de não negros tem esgoto
 
Direitos do Cidadão -(Pesquisa do Núcleo de Violência da USP):                    
Em 9 meses – de 53 queixas de negros, 46 são de discriminação comprovada                    
58% o número de negros presos em flagrantes                  
46% o número de não negros presos em flagrantes                    

15% dos réus negros respondem em liberdade                  
27% dos réus não negros respondem em liberdade
                   
Negro agride Branco: 45,8 são absolvidos – 58% são condenados                  
Branco agride Branco: 54,8% são absolvidos – 42,2% são condenados                   
Índice de punição: 10% maior para negros

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                                              1. Desigualdade em Números
                                              2. Sexismo e Racismo Cordial
                                              3. Porque ser favorável as Cotas
                                              4. Estatuto do Negro
                                              5. O perigo das palavras

O “quadro da desigualdade”, as entrevistas e os artigos abaixo, são indiscutivelmente importantes para quem quer entender a questão do racismo no Brasil. Estas são as razões que fundamentaram e justificam a criação e todo o trabalho do Grupo Cultural Seguidores de Zumbi desde o início. Por traduzir nossa bandeira de luta, transcrevemos na íntegra o que pode ser encontrado no site  “Jornal O PovoOnLine”: www.opovo.com.br.


                                 1. DESIGUALDADE EM NÚMEROS
 
- Segundo o IBGE, 47% da população do país é negra (preta ou parda), mas 84% dos alunos universitários são brancos.
- O Brasil possui a segunda maior população negra do mundo, perdendo apenas para a Nigéria, mas no Brasil os negros vivem com um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) inferior em quarenta pontos aos brancos, e ainda inferior ao IDH dos países africanos, inclusive da Nigéria.
- Em 2005, dos 620 Procuradores da República, apenas 7 são negros.
- Dos 77 ministros dos quatro tribunais superiores, há apenas 2 negros.
- Dos 513 deputados da Câmara Federal, apenas 20 são negros.
- Do corpo de 1000 diplomatas do Itamaraty, apenas 10 são negros.
- Negros com a mesma escolaridade que brancos ganham apenas 84% do que ganham os brancos.
- Apenas 1% dos docentes universitários são negros, proporção inferior à da África do Sul que abandonou o sistema de segregação chamado apartheid há menos de 15 anos.
- Entre os 60 cientistas considerados de maior destaque pela SBPC, apenas 1 é negro (o sociólogo Milton Santos).
- Pretos e pardos estão quase ausentes dos cursos de "alto prestígio" (Medicina, Direito, Odontologia, Administração, Arquitetura, Jornalismo) e estão sempre sub-representados em todos os demais cursos.
- Entre 1929 e 2000, a diferença de escolaridade entre brancos e negros em todos os estágios mantém-se em níveis semelhantes, sendo que o abismo vai crescendo no ensino superior.
- Mesmo após a redemocratização do País, não tem diminuído o abismo entre brancos e negros, apesar das políticas públicas que foram geradas nessa época (sendo que só agora algumas começam a serem direcionadas, ainda timidamente, para a população negra).
- Segundo dados do MEC, o desempenho de alunos negros na mesma sala de aula, e na mesma condição social é inferior ao de alunos brancos, sendo uma das explicações que os alunos negros são tratados de maneira diferenciada dos alunos brancos pelas expectativas negativas que muitos professores nutrem quanto às possibilidades de sucesso de seus alunos/as negros/as. (SHP)  
Fonte: Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005 - Racismo, pobreza e violência, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)

Negritude na Terra da Luz
- 14/04/2007 

A discriminação racial no Ceará. Acontece no dia-a-dia, na rua, na faculdade, no prédio. "Eu nunca me senti tão negro quanto eu me senti aqui. Eu não me preocupava com isso, acredito que meus amigos também não. A gente não tinha detalhes do que é ser negro. A gente não sabia até que ponto você era avaliado, era questionado, era sujeito a certas coisas. Eu não tinha essa preocupação". Quem conta é Fernando Pedro Dias, que há seis anos deixou a família em Guiné-Bissau para estudar Engenharia Elétrica na UFC. Benjamim Sanca, mancanha de Bula (etnia de Guiné-Bissau), há três anos na cidade para cursar Sistema de Informações nas Faculdades Nordeste (Fanor), concorda com o amigo. "Uma coisa que eu acho que está faltando aqui é assumir-se como negro. Um dia, uma senhora na rua me chamou de 'moreno'. Eu disse pra ela que eu não sou moreno, sou negro. E ela disse: 'não fala isso aqui, não é bom nome'".

O olhar estrangeiro dos rapazes mete o dedo na ferida: o racismo nem é tão inexistente assim, por aqui. "Muitas pessoas, antes de saber que somos estrangeiros, começam a nos olhar com um mau olhar. Eu e meus colegas já passamos pelo momento de estar no ônibus e a pessoa começar a se afastar. Dá pra entender que ela não quer ficar próximo a você", conta Benjamim. Os rapazes relatam casos e mais casos de discriminação e pontuam: no racismo, há diferenças em relação ao negro africano e ao brasileiro. "O preconceito é diferente. Não sei por que, mas pode ser que eles coloquem na cabeça que essas pessoas, nós, não são daqui e querendo ou não vão voltar. Mas aquelas que são brasileiras, a gente não deveria tratá-las bem porque aí elas vão ser iguais". Mas fazem questão de ponderar: o racismo não permeia todas suas relações pessoais na cidade. Não mesmo.

A população negra no Ceará. A historiografia oficial clássica é clara: a escravidão negra por aqui não foi significativa. Para o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenador da Especialização em História da África da mesma instituição, Eurípedes Funes, associar o negro à escravidão nos leva a uma "lógica perversa". "A invisibilidade do negro estaria intimamente ligada a pouca expressividade da presença do trabalhador escravo na sociedade cearense de então. Ou seja, parte-se de um principio tacanho de que todo negro que aqui chegou, ao longo do processo de ocupação colonial, era escravo e de que todo escravo era negro". Daí para a suposta 'inexpressividade' do negro na cultura cearense é um pulo. Eurípedes ressalta que, no sertão cearense, por mais de um século, índios dividiram o mundo do trabalho com os negros de origem e descendência africana. Apesar de, numericamente, a população negra cearense ser menor do que a de outros estados do Nordeste açucareiro, já em fins de século XVIII e início do XIX havia negros livres e libertos. "Nesse sentido, o que primeiro se tem a discutir sobre racismo no Ceará, como em qual outro lugar, é a necessidade de se entender que o preconceito, seja ele de cor, religião, sexualidade etc., não é dado. É historicamente constituído. Essa é a primeira questão, como se construiu esta invisibilidade histórica em relação ao negro no Ceará".

Terra da Luz. Para o pesquisador da Cultura e História do Negro no Ceará, Hilário Ferreira, um dos mitos que precisam ser desconstruídos é o relacionado ao movimento abolicionista cearense, que de tão forte teria se antecipado à Lei Áurea de 13 de maio de 1888, sancionada pela Princesa Isabel. Hilário afirma que o 25 de Março de 1884, a abolição dos escravos no Ceará, não pode ser entendido sem se levar em conta a resistência dos negros ao tráfico interprovincial e a greve dos jangadeiros, liderada por dois afrodescendentes: o negro liberto Antonio Napoleão e o mulato Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, que se recusaram a levar escravos a bordo dos navios. "Após a abolição, sempre cantada em verso e prosa como algo de brancos, intelectuais e homens da política, para os negros cativos a 'luz' se apagou sobre a negrada cearense. Até bem pouco tempo, era esse o lugar do negro na historiografia cearense. Hoje não há mais espaços para essas concepções e formas de ler as histórias do negro na sociedade cearense. Há um novo olhar sobre as suas diversas experiências de trabalho, de práticas de sociabilidades, culturais na construção da identidade cearense", explica Eurípedes.

A população negra no Ceará e a discriminação racial no Estado são temas centrais da entrevista que segue, com Elane Albuquerque, mestranda em Educação pela UFC e membro do Instituto Negra do Ceará (Inegra); Meirelane Coelho, mestre em Ciências Sociais pela UFC, também do Inegra; André Costa, advogado, diretor da Organização Não-Governamental Brasil Centro de Direitos Humanos e Cidadania (Cedhuc) e presidente da Comissão de Combate à Discriminação Racial e de Defesa das Minorias da OAB CE; Francisco José Pereira, Preto Zezé, coordenador da Central Única das Favelas (Cufa) no Ceará. (Natália Paiva)

O POVO - Gostaria de iniciar essa conversa com uma provocação: o Brasil é o País da harmonia racial.
Preto Zezé - No Brasil, o que é mais interessante é que o discurso da democracia racial existe pelo fato de na rua não aparecerem pessoas que declaram que vão matar os negros, de nas decisões políticas não deixarem bem claro que o Estado exclui os negros. Mas, o cotidiano social e os próprios dados e estatísticas do IBGE comprovam na prática o contrário do discurso que é feito. Se você vir o mapa da violência dos jovens, 72% dos assassinatos são cometidos contra jovens negros. Você vai pro mercado de trabalho, pros postos de decisão e você não vê. Isso não está escrito, apesar de funcionar bem. Aí você diz "ah, não se tem ódio no Brasil". E essa exclusão, o que é? É pior ainda, porque opera sobre o inconsciente também do negro. Talvez seja o pior efeito do racismo no Brasil. Embasado por esse discurso da democracia racial, os negros não conseguem se identificar e inclusive têm vergonha de si próprio. É um discurso de que somos todos misturados. Mas ninguém me explica porque os misturados mais claros, que se aproximam do padrão estético europeu, têm mais vantagem. E, por coincidência, os que que se aproximam mais do padrão estético indígena e negro são os mais excluídos.

Meirelane Coelho
- É um discurso, como os próprios conceitos de raça e etnia, que vai ser construído na academia. A democracia racial vai aparecer pra se contrapor a uma outra teoria, a do branqueamento. Com o discurso da democracia racial, o negro não precisa mais ser eliminado. Ele pode viver, mas na invisibilidade. Porque quando a princesa Isabel liberta os negros, ela se esquece de assinar a carteira de trabalho deles. Então, eles ficam perambulando na miséria. Era preciso construir um Brasil bonito, e a população negra não deixava. E aí a academia ia com essa discussão de cultura brasileira, e se começa a falar de democracia racial: Nós somos uma população harmônica. Quando Gilberto Freyre escreve Casa Grande e Senzala, constrói-se uma ponte da casa grande pra senzala, dizendo que o povo brasileiro nasce dessa harmonia, do senhor branco com a escrava. Ele se esqueceu de dizer que a ponte só servia da casa grande para a senzala, a escrava não podia procurar o senhor quando precisasse. Então, é uma relação de dominação. E a democracia racial vai ser constituída colocando essas relações de dominação a escanteio.

André Costa
- Essa idéia de democracia racial não se sustenta nem historicamente, nem teoricamente, nem nos dados atuais. Quando se fala em democracia racial, as pessoas tendem a querer comparar com os EUA ou a África do Sul. Primeiro, negando a história. Porque nós tivemos 358 anos de escravidão oficial. Você não pode negar. Desde que foram libertados os escravizados - na verdade, não foi uma libertação. Muitos dizem que era o momento, a conjuntura econômica, queriam um setor consumidor e tudo mais. Mas isso não se sustenta. Muitos escravizados, inclusive Zumbi dos Palmares, morreram nessa luta. Que leitura podemos fazer da história do Brasil? Até 1888, tem uma escravidão oficial e, a partir daí, você tem uma libertação dos escravizados e não têm políticas públicas pra incluir os ex-escravos. Basta olhar que no começo do século quem vinha da Europa teve terra, subsídio, ações afirmativas. E hoje, os que defendem a nossa democracia racial dizem "não, não precisa de ação afirmativa, vai criar uma desigualdade que não existe". Não existe? Olha os dados do IPEA, IBGE, da Unesco, do PNUD. Qualquer órgão oficial nacional ou internacional não é diferente. Na escala social, no âmbito da educação, do mercado de trabalho, do serviço público. A gente pode dar dados, as pessoas às vezes não gostam porque dizem que a gente está acirrando o ódio. Mas que ódio? Aquele que é velado? O ódio aqui se demonstra no fato de que os negros e as negras não têm acesso aos bens e os direitos. Quando os negros e as negras de vários setores começam a querer ocupar os espaços e propor alternativas, começam a dizer que é todo mundo igual, que o problema é de classe, de renda, de riqueza. Mas porque a renda só vai para um setor da sociedade? Porque o Itamaraty não tem nenhum embaixador negro? Porque o primeiro ministro do Supremo Tribunal Federal negro só foi tomar posse em 2003? Quantos juízes, promotores de Justiça são negros? Que tipo de democracia racial é essa que sempre que os negros entram nos shoppings tem uma vendedora acompanhando? Quem diz que não existe democracia racial são os próprios dados estatísticos, e aí não dá pra fugir.

OP - É curioso que, nesse momento, todo mundo passa a fazer um discurso classista...
Zezé - Inclusive a esquerda. Não é que o racismo seja o centro do debate, mas é que eu não tenho como discutir a desigualdade de classe sem discutir o elemento da raça como fator de seleção e de dominação de uma parte da população.

Meire
- O racismo no Brasil tem nome, sobrenome e apelido. A gente tem racismo ambiental, racismo institucional, exatamente para demarcar as relações que se instituem no País. Quando se fala em racismo institucional, é que quando a mulher chega a um posto de saúde, ela geralmente é colocada para o final da fila, porque se colocou na cabeça que a mulher negra é mais resistente à dor. Então, quando você fala só de racismo essas relações ficam escondidas. Não é possível discutir essas relações que acontecem nas empresas, quando uma pessoa negra não é contratada pela cor.

Elane Albuquerque
- Pra você ver como essa questão do racismo opera: nas instituições públicas, a questão das mulheres negras é complicada. Aí, a gente fala de extermínio da população negra com a juventude e com as mulheres negras. Estão assassinando tanto as mulheres negras quanto os jovens. As mulheres negras morrem ainda no parto, por complicações. Porque elas não são tocadas, quando elas estão fazendo pré-natal, elas não têm a mesma atenção que a mulher branca. Isso no SUS (Sistema Único de Saúde), uma instituição pública que deveria estar cuidando da saúde da população. A gente já tem experiências diferentes até na hora de nascer. A mulher negra, quando engravida, já tem possibilidade quase 70% de a criança morrer, antes do nascimento real. Se tiver políticas universais, essas mulheres não vão ser atingidas. No plano de políticas públicas pras mulheres, a gente está lá: combater a mortalidade materna. Mas se fizer de forma universal, as mulheres negras vão continuar num índice de morte por complicações do mesmo jeito. Aqui no Ceará, até hoje a política pública não conseguiu estabelecer uma coisa simples, que é o quesito cor nos formulários de atendimento. É simples como o teste da orelhinha e do pezinho, que vai diagnosticar se aquela pessoa vai ter o desenvolvimento da anemia falciforme, que é uma doença prevalente da população afrodescendente. Ele é garantido constitucionalmente, é um direito básico para que essa pessoa tenha o tratamento prévio.

OP - Mais uma provocação: no Ceará, não existem negros.
Elane - (Risos) Pois é, um dado interessante é que quando a gente chega nos debates o pessoal fica assim: "Oh, não acredito. O Ceará não tem negro". Aí a gente diz que a população negra no Ceará, de acordo com o IBGE, é de 62%, aproximadamente. Aí você chega numa pesquisa dos 100 municípios mais negros do Brasil, Fortaleza é a terceira capital. Que contradição! Se os dados falam que a gente é uma população com mais de 50% negra, a gente escuta ainda hoje esse tipo de discurso. E é um discurso legitimado pela academia: não existe negro no Ceará. E aí você vai chegar nas Quadras, onde o Zezé mora, e vai ver a população negra, ilhada. Massacrada. Aí você vai chegar na periferia, no Conjunto Ceará, você vai ver a população negra. Vai chegar no Pici e vai ver as meninas negras. Elas não estão ocupando os espaços de poder.

Zezé
- É interessante entender, no debate do racismo, alguns fenômenos. No Ceará, antes dizia-se que não tinha negro. Depois, falaram que existia. Mas depois operou-se um fenômeno interessante, que a gente chama de fenômeno da invisibilidade. E funciona de duas formas. Uma: pra justificar, por parte do poder público, o fato de ele não operar com políticas públicas pra essa população - se não existe, o Estado não tem responsabilidade nenhuma. E a outra, pra você imprimir sobre o inconsciente da população negra que realmente ela não deve aparecer em locais públicos. Não tem porque ir ao Dragão do Mar ou ao shopping center se eu vou ser submetido ao constrangimento da polícia. Eu sou culpado por antecipação. É imposto que eu fique no meu lugar.

Meire
- Aqui no Ceará esse discurso da não-existência de negros está muito bem fundamentado na organização da cidade de Fortaleza. Quando Fortaleza vai se constituir, os negros que aqui vão chegar vão ser organizados na periferia. E eles não vão sair de lá, desde a organização da cidade que essa invisibilidade é mantida, nesse embate periferia e centro. É por isso que ninguém vê essa população: ela está na periferia.
Zezé - É interessante você olhar os bairros Meireles, Aldeota. E quando você olha o Siqueira, o Bom Jardim. Quando você olha esses bairros, se você pudesse ligar um raio X das cores, fazer um recorte étnico da ocupação da cidade. Se você fizer isso em Fortaleza, aí você tira a roupa e diz: até na organização da cidade, o racismo como modo operante inclusive decidiu onde vão estar negros e brancos vivendo nessa cidade. Se nós ficamos em silêncio em relação a esse processo de exclusão, está tudo tranqüilo, é a democracia racial. Quando eu reivindico que esse espaço seja dado para todas as pessoas, pra realmente existir democracia e direitos iguais, aí os racistas são os que estão excluídos e não os que excluíram. "Não, vocês querem disseminar o ódio". O ódio já está operando! O ódio é você deixar pessoas beberem água com fezes.

OP - Polemizou-se bastante em relação à fala recente da ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), que, em entrevista ao site da BBC Brasil, disse que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco". Isso repercutiu de forma tal a legitimar a tese de que a discussão étnico-racial parte do 'ódio' de negros contra brancos. Quais são os caminhos para se pautar essa discussão na sociedade?
Zezé - Mas o ódio existe. Não tem como, o outro processo do racismo é que, como os negros não se identificam, quando eles se descobrem... Cada um de nós tem uma experiência pessoal de que nós fomos descobrir que éramos negros muitos anos depois da nossa existência. E isso foi muito doloroso. Automaticamente, quando você descobre, volta uma fita na sua vida inteira, e você vai começar a pegar vários fatos. Por que na quadrilha eu nunca fui o noivo? Por que na hora piadinha eu sempre fui o alvo? Aí você vê: fui odiado a vida inteira. E aí, o que eu acho que ninguém quer discutir, é que existe um problema racial no Brasil. E não tem como esse problema não gerar ódio quando as pessoas descobrem. Não é o problema do branco não gostar do preto ou vice-versa. O problema é que, por causa disso, não pode ser definido se o cidadão mora na Aldeota ou no Bom Jardim. E quando os setores excluídos descobrem a sacanagem que foi feita, aí "Ah, é por isso que eu estou morando aqui, é por isso que eu não fiz até a quarta série, é por isso que eu não tive um bom emprego?". Qual você acha que vai ser a sensação de quem descobre isso? Por isso é difícil colocar o tema publicamente. Você volta a fita. Muitos que vão ler esta entrevista, vão começar a comparar essas coisas do passado da vida deles. Obrigatoriamente. Eles podem inclusive não querer acordar, porque é muito doloroso. É um problema. E o problema surge para ter solução. Eu acho que precisa colocar mesmo: existe um problema do branco com negro e do negro com o branco no Brasil. Isso é óbvio. O que justifica então quando eu tô numa calçada e vem uma pessoa, geralmente branca, e muda de calçada? A ministra sofre mais porque ela inclusive colocou que é explicável esse ódio. E é: escravidão, exclusão, pobreza, miséria. Quando você descobre: "É porque eu sou negro", não tem como não ter. Existe esse problema.

Elane
- Isso é um fator que complica a organização da população negra. Se você não se percebe negro, você não vai entender porque está excluído de vários espaços, porque você é maltratado na fila do SUS. Quando você sabe, você começa a se organizar politicamente. Aí vira ódio, a gente é maluca. E isso é uma forma de desmobilizar essa população. O pior da invisibilidade e do preconceito é isso, a gente se desmobilizar, não se organizar politicamente. E quando isso acontece, a gente não tem políticas públicas.

ndré
- Pra mim, é uma falsa polêmica. Não há o que falar de racismo de preto contra branco no Brasil. Porque se tivesse seriam algumas manifestações isoladas. Quem levou a peia aqui, quem apanhou, quem morreu, quem foi surrado, quem não tem o que comer, onde a pobreza é maior, a indigência é maior, são com os negros e as negras. Quer dados? Você pode pegar simples indicadores sociais. Dos 10% mais pobres, 66% são negros. Na universidade, somente 2,5% são negros. As pessoas têm medo de assumir que o racismo está nas relações do dia a dia. O Datafolha fez uma pesquisa em 1996 e a Fundação Perseu Abramo repetiu essa pesquisa em 2003. Perguntaram ao universo de pessoas entrevistadas em todo o país e 91% responderam: "Não, tem racismo no Brasil". Desse mesmo pessoal, 94% afirmou: "eu não sou racista". Como é que é isso? Esse racismo está em Marte? E quando a gente diz pra assumir, não é pra provocar o ódio. Aqui, no Brasil, é tão inteligente a forma de discriminação racial, que quem é discriminado se sente constrangido de colocar a pauta.

OP - Elane, você pontuou que, para existir mobilização, tem de existir antes, claro, a percepção. Se a pessoa não se percebe como negro, como isso pode mudar?
Elane - Eu acho que cada pessoa tem uma experiência pra contar, como o Zezé falou. No meu caso, eu tinha 28 anos e conheci uma amiga numa pós-graduação e eu sempre participei de partido, mas a gente não estava nos movimentos como mulher negra. Essa amiga me chama para um coletivo de mulheres negras. E eu pergunto pra ela o que eu tenho a ver com isso. E eu militando, há anos, num partido. A minha cara, eu sou negra. Mas eu sou de uma família classe média urbana de Brasília e no meu ambiente não tinham pessoas negras. E eu não entendia isso que o Zezé falava, porque na hora da música lenta eu não era chamada para dançar. E isso é complicado, é uma consciência tardia. Quando ela me fala isso, eu vou pra casa e começo a questionar. E é doloroso. E vai dando um sentimento de revolta muito grande. Por que isso acontece? Ou você se organiza, grita, fala e protesta contra essas coisas ou então você entra em depressão profunda e não sai mais de casa.

Meire
- Na verdade, essa percepção não é um momento iluminado (risos). É algo que vem de fora pra você. Você não se descobre, as pessoas dizem que você é. Não é uma auto-identificação, isso não existe. A maioria descobre no dia a dia. Ele é pivete. Mas ele não pode afirmar porque vai doer pra ele. É mais fácil deixar pra lá, não se deparar com o que estão te impondo. Ele vai ser chamado de preto, vai ser barrado, vai sofrer violência. E isso por conta da cor. Por conta da questão racial.

Zezé
- Como o debate negro avançou na sociedade, muitas universidades estão colocando cotas, muitas empresas estão empregando negros, a ministra negra está gerando debate, ocupando espaço, setores tentam desqualificar. Não é ódio, o tema. Os dados estão dados. As políticas públicas estão em debate na sociedade. Uma coisa é justificar com argumentos num debate político-ideológico. Outras coisa é você ter os dados. E no IBGE, com certeza, a maioria dos pesquisadores não é negra. Então, não é ódio do IBGE, o cara dizer que o IBGE é racista. O ódio é o sentimento dos pretos em relação a essa situação. Tem que separar: uma coisa é o ódio que se sente quando se nota essas questões. Outra coisa é o debate sobre o que já está em pauta na sociedade. Eu tô vendo esse negócio se esticar como forma de desqualificar o que estamos propondo na sociedade.

André
- Nosso espelho é o cotidiano. Desde cedo, você ouve formas degradantes de ser tratado. Saiu pesquisa agora da Unesco: em relações sociais na escola, as crianças negras são vítimas cotidianas de racismo. É da piada - é só uma piadinha. O racismo atravessa tudo, inclusive os negros. Porque não é uma coisa que atinge só os brancos, porque tem brancos não-racistas. Então, eu acho que quando falamos negros tem que ser a soma de negros e pardos. Acho que essa questão de negar que existe negro no Ceará... Se não existe, porque realça tanto na escola que nós somos o primeiro a libertar os escravizados? Ah, não tinha mais? Exterminaram de lá pra cá? Nós temos 22 comunidades quilombolas no Ceará. E aí, vamos negar que tem negros? Eu penso, e acho que a psicanálise e a psicologia ajudam muito nisso, que uma negação extrema é sempre uma afirmação. A força de querer negar é porque existe, você olha as relações cotidianas.

OP - André, qual o número exato de queixas ou processos de racismo no Ceará ou em Fortaleza? Existe algum relatório ou estudo a respeito?
André - Não tenho conhecimento de nenhum levantamento sobre a quantidade de inquéritos civis ou penais ou de processos judiciais por crime de racismo em Fortaleza ou em qualquer município do Ceará. Isso não significa que inexistam crimes raciais no Estado. Um dos mais célebres do Brasil foi aqui no Ceará. O colunista Claúdio Cabral escreveu: "Moral da história: feijoada é comida de músico baiano, negros e índios. Sub-raças, evidentemente." Um flagrante crime de racismo pela imprensa. O sistema de justiça falhou e ele ficou impune. Nós não podemos esquecer que a falta de um SOS Racismo no Ceará com atendimento jurídico, psicológico e social para os discriminados dificulta a reação das vítimas. Certamente há muito casos não chegam ao sistema de justiça. Outro problema, fato reconhecido pela OEA (Organização dos Estados Americanos) em outubro de 2006, quando o Estado brasileiro foi responsabilizado por discriminação racial, é o despreparo dos atores jurídicos em reconhecer o ato de racismo. Sempre buscam desqualificar o racismo para crimes de constrangimento ilegal ou crimes contra a honra. A grande conquista expressa na Constituição Federal de 1988 - a criminalização do racismo tornando-o imprescritível e inafiançável - não alcançou o Judiciário. O agravante é que no Ceará sequer no sistema de registro de ocorrências da Polícia consta os tipos penais previstos na Lei 7.716 de 1989 que trata dos crimes resultantes de preconceito de raça ou cor. Se qualquer vítima de discriminação racial procurar uma delegacia não terá como registrar sua queixa como crime racial. Veja quantas mudanças urgentes e necessárias precisam ser efetivadas imediatamente para promover a igualdade racial no âmbito da Justiça.

GLOSSÁRIO

AÇÕES AFIRMATIVAS - Conjunto de políticas públicas ou privadas, de caráter compulsório, facultativo ou voluntário, idealizadas para combater a discriminação racial, de gênero e de origem nacional, bem como para corrigir os efeitos da discriminação praticada no passado. Objetivam a concretização do ideal de igualdade de acesso a benefícios como a educação e o emprego.
NEGRO - Na demografia, negro remete à soma dos contigentes pretos e pardos da população. Do ponto de vista político, é utilizado pelo movimento negro como algo que denota identidade, em que preto e pardo seriam apenas cores, enquanto negra seria a raça.
RACISMO - O racismo engloba as ideologias racistas, as atitudes fundadas nos preconceitos raciais, os comportamentos discriminatórios, as disposições estruturais e as práticas institucionalizadas que resultam em desigualdade racial. A Unesco, na Declaração sobre Raça e Preconceito Racial de 1978, afirma que o racismo se manifesta por meio de disposições legais ou regimentais e por práticas discriminatórias, assim como por meio de crenças e atos anti-sociais; impede o desenvolvimento de suas vítimas, perverte quem o pratica, divide as nações internamente, constitui um obstáculo para a cooperação internacional e cria tensões políticas entre os povos.
RACISMO INSTITUCIONAL - É o fracasso coletivo de uma organização em prover um serviço profissional e adequado às pessoas em razão de seu fenótipo, culturo ou origem étnica. Ele se manifesta em processos, atidudes ou comportamentos que denotam discriminação resultante de preconceito incosciente, ignorância, falta de atenção, ou de esterótipos racistas que põem minorias étnicas em desvantagem.

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                               2. Sexismo e Racismo Cordial

                                                               
                                                                        Zelma Madeira


No Brasil convivemos com o paradigma que informou a "democracia racial", de explicitação das etnias como socialmente reconhecidas, no entanto isto deu base às teses explicativas da identidade nacional através de uma miscigenação "harmônica" das três raças. Perdurou um discurso ideológico de ocultamento do racismo, escondendo processos de dominação e discriminação contra a população negra. Afirmou-se de modo genérico e sem questionamento essa harmonia racial empurrando para o plano pessoal os possíveis conflitos.

Neste sentido cabe algumas reflexões sobre as mulheres negras. A conjugação de sexismo e racismo têm se constituído no grande impedimento para o desenvolvimento de suas potencialidades. Desde que foram retiradas da África, passaram por todo tipo de violência, foram estupradas pelos senhores, humilhada pelas sinhás, tiveram seus corpos usados como incubadoras para a geração de outros escravizados, impedidas de criar seus filhos, acusadas de encarnação de um erotismo exacerbado. Verificamos que a lógica da sociedade patriarcal e escravista conseguiu ser mais perversa com as mulheres negras.

As mulheres negras conquistavam espaços públicos em meio a tensas relações de poder, diferindo radicalmente das mulheres brancas pertencentes às classes dominantes, que viviam enclausuradas em seus lares sob as ordens masculinas de maridos, pais ou irmãos. Estes aspectos conferem as mulheres negras um lugar especifico. Elas utilizaram o espaço urbano no ato de vender bens materiais como comidas e outros produtos e conseguiam financeiramente manter suas famílias. No mercado também foram mediadoras de bens simbólicos e exerceram poder no campo religioso, assumindo o sacerdócio como ialorixás, mães-de-santo nos candomblés, tambor de mina e outras religiões de matriz africana, atuaram com devoção nas irmandades religiosas. Assumiram o papel de zeladoras das tradições africanas: estabelecendo laços de solidariedade, criando e fortalecendo as comunidades de terreiros.

A trajetória das mulheres negras foi demarcada de lutas e embates, contudo ainda hoje as relações de gênero e raciais convergem para fazer destas um grupo em desvantagem e com menos poder na sociedade, retraduzidas nos elevados índices desemprego, escolaridade insuficiente, violência sexual, doméstica e psicológica. Estas mulheres têm convivido com certas imposições sociais que, independente da época, possuem um traço comum: mantê-las em silêncio.

A mulher negra cearense depara-se com dificuldades para configurar seu perfil feminino e isso têm sua razão de ser. O racismo no Ceará ganha uma especificidade, prolifera o discurso da ausência de negros e negras, de que foi um dos primeiros estados a abolir a escravatura. Isto leva ao engendramento de uma perspectiva da invisibilidade desta população. Porém, há sim uma experiência social construída historicamente pela população negra no Ceará, as marcas ficaram presentes no seu engajamento no mundo do trabalho, nas práticas culturais e religiosas e nas lutas contra a discriminação e o preconceito.

Em Fortaleza essa população negra tem convivido em meio às péssimas condições socioeconômicas, residindo na periferia desta metrópole. Essas condições adversas têm fortes repercussões nos processos de construção da sua identidade étnico-racial. As mulheres negras são infelizmente identificadas por rótulos de incapacidade, por aspectos de negatividade quanto a sua estética, pesa a discriminação racial nos processos de seleção e alocação de mão-de-obra feminina, sobressai o quesito "boa aparência", focado num modelo de beleza etnocentrado. Acresce também a forma de atendimento destas mulheres nas instituições públicas, em muitos casos não são tratadas pelo nome, mas por expressões preconceituosas como "negona", "macaca" conformando o racismo institucional.

No âmbito das relações amorosas, do padrão de matrimônio sobressai entre as negras as uniões estáveis, casam em geral mais tarde. Vale advertir que as relações amorosas e afetivas são construídas social e culturalmente. As mulheres brancas competem com vantagens com as mulheres negras. Os homens negros têm preferido às mulheres brancas, e muitos fazem guiados pelo processo de branqueamento, crentes que conseguiram aceitação, status na hierarquia social. Este fato revela a forma como o racismo opera entre nós, distanciando-nos do sentido de pertença e identidade racial.

Diante do exposto precisamos acionar mecanismo e recursos que empodere os processos de autoconhecimento e autogestão das mulheres negras. No campo das instituições públicas, vale combater a discriminação de gênero e étnico-racial, não se equivocando com o sexismo "carinhoso" e o racismo cordial, que permanecem na exaltação da mulata como símbolo de nacionalidade e coisificação das negras para o trabalho desqualificado e objeto sexual. Vale apostar em ações que desvelem os processos discriminatórios e socializar as possibilidades que tem as mulheres negras impactando sua auto-estima.


Zelma Madeira é professora do Departamento de Serviço Social da Uece, vice-coordenadora do Labvida/Uece. Mestra e doutoranda em Sociologia pela UFC, com pesquisa na área de religião e cultura de matriz africana.

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                                3. Porque ser favorável às Cotas


                                                                           Sandra Haydée Petit

Em artigo especial para O POVO, a professora Sandra Petit discorre sobre políticas educacionais e racismo. No centro, as ações afirmativas no âmbito da educação: em especial, as polêmicas cotas para negros em universidades públicas 14/04/2007  O não acesso à educação formal por parte do negro tem fortes raízes históricas que exigem políticas públicas urgentes de combate ao racismo institucionalizado e dirigidas à efetivação dos direitos formais garantidos pela Constituição de 1988.

Ainda no século XIX, vários decretos impediram ou limitaram o acesso dos negros aos bancos escolares. Já no pós-Abolição, o Estado empreende uma política deliberada de branqueamento, tomando uma série de medidas de favorecimento aos imigrantes europeus, na busca de substituir a mão de obra negra do país - uma vez que o negro era visto como inculto e elemento de atraso cultural e econômico. Há de se entender que expoentes do pensamento brasileiro daquela época, inclusive abolicionistas, consideravam que existia uma escala de evolução das raças na qual os negros, pelas suas características biológicas, ocupavam a última posição. A popularidade das teorias racistas eugenistas no pensamento brasileiro não podem ser imputadas apenas aos efeitos do capitalismo, uma vez que até mesmo setores progressistas defendiam tais posições. O fenômeno precisa ser analisado também como resultado de uma visão de mundo etnocentrista que não admite o Outro senão como inferior, segundo seus próprios parâmetros civilizatórios discriminatórios.

A crença 'racionalista' na supremacia européia - o iluminista Voltaire comparava o negro a um símio - junto com os dualismos derivados de uma certa leitura da Bíblia, onde a cor preta, em contraposição à branca, é associada ao Mal, às trevas, ao diabo e ao Inferno, forjaram um imaginário social racista que forneceu justificativas filosóficas ao sistema escravagista, fazendo com que até mesmo a Revolução Francesa rejeitasse com veemência a libertação dos escravos nas Colônias. Assim os valores universalistas de democracia e de liberdade vieram tingidos desde seu nascedouro das marcas de um limite: o da cidadania restrita, reconhecida apenas aos brancos ocidentais.

No século XX, o discurso vai se tornar mais ambíguo, mas não menos perverso, pelo chamado mito da democracia racial. Um dos principais representantes dessa tendência é Gilberto Freyre com sua famosa obra Casa Grande e Senzala. Nela o negro deixa de ser visto na perspectiva francamente racista de outrora, mas em compensação é retratado de forma estereotipada como o outro exótico e folclórico. Freyre apresenta uma visão suavizada da escravidão e das relações entre brancos e negros, além de diluir os conflitos numa apologia à mestiçagem que, de fato, só faz mascarar o racismo e as relações de dominação. Infelizmente, o Estado do Ceará vem se colocando como uma das regiões onde o mito da democracia racial ainda emperra a implementação de ações afirmativas voltadas para a população negra pois além de acreditar-se na inexistência de negros (contradizendo as estatísticas que apontam mais de 60% de pretos e pardos) há uma dificuldade muito grande em reconhecer o racismo como transversal às relações de dominação que aqui perduram.

Esse pano de fundo permite entender por que o racismo, além de se tornar estrutural em termos sócio-econômicos, se incrustou nas mentes e atitudes de forma tão naturalizada que todo reconhecimento de sua existência fica ofuscado, dificultando consideravelmente as estratégias de combate às suas manifestações. Porém, os dados estatísticos não deixam lugar a dúvidas sobre o caráter crônico do racismo ainda após a Abolição (ver quadro).

Diante de tal fenômeno as organizações do Movimento Negro há muito tempo vêm lutando pelo acesso à educação formal. Tem-se registros notadamente das ações das Irmandades (final do século XIX, início do século XX), da Frente Negra Brasileira (anos 30) do Teatro Experimental do Negro (anos 40-50). Mais recentemente, com a criação do MNU (Movimento Negro Unificado) em 1978 e o advento de muitos outros grupos, associações e organizações, vêm sendo reforçadas as reivindicações de políticas públicas específicas que permitam diminuir o fosso existente entre negros e brancos.

É nesse contexto que surgem as propostas de ações afirmativas e dentre essas, a política de reserva de vagas, também chamada política de cotas. Ações afirmativas são políticas de reparações dirigidas à correção de desigualdades raciais e sociais estruturais, orientadas para oferta de tratamento diferenciado para corrigir desvantagens criadas e mantidas por estrutura social excludente e discriminatória. Não visam resolver por si só os problemas de discriminação mas são a manifestação da urgência de medidas que venham trazer resultados imediatos e efetivos diante de um fenômeno - no caso o racismo - que se instalou de forma crônica e que exige uma atitude pro-ativa do Estado. É também o reconhecimento de que políticas universalistas que não levam em conta os pontos de partida desiguais se tornam muitas vezes inócuas. Como refere José de Jorge Carvalho, "é como se um negro se dispusesse a atravessar um rio a nado enquanto um branco andasse de barco a motor em alta velocidade e ao chegarem à outra margem suas capacidades pessoais fossem calculadas apenas pela diferença de tempo gasto na tarefa". Essa metáfora também põe abaixo a noção meritocrática do vestibular, uma vez que o mesmo só faz privilegiar quem atravessou de barco a motor mas não mede suas capacidades de ser um bom nadador.

Vale ressaltar que ações afirmativas já existem por exemplo para corrigir distorções entre homens e mulheres e para garantir cotas femininas de 30% nas candidaturas partidárias. Internacionalmente, já são implementadas em vários países como a Índia, o Canadá, a África do Sul, a Malásia, os Estados Unidos. A política de cotas junto com a lei 10.639/03 são os primeiros instrumentos de reparação histórica que os negros vêm conquistando pelos danos que sofreram desde que foram arrancados da África para serem subjugados no Brasil.

Antes de uma resposta aos compromissos assumidos pelo Estado Brasileiro em fóruns internacionais da ONU e particularmente na III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata ocorrida em Durban, África do Sul, em 2001, a política de cotas é resultante das intensas mobilizações das organizações do Movimento Negro, notadamente após a Marcha Zumbi dos Palmares pela Vida em 20 de novembro de 1995. Tais mobilizações levaram também às primeiras ações afirmativas no âmbito dos Ministérios, à criação da SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial em 2003, à promulgação da lei 10.639/2003 que institui a obrigatoriedade do ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas e faculdades públicas e privadas e ao Estatuto da Igualdade Racial. Antes mesmo do atual Projeto de lei 73/99 passar a tramitar no Congresso, mais de 35 universidades entre federais e estaduais já implementaram cotas para estudantes negros, indígenas e alunos da rede pública e, em muitos casos também, para pessoas com deficiência. O atual projeto de lei prevê cotas nas Universidades Federais para alunos das escolas públicas e dentro desse percentual (50%), uma proporção equivalente ao percentual de pretos e pardos de cada região. Cada universidade é assegurada autonomia para decidir como irá implementar as cotas "raciais", mas uma das fórmulas mais usadas nas Universidades que as implementam é da admissão à cota por auto-declaração de seu pertencimento étnico. Em seguida os cotistas concorrem entre si mas devendo ser aprovados nas mesmas provas que os demais candidatos, geralmente com pequena diferença no ponto de corte.

Os resultados nas Universidades que vêm adotando as cotas são promissores uma vez que o desempenho dos cotistas tem se revelado melhor ou igual ao dos não cotistas. Pesquisas apontam que professores dessas universidades são majoritariamente favoráveis às cotas e que notaram que o nível acadêmico melhorou ou permaneceu igual após a entrada dos cotistas. Além de aumentar a proporção de pretos e pardos naquelas instituições, as cotas vêm trazendo à tona o debate sobre o racismo até então colocado debaixo do tapete para não ser enfrentado. Também vêm sendo levantandas novas necessidades e demandas, não somente em torno das medidas de ajuda à permanência mas ainda sobre a premência de mudanças curriculares a fim de fomentar o conhecimento acerca da história, cultura e contribuições científicas desse segmento numa Universidade até hoje encastelada em valores eurocêntricos elitistas.

A impregnação desses valores talvez seja um dos motivos da elite escolarizada ainda se colocar de forma desfavorável às cotas (55%), enquanto as pessoas com escolaridade fundamental (71%), na sua maioria, aprova essa ação por perceber as possibilidades de mobilidade social que se abrem após tantas décadas de imobilismo e por entenderem essa política como justa e valorizadora de seus direitos historicamente negados.

Sandra Haydée Petit é professora da Faculdade de Educação da UFC, membro do Núcleo de Africanidades Cearenses (Nace) e do Instituto Negra do Ceará (Inegra).

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                                4. O Estatuto do Negro

O Brasil tem pressa de reverter o prejuízo de séculos de discriminação racial. Na semana passada, a Câmara Federal abriu o debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial, um texto de 85 artigos que criam mecanismos de combate à discriminação e à desigualdade de oportunidades às populações afro-brasileiras no acesso à educação, saúde, esporte, cultura, lazer, ao mercado de trabalho e às políticas públicas. O projeto do senador Paulo Paim (PT-RS), de 2000, já passou pelo Senado com poucas modificações.

O estatuto sintetiza anos de reivindicações e lutas do movimento negro, para o qual o texto é o mais importante documento legal para viabilizar a eliminação do abismo histórico provocado pela escravidão no País. 'Essa é uma das nossas pautas de luta e tem tudo a ver com a criação dos conselhos a partir da Constituição de 1988, previstos como instrumentos de prevenção e controle, que iniciaram a discussão sobre a necessidade de instrumentos legais para regulamentar situações que sempre foram difíceis para os negros', diz Domingos Conceição, do Conselho Municipal de Negros e Negras de Belém.

A gênese do estatuto foi um debate sobre a cobrança de indenização do Estado brasileiro à população afro-descendente pelos danos causados pela escravidão. 'Seria uma forma de reaver direitos, chamada de um ‘retorno à África’. Essa discussão evoluiu para a criação de cotas e do Conselho Nacional de Promoção de Igualdade Racial'.

Entre os artigos que prometem causar polêmica, estão os que definem cotas de acesso ao mercado de trabalho e à contratação de serviços por empresas públicas. Os governos, a partir do estatuto, deverão estimular a contratação de funcionários negros e dispor de no mínimo 20% dos cargos comissionados para eles, além de criar instrumentos que estimulem as empresas privadas a criar programas de promoção da igualdade racial, como vantagens em concorrências públicas e incentivos fiscais. Outro item é a exigência de um mínimo de 20% de representação de pessoas negras em programas de televisão e peças publicitárias.

Cotas -
Na educação, o projeto exige legislações específicas e regulamentos que garantam cotas mínimas para negros nas instituições públicas de ensino superior, assim como no Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). Também obriga o ensino da disciplina 'História Geral da África e do Negro no Brasil' nos ensinos fundamental e médio das escolas públicas e privadas.

Há também ações específicas na saúde, a obrigatoriedade da declaração de raça nas fichas de atendimento dos pacientes, preocupação com a pesquisa e diagnóstico de doenças etno-raciais como a anemia falciforme. A mulher negra, na base da pirâmide de desigualdade, tem atenção especial. Exige-se ainda uma política fundiária para as comunidades quilombolas, assegurando seu direito histórico às terras que ocupam. Além disso, propõe a criação de conselhos de promoção de igualdade racial para a formulação e coordenação de políticas de combate à desigualdade.

A principal mudança do texto no Senado foi a supressão do Fundo de Promoção da Igualdade Racial, incluído no substitutivo do deputado Reginaldo Germano (PP-BA), composto por receitas da União, dos prêmios das loterias, transferências voluntárias dos Estados, doações e custas judiciais arrecadadas em processos contra discriminação racial, a ser administrado pelo Conselho Nacional de Promoção de Igualdade Racial. O fundo deu lugar à indicação de que nos planos plurianuais e orçamentos anuais da União haja recursos para programas de promoção da igualdade.

Choque entre direitos gera polêmica


Os publicitários ficaram insatisfeitos com a possibilidade de serem obrigados a incluir pelo menos 20% de atores e modelos negros em peças publicitárias onde haja a participação de pessoas. O Sindicato das Agências de Propaganda do Pará (Sinapro) considera este tópico do Estatuto da Igualdade Racial uma agressão à liberdade inerente e essencial ao processo criativo que rege o mundo da publicidade. 'Somos contra qualquer tipo de preconceito racial, mas impor algo como uma obrigação não é a maneira de resolver a questão. O sindicato defende a liberdade de comunicação. O Brasil tem um mix maravilhoso de raças que podemos utilizar e os atores e modelos em peças publicitárias são definidos de acordo com a campanha, com o foco que se quer atingir. Se nos obrigam a alguma coisa, isso está ferindo a liberdade que é característica fundamental do processo criativo', diz o diretor executivo do Sinapro, Marcos Pereira.

Para o publicitário, pelo menos no mercado local o estabelecimento de cotas para garantir a representatividade da comunidade afro-brasileira na propaganda e nos programas de tevê não se justifica. 'Discordo que os negros não estejam bem representados na propaganda, pelo menos nas campanhas que fazemos em Belém. Você vê os tipos da nossa região bem representados nos anúncios. Com certeza eles também estão bem representados na publicidade nacional. Recentemente teve até uma campanha grande com um ator negro super bonito, qual era mesmo? Uma campanha de uma empresa de telefonia, eu acho. “Não estou lembrando agora”...

Estatuto é vitória da pressão popular

Domingos Conceição avalia que a aprovação do estatuto é fundamental para reverter a desigualdade racial no País. 'Vivendo em um país como o Brasil, que se diz democrático, mas onde a gente ainda tem garantido direitos somente pela pressão da participação popular, é preciso criar instrumentos que viabilizem isso. Se com legislação é difícil implementar políticas, imagina sem ela', argumenta, ao defender as cotas como instrumentos de garantia do acesso das populações negras à educação e ao mercado de trabalho, como forma de se quebrar um círculo vicioso. 'Não conheço uma pesquisa mais aprofundada que indique as condições do negro no mercado de trabalho aqui no Norte. Mas sabemos que há menos oportunidade e que as diferenças de salários chegam a 70%. As mulheres negras ganham menos que todos. Se você for a um shopping, quase não vai ver funcionários negros. Há uma certa hierarquização dos tipos de comércio e certamente você não vai vê-los atendendo em lojas mais chiques. Nas empresas privadas, existe muito a exigência da boa aparência e isso é constantemente identificado com a questão da raça. Estabelecer um percentual para as empresas pode chamar a atenção delas, criar um questionamento.'

No caso das concorrências públicas, Domingos também acredita que o estatuto pode ajudar a criar uma reação em cadeia. 'Com isso, você força todas as empresas a se adequarem. Se houver esse acesso maior ao mercado de trabalho, por mais que num primeiro momento não sejam profissionais com tanta qualificação, o que é resultado de um histórico de falta de oportunidades, uma hora essas pessoas vão se qualificar, porque haverá um estímulo. Se o estatuto será aprovado eu não sei, mas estamos muito felizes de ver que ele passou no Senado sem muito alvoroço, porque essa era uma discussão inédita.'

Polêmica traz mazelas soterradas pela amnésia nacional


A antropóloga Mônica Conrado, professora da pós-graduação em antropologia da UFPA, vem, há anos, estudando as relações de desigualdade entre brancos e negros no Brasil e sentiu ela mesma o gosto amargo da discriminação. 'Já houve gente que me disse que eu, sendo doutora, não sentiria mais a discriminação. Mas já senti a diferença de tratamento várias vezes, em restaurantes, por exemplo. Uma vez me perguntaram onde eu tinha ‘arrumado’ meu sobrenome, porque era tão bonito. Existe às vezes uma visão economicista que tenta fazer crer que a discriminação é econômica, é social. Mas se um negro como um amigo meu, que é físico nuclear, tem condições financeiras muito melhores do que um branco advogado, por exemplo, e entra junto com ele numa concessionária para comprar um carro, quem você acha que a vendedora vai atender melhor?'

Para a antropóloga, a discussão do Estatuto da Igualdade Racial gera polêmicas exatamente por evocar mazelas que foram soterradas na história de 'um Brasil que sempre quis embranquecer'. 'A invisibilidade social, para mim, não está no fato de você entrar numa joalheria ou num restaurante chique, e não haver negros lá. Mas nas pessoas nem se darem conta disso. Está na mídia não representar a mulher brasileira e sim modelos nórdicos e nem nos apercebermos disso. Fomos socializados para não perceber isso porque vivemos num mito de democracia racial. Só 2% dos estudantes de graduação nas universidades são negros, num país que tem a segunda maior população negra do mundo, com 45% da sua população formada por negros. Isso não é coincidência. E o estatuto chama a atenção para todas essas questões'.

Mônica faz parte de um grupo de estudos na UFPA que discute políticas de ações afirmativas como forma de reverter esse quadro. Ou seja, políticas públicas adotadas pelo Estado para a correção de situações de desigualdade, garantindo oportunidades de inserção para grupos discriminados. 'Seria tratar desigualmente os desiguais para que se possa pensar em uma política de igualdade.' Para ela, a fixação de cotas seria uma forma de dar mais oportunidade às populações negras, assim como foi feito com os portadores de necessidades especiais e as mulheres. 'As cotas não são sinônimo de política afirmativa, mas podem ser um instrumento. Mas as pessoas devem começar a pensar que uma política inclusiva também não é sinônimo de exclusão de outros. A ‘discriminação positiva’, como alguns chamam, é importante para que se possa validar que somos todos iguais juridicamente.'

Ação afirmativa é irreversível


A criação de políticas de ação afirmativa é uma tendência irreversível na sociedade brasileira. Essa é a opinião do procurador-chefe da Procuradoria Regional do Trabalho e professor do programa de pós-graduação em direito da UFPA, José Cláudio Monteiro, que também acredita que o Estatuto da Igualdade Racial será aprovado, ainda que com alguma modificação. Mas atenta que é preciso haver bom senso e reflexão para as medidas propostas sejam realmente eficazes para diminuir as diferenças.

Juridicamente, ele diz que o projeto do senador Paulo Paim (PT-RS) não fere os princípios constitucionais brasileiros. Mas que sua aprovação exigirá mudanças em outras legislações, como a que rege as licitações públicas. 'Vai alterar todo o panorama em que propõe ações. As leis não terão, necessariamente, que ser revistas, mas passarão a ser aplicadas de acordo com o estatuto'.

Segundo José Cláudio Monteiro, o Brasil começou a implementar concretamente políticas de ação afirmativa em 1991, com a Lei 8.213, que instituiu o Plano de Benefícios da Previdência e a reserva de 2% a 5% das vagas nas empresas para portadores de necessidades especiais. 'Alguns anos depois, foi incluído na CLT um artigo que incentiva a contratação de mulheres. As ações afirmativas começaram fortemente no Governo FHC e aumentarem muito no Governo Lula, que criou duas secretarias que lidam especificamente com isso. Elas são um fato irreversível e um instrumento eficaz de inclusão. Em algum momento, alguém perde, sim, mas, depois, ações assim ajudam a tornar a promoção de direitos mais homogênea, na garantia do bem de todos'.

O grande problema, diz ele, é saber em que medida isso deve ser feito. 'É preciso pensar em eficiência e adequação, pensar num segundo momento. As medidas devem existir até o momento em que o desequilíbrio existir. E não é qualquer medida que pode ser eficaz. Só é adequada se resolve o problema dentro de propostas consideradas razoáveis. Na minha opinião, essas medidas precisam ser progressivas, senão a reação pode ser muito forte. E ações afirmativas só funcionam se contam com o apoio da população. Há cinco anos, as duas universidades estaduais do Rio de Janeiro tentaram estabelecer uma política de cotas de 50% para estudantes de escola pública e 40% para negros, o que terminou com 60,14% das vagas daquele ano preenchidas por cotas e com muita gente aborrecida. A lei foi alterada diminuindo isso para 20% e você não vê ninguém mais reclamando.'
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              5. O Perigo das Palavras:  

                                definição de conceitos mais usados na atividade anti-racista

 
       
‘Eu não sou racista, porque não tenho nada contra as pessoas de cor se elas se assimilarem e cumprirem as nossas regras. Na verdade, alguns dos meus amigos são pretos...' Talvez já tenha sido confrontado com esta opinião ou outra semelhante. Talvez já tenha tentado explicar que o significado da palavra tolerância não é que tudo é permitido. Este texto da organização Unidos para a Ação Intercultural, da Rede Européia contra o nacionalismo, o racismo, o fascismo e para o apoio aos migrantes e aos refugiados discute alguns conceitos usados freqüentemente. As definições neste boletim são idéias. Não são a única nem a melhor expressão de uma verdade imutável. A linguagem está constantemente a mudar, tal como as palavras e os conceitos. Com o tempo, estes podem mudar e passar a significar uma coisa completamente diferente. Na cooperação internacional, mas também na cooperação com o vizinho que mora ao lado, temos que estar atentos, pois aquilo que dizemos pode ter outro significado para o outro. Devemos estar conscientes do ‘perigo das palavras'.        

DIREITOS HUMANOS  

Direitos humanos são direitos que todos os seres humanos, sem exceção, devem usufruir. Estes direitos baseiam-se nas idéias dos filósofos do ‘Iluminismo' do século XVIII. Os direitos humanos incluem direitos sociais (que são direitos que precisam de uma intervenção positiva do governo, tal como o trabalho, a habitação, a alimentação, etc.) e direitos políticos (que essencialmente garantem a não interferência do governo como a liberdade de pensamento e de expressão, proteção contra a detenção e a tortura, etc.). Todos os países na Europa, exceto alguns pequenos ou novos países, assinaram a Declaração Européia de Direitos Humanos ou a Declaração de Direitos Humanos das Nações Unidas. Existe discussão em torno da inclusão de direitos tais como o direito de viver sem poluição ambiental.        

TOLERÂNCIA  

Tolerância é respeito, aceitação e reconhecimento da rica diversidade das culturas do nosso mundo, formas de expressão e maneiras de ser “Ser Humano”. Tolerância é harmonia na diferença. É adotada pelo conhecimento, abertura, comunicação e liberdade de pensamento, consciência e credo. Tolerância é serem vocês próprios sem impor os seus pontos de vista aos outros. Tolerância não é ceder nem desistir. Tolerância é sobretudo uma atitude ativa preparada pelo reconhecimento dos direitos humanos universais e liberdades fundamentais dos outros. A prática da tolerância não quer dizer tolerância com a injustiça social nem o abandono ou enfraquecimento de convicções pessoais. A tolerância nem sempre é um conceito positivo. Os significados mais tradicionais da palavra tolerância não incluem nem respeito nem aceitação.        

INTOLERÂNCIA
 

Intolerância é a falta de respeito pelas práticas ou crenças dos outros. Revela-se quando alguém não está disposto a deixar outrem agir de modo diferente ou defender opiniões diferentes. Intolerância pode querer dizer que há pessoas que não são tratadas de maneira justa por causa das suas crenças religiosas, a sua sexualidade, ou até as suas roupas e penteados. A intolerância não aceita a diferença. É o fundamento do racismo, do anti-semitismo, da xenofobia e da discriminação e geral. Conduz freqüentemente à violência.        

PRECONCEITO  

Quando se forma opinião acerca de uma pessoa, sem a conhecer, com base nas características assumidas do grupo ao qual julgamos que a pessoa pertence, é ser preconceituoso. Os preconceitos são idéias complexas que são representadas e presumidas sem que sejam provadas. A mente dos seres humanos não consegue funcionar completamente sem preconceitos. Ao tomarmos consciência dos preconceitos que temos podemos superá-los. Quando alguém é preconceituoso tende a ver apenas aquelas coisas que confirmam as suas idéias e assim fortalece o seu preconceito e os estereótipos em que acredita. Um estereótipo é um julgamento generalizado acerca das categorias das pessoas.        

DISCRIMINAÇÃO  

Discriminação é o julgamento de alguém e o agir de modo negativo em relação a essa pessoa com base em certas características irrelevantes tais como a cor da pele, o gênero, a sexualidade, a nacionalidade, a classe social, a etnia, etc.        

XENOFOBIA  

Literalmente ‘Xenofobias quer dizer medo de estranhos. A palavra é utilizada para descrever a hostilidade para com os imigrantes ou pessoas de grupos étnicos diferentes, assim como um falta de respeito pelas suas tradições e costumes.        

RACISMO  

Renascimento é a crença que algumas pessoas são superiores porque pertencem a uma raça particular. Os racistas defendem a raça enquanto um grupo de pessoas com ancestrais comuns. Distinguem as raças umas das outras através de características físicas como a cor da pele e a textura do cabelo. De fato não existem diferenças claras e especialmente não existem diferenças significativas que importem. Pesquisas recentes mostram que a raça é uma entidade imaginada. ‘Raça' não tem base biológica. A palavra ‘racismo' é também utilizada para descrever comportamentos abusivos ou agressivos contra membros das chamadas ‘raças inferiores'. O racismo assume diferentes formas em diferentes países de acordo com a história, a cultura e outros fatores sociais. Numa forma relativamente recente de racismo, por vezes apelidada de ‘diferenciação étnica ou cultural', afirma-se que todas as raças ou culturas são iguais mas não se devem misturar para assim poderem conservar a sua originalidade. Não existe qualquer prova da existência de raças diferentes. A biologia apenas determinou uma raça: a raça humana.        

FASCISMO  

Fascismo é um movimento político violento, reacionário, de direita, que se manifesta em ultima instância numa ditadura terrorista. O fascismo ganha apoiantes em todos os grupos sociais especialmente em tempos de crise econômica e política, destrói as liberdades democráticas e descrimina membros de minorias específicas e pessoas com pontos de vista diferentes. Os fascistas acreditam na liderança justa de um homem forte e não na democracia parlamentar. O fascismo constrói um forte nacionalismo que muitas vezes se torna racista. A forma mais brutal de fascismo foi a ditadura nacional socialista na Alemanha entre 1933-1945, mas não foi a única. A palavra ‘fascismo' foi cunhada pelo ditador italiano Mussolini. Naturalmente fala-se de fascismo com um ‘F' maiúsculo quando se fala desta ideologia específica neste contexto histórico específico e ‘fascismo' quando se fala acerca das famílias ideológicas genéricas. Aqueles que acreditam nesta ideologia hoje em dia são chamados ‘neo-fascistas'.        

NAZISMO  

Nazismo é a ideologia e a política do fascismo na Alemanha que se manifestou mais proeminentemente de 1933 a 1945, e que se caracterizou-se pelo racismo, anti-semitismo, totalitarismo, demagogia social, agressão, violência e ocupação de nações. A palavra nazismo é um diminutivo para nacional-socialismo, um movimento político na Alemanha liderado pelo NSDAP (Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialistas da Alemanha). O NSDAP foi fundado em 1919 e em 1933 tomou o poder na Alemanha. Foi considerado uma organização criminosa no julgamento de Nuremberga após a II Guerra Mundial. O regime nazi foi responsável pela morte de milhões de civis, parte dos quais foi gazeada em campos de concentração por causa das suas (presumidas) diferenças. Os grupos mais perseguidos foram os judeus, os ciganos, os homossexuais e os comunistas/socialistas. Ainda há alguns grupos que se identificam com as idéias do nazismo hoje em dia. São conhecidos como neo-nazistas. Os neo-nazistas manifestam-se como cabeças rapadas, mas nem todos os cabeça rapadas são neo-nazistas.        

NACIONALISMO
 

Nacionalismo é uma ideologia política que coloca os interesses de uma ‘nação' ou grupo nacional acima dos interesses das outras e acima de todas as outras relações, quer com a família, os amigos, o gênero ou a humanidade. Está muitas vezes relacionada com a aquisição de territórios. O Nacionalismo diferencia as pessoas com base numa fronteira, que por vezes nada tem a ver com as pessoas que vivem na região mas com um rei ou outra autoridade que desenha uma linha num mapa. Esta idéia política proclama que os cidadãos de uma nação são superiores a outros e conduz muitas vezes a desconfianças entre nações. Uma forma extrema é o chauvinismo. Originalmente a noção de nacionalismo não era tão negativa, uma vez que também se relacionou com o desenvolvimento de direitos dos cidadãos e a emancipação das minorias oprimidas. Contudo quando o conceito passou a estar intimamente ligado à hereditariedade, identidade e ‘sangue' tornou-se uma idéia perigosa.        

PATRIOTISMO  

Patriotismo quer dizer ter orgulho de ser membro da sua própria nação, ou amar a sua nação. O Patriotismo nasce de uma atitude emocional para com a nacionalidade, a sua cultura e a sociedade. A amizade com outros países e nacionalidades é possível nesta maneira de pensar, e pode respeitar os seus direitos e interesses. Embora seja diferente do nacionalismo, o patriotismo pode facilmente tornar-se o motor de um nacionalismo intolerante.        

INTERCULTURALISMO  

É a crença que nos podemos tornar pessoas mais ricas através do conhecimento e da participação noutras culturas. Diferentes pessoas deviam poder viver juntas apesar de terem diferentes passados culturais. O inter-culturalismo refere-se à aceitação das e ao respeito pelas diferenças. As pessoas que defendem o interculturalismo acreditam que podem aprender e beneficiar com o encontro de culturas.        

MULTICULTURALISMO  

Multiculturalismo refere-se à aceitação ou à promoção da aceitação da existência de diferentes culturas lado a lado num país. Muitas pessoas usam este conceito para se referirem a um futuro anti-racista. Mas o multiculturalismo pode também querer dizer o mútuo isolamento de culturas. Alguns racistas acreditam num tipo de multiculturalismo próximo do sistema de ‘apartheid' que existia na África do Sul onde diferentes culturas viviam separadas de um modo injusto e cruel.        

INTEGRAÇÃO 


 Integração é um processo de unificar indivíduos e atividades num novo sistema. Quer dizer que os grupos minoritários e o grupo majoritário desenvolvem um novo modo de vida, que inclui elementos e valores e idéias de ambos os grupos. A integração também quer dizer que toda a gente encontra o seu lugar na sociedade. Não existem divisões fundamentais entre os grupos.        

ASSIMILAÇÃO
 

Assimilação é a supressão de diferenças. Por vezes os indivíduos optam pela assimilação mas este processo é majoritariamente forçado a um grupo contra os seus interesses. A assimilação força um grupo a abandonar a sua cultura em favor de outra. Usualmente a minoria sobrepõem-se à maioria.        

ILEGAL  

A maioria das pessoas na nossa área de trabalho não usa o termo ilegal mas refere-se a uma pessoa que não tem os documentos certos como ‘sans-papiers' (que significa literalmente ‘sem-papéis'). Alguns podem ser ilegais porque entram no país sem autorização ou não têm um licença de residência enquanto vivem no país, ou porque o governo decide mudar as regras e subitamente o direito a permanecer é retirado.        

Unidos para a Ação Intercultural - Rede Européia contra o nacionalismo, o racismo, o fascismo e para o apoio aos migrantes e aos refugiados.
Fonte: www.esquerda.net - 09.04.2007

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                                                               Leia também:  Estudando o Racismo

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