Atlanta, 1935. Uma cabecinha encarapinhada vagava com sua
candura perspicaz pela Auburn Avenue. O olhar perturbador, o passo medido. O
menino, o pensamento longe, às vezes interrompia o passeio para jogar a bola
que levava entre o braço e o peito. Improvisava acrobacias e batia a bola ao
mesmo tempo que declamava passagens do Livro da Sabedoria: "Amai a
justiça, vós que julgais a terra, pensai no Senhor com retidão, procurai-o com
simplicidade de coração".
Em
seguida, mudando de atitude, tornava a pôr a bola debaixo do braço. Apesar de
jovem, o garotinho sabia efetivamente que, mesmo sendo sagradas, as Escrituras,
das quais as pessoas se desviam, não deixavam de ser vãs. E por mais de um
motivo.
Filha de Adam Daniel Williams, o pastor da igreja batista de
Ebenezer, que desde a década de 1910 militava na NAACP (Associação Nacional
para o Progresso de Pessoas de Cor), sua mãe, Alberta, inculcou-lhe os
princípios da moral evangélica. Oriunda de um meio privilegiado, ela havia
freqüentado os melhores colégios. Ainda que sempre denunciasse a discriminação
racial, a verdade é que nunca as sofreu diretamente. No dia 25 de novembro de
1926, casou-se com Mickael Luther King, filho de um meeiro de Stockbridge que
estava em Atlanta para estudar.
Antecipando-se ao sonho igualitário do filho, Mickael, que
trocaria o nome por Martin, teve participação na luta pela emancipação do povo
negro. "Meu pai [...] decidiu nunca mais entrar num ônibus da cidade por
ter presenciado certas brutalidades de que eram vítimas os passageiros negros.
Foi ele que assumiu o comando da luta [...] pela igualdade de salários dos
professores e teve um papel preponderante, nos tribunais, para que se
eliminasse a segregação nos elevadores", recordaria King ao receber o
Nobel da Paz.
Em 1931, com a morte de Williams, seu genro o sucedeu à
frente da paróquia de Ebenezer. Martin Luther King pai conquistou a confiança
da comunidade negra e a estima reticente dos brancos. Alberta e ele cuidavam
zelosamente dos três filhos. Longe dos guetos, Christine, Adam Danmiel Jr. e,
naturalmente, o caminhante da Auburn Avenue tiveram uma infância mimada de
classe média. "Meu pai, que punha a família acima de tudo, sempre nos
proporcionou o necessário. Embora tivesse apenas um salário normal, seu segredo
era ser mestre na arte de [...] administrar o orçamento. [...]A vida me foi
dada como um presente de Natal", comentou certa vez King.
Nascido em 15 de janeiro de 1929, Mickael, que, tal como o
pai, posteriormente adotaria o nome Martin, começou freqüentando escolas públicas
da capital da Geórgia. Não tardou a amargar a experiência da segregação. Na
escola, o menino não compreendia que teria de se afastar do companheiro de
brinquedos, um aluno branco com o qual gostaria de dividir a carteira: "A
ruptura se consumou quando ele me contou que seu pai o havia proibido de
brincar comigo. Nunca vou esquecer o choque imenso que isso me causou".
Em 1944, ao concluir um curso brilhante num estabelecimento
de ensino secundário da cidade, ingressou no colégio universitário de Morehouse,
onde já o precediam "três gerações de King". Optou pela teologia. No
dia 25 de fevereiro de 1948, foi ordenado no templo de Ebenezer. "Eu me
criei na religião. Meu pai é pastor, meu avô era pastor, meu bisavô era pastor,
meu único irmão é pastor, o irmão de meu pai é pastor. Portanto, eu não tinha
escolha", explicou. Promovido a assistente na paróquia do pai, Luther King
continuou o estudo de sociologia. No mesmo ano, trocou Morehouse por Chester,
na Pensilvânia.
Lá se matriculou no seminário de Crozer, onde se diplomou em
teologia em 1951. A seguir, decidiu aprimorar a formação na universidade de
Boston. E, enquanto se dedicava à redação de uma tese, apaixonou-se por uma
estudante de musicologia, Coretta Scott, com quem se casou pouco depois. Martin
Luther King pai abençoou o casal em 18 de junho de 1953. Dessa união nasceram
Yolanda Denise, apelidada Yoki (1955), Martin Luther III (1957), Dexter Scott
(1961) e Bernice Albertine (1963).
Inicialmente, o jovem casal se fixou em Montgomery
(Alabama), onde, apesar da forte tensão social, King aceitou, em 1954, o
ministério pastoral de Dexter Avenue.
Imbuído da obra dos grandes filósofos (Platão, Aristóteles,
Rousseau, Locke), do sociólogo Walter Rauschenbusch e do pensamento de seu
mestre, Gandhi, concluiu, paralelamente, o trabalho de pesquisador.
A
universidade de Boston acabava de lhe conferir o título de doutor quando
irrompeu um conflito racial cuja violência haveria de orientar todo seu
pastorado. No dia 1o de dezembro de 1955, Rosa Parks, costureira de 42 anos
[que morreria no final de 2005 com 92 anos], tomou um ônibus a fim de voltar do
trabalho para casa. O veículo não tardou a ficar lotado. O motorista não teve
dúvidas em mandá-la ceder o lugar a um passageiro branco. Ainda que
educadamente, Rosa Parks recusou se levantar. Foi presa imediatamente. Ativista
dos direitos civis de grande influência na comunidade negra, Edgar Daniel Nixon
interferiu, encarregando-se de pagar a multa a que Rosa Parks fora condenada.
Os chefes de clãs e os pastores se mobilizaram para
defendê-la e fundaram o MIA (Movimento pelo Progresso de Montgomery), à frente
do qual colocaram Martin Luther King. Enquanto se organizava o boicote dos
ônibus, King esboçou sua doutrina da não-violência - "Amai vossos inimigos,
abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos caluniam" - e, pouco a
pouco, erigiu-se defensor dos negros dos Estados Unidos.
A municipalidade procedeu a prisões em massa (de numerosos
pastores, entre os quais o próprio King) que, longe de abafar o fato, chamaram
a atenção da imprensa. A empresa de transporte coletivo de Montgomery ficou à
beira da falência. As autoridades pressionaram King para que pusesse fim ao
boicote. Sucediam-se as intervenções e as intimidações. Em janeiro de 1956, seu
domicílio chegou a ser alvo de um atentado. King resistia. No entanto, em 4 de
junho de 1956, o tribunal federal do distrito condenou as normas
segregacionistas vigentes no transporte coletivo.
O prefeito recorreu à Suprema
Corte, que, no dia 13 de novembro seguinte, confirmou a sentença. Naquela
noite, os capuzes brancos e as violências da Ku Klux Klan não intimidaram
ninguém.
No entanto, ainda não era o caso de se acomodar numa
presunção de vitória. A partir de janeiro de 1957, os porta-vozes de dez
estados sulistas se reuniram para fundar a SCLC (Conferência dos Dirigentes
Cristãos do Sul). King foi eleito seu presidente. A organização apoiava sua
luta no respeito generalizado às novas disposições legais em matéria de
transporte coletivo e no direito de voto dos negros. Incansável, ele percorreu
os Estados Unidos, tendo pronunciado mais de cem discursos em um ano. Discípulo
de Gandhi, pregava a não-violência. Sabia que "o sofrimento tem o poder de
converter o adversário e de abrir seu espírito que, do contrário, permanece
surdo à voz da razão". Publicou seu livro Combates pela liberdade em 1958,
envolto num humanismo confiante, seu credo pacifista.
Mais do que nunca, King foi alvo de acusações. No dia 20 de
setembro de 1958, manipulada por uma campanha de difamação arquitetada contra
ele, uma doente mental, que o supunha comunista, cravou-lhe um corta-papel no
peito. O pastor escapou à morte por um triz. Interpretando essa agressão como
um sinal, decidiu viajar à Índia, a fim de sincronizar seus passos com os de
Gandhi. À margem do Ganges, King entreviu "a luz que pode brilhar nas
trevas". Tanto que, no fim de sua peregrinação, anotou em seu diário:
"O caminho da submissão conduz ao suicídio moral e espiritual. O caminho
da violência conduz os sobreviventes ao rancor e os destruidores à
bestialidade. Mas o caminho da não-violência leva à redenção [...]".
Reforçado em suas convicções, King retornou ao Alabama. Ali,
em breve, seria obrigado a fazer uma escolha. Como a presidência da SCLC
conflitava cada vez mais com sua atividade pastoral, voltou a Atlanta, onde, em
1960, passou a ser pastor adjunto da igreja de Ebenezer.
A partir de então, a
ação militante se alastrou por todo o Sul. Tal como Montgomery, Greensboro foi
palco de uma revolução em desenvolvimento. Nessa cidade da Carolina do Norte,
quatro estudantes negros desafiaram a polícia, "sentando-se no
interior" de um restaurante, apesar das leis segregacionistas. Foi o
início dos famosos sit-in. Esse movimento se estendeu a dezenas de cidades. E,
mesmo sem ter sido seu instigador, King participou do rápido desenvolvimento do
movimento estudantil. Preso numa manifestação em Atlanta, foi condenado a
quatro meses de trabalho forçado na penitenciária de Reidsville (Geórgia). Mas
Robert Kennedy, preocupado com a disputa da presidência da qual participava seu
irmão, obteve do juiz a anulação da pena. Mediante o pagamento de fiança, é
claro.
Para comprovar a eficácia da não-violência, King lançou a
campanha de Birmingham em 1963, visando à dessegregação dos cafés e das grandes
lojas de departamentos. Tratava-se de aplicar um golpe fatal contra a
discriminação na própria cidadela da Ku Klux Klan. Em 12 de abril, foi preso
por infração da proibição das passeatas.
Pressionado pelas autoridades religiosas brancas para pôr
fim às agitações, endereçou-lhes, no dia 19 de abril, uma Carta da prisão de
Birmingham, que viria a ser o manifesto do Movimento pelos Direitos Civis.
"Uma lei injusta é uma lei humana sem raízes na lei natural e eterna. Toda
lei que eleva a personalidade humana é justa. Toda lei que impõe a segregação é
injusta porque a segregação deforma a alma e prejudica a personalidade."
John Kennedy, agora inquilino da Casa Branca, e o irmão Bob intervieram uma vez
mais para tirá-lo da prisão.
Em 20 de maio, a Suprema Corte declarou inconstitucional a
legislação segregacionista de Birmingham. Algumas semanas depois, Kennedy
anunciou uma nova legislação sobre os direitos civis. No dia 28 de agosto,
realizou-se a Marcha sobre Washington, no fim da qual Martin Luther King fez
seu mais célebre discurso: "Eu tenho um sonho". Porém, em 22 de
novembro seguinte, King viu no assassinato de John Kennedy a premonição de seu
próprio fim: "É o que também vai acontecer comigo. Esta sociedade está
doente!" Mesmo assim, em 2 de julho de 1964, viajou a Washington para
presenciar a assinatura da lei dos direitos civis (o Civil Rights Act) pelo
presidente Lyndon Johnson.
Porém, sem o direito às urnas e à mercê da pobreza endêmica,
as gerações de negros continuavam vivendo à margem da prosperidade. No dia 14
de outubro de 1964, Martin Luther King recebeu o Nobel da Paz. Encarou a
distinção como o reconhecimento da legitimidade de sua luta pela comunidade
internacional. "Aceito hoje o prêmio com uma fé inquebrantável nos Estados
Unidos e com uma fé inabalável no futuro da humanidade [...]", disse na
cerimônia de 10 de dezembro, em Oslo. Simultaneamente, J. Edgar Hoover, o chefe
do FBI, contrariado com tantas homenagens, ameaçou: "Devemos segui-lo
passo a passo [...] como o negro mais perigoso para o futuro deste país."
Sem embargo, Martin Luther King organizou a marcha de Selma,
em 25 de março de 1965, que foi "o mesmo que Birmingham em 1963. Estava em
jogo o direito de voto, que substituiu o problema do transporte coletivo no
espírito de um vasto povo ansioso [...] por ter voz na questão do seu próprio
destino." Depois de dezenas de marchas de protesto e de algumas centenas
de mortos, Johnson assinou o Voting Rights Act, que condenava a segregação nos
locais públicos e protegia o direito de voto dos negros.
No dia-a-dia, tais medidas não passavam de ilusão. Embora
não tivesse perdido o carisma, King convencia cada vez menos. Desanimado,
traído, passou a radicalizar suas posições e a pregar "a participação no
poder". Em 1967, declarou-se contrário à Guerra do Vietnã, atitude que
provocou divergências no seio da SCLC e suscitou a desconfiança do FBI.
Quando organizava a Marcha dos Pobres sobre Washington, King
decidiu ir a Memphis (Tennessee) levar seu apoio aos lixeiros em greve que
haviam sido reprimidos. Um morto, prisões em massa. Caminhou pela última vez
com os oprimidos. No dia 3 de abril de 1968, fez o último discurso no templo do
bispo Charles J. Mason: "Pouco importa o que me acontecer agora, pois já
cheguei ao cume da montanha [...] Olhei à minha volta. E vi a Terra Prometida.
Pode ser que não entre nela com vocês [...] Estou feliz esta noite [...] Nada
me preocupa [...]"
No dia seguinte, detendo-se junto ao balcão do Motel
Lorraine, ele falou a um amigo que passava: "É claro que esta noite, você
vai tocar Senhor, segura a minha mão. Toque-a bem para mim". Nesse exato
momento, ouviu-se um disparo. King tombou com um buraco na garganta.
PASCAL MARCHETTI-LECA é professor na Universidade da
Córsega e autor de Innominata (Dcl, 2001)
Em 28 de agosto de
1963, Martin Luther King, um pastor negro americano, sonha com um mundo onde
haja liberdade e justiça para todos. Ele é assassinado em 4 de abril de 1968.
Sua memória é um vibrante símbolo da luta contra o racismo.
Memphis,
Tennessee, 3 de abril de 1968. O discurso de Martin Luther King na véspera do
seu assassinato é uma mensagem de esperança aos seus irmãos negros, em um país
dominado pelo racismo.
Em seu discurso ele diz: "Temos de enfrentar
dificuldades, mas isso não me importa, pois eu estive no alto da montanha. Isso
não importa. Eu gostaria de viver bastante, como todo o mundo, mas não estou
preocupado com isso agora. Só quero cumprir a vontade de Deus, e ele me deixou
subir a montanha. Eu olhei de cima e vi a terra prometida. Talvez eu não chegue
lá, mas quero que saibam hoje que nós, como povo, teremos uma terra prometida.
Por isso estou feliz esta noite. Nada me preocupa, não temo ninguém. Vi com meus
olhos a glória da chegada do Senhor".
No dia seguinte ao discurso cheio
de premonições, Dr. King foi assassinado por um homem branco. Sua esposa, D.
Coretta, fez o seguinte comentário: "Ele lutou com todas as forças para salvar a
sociedade de si mesma"
É outra marca na história dos Estados Unidos,
cinco anos após o assassinato de John Kennedy. Dessa vez é Martin Luther King,
detentor do prêmio Nobel da Paz, defensor dos negros americanos e apóstolo da
não-violência. Ele lutou durante catorze anos para acabar com a segregação
social dos negros, que envenenava os Estados Unidos desde a Guerra
Civil.
King conseguiu convencer a maioria dos negros que era possível
haver igualdade social mantendo-se o respeito à mensagem de amor da Bíblia. Seu
assassinato foi um golpe fatal na luta da não-violência.
O princípio
fundamental da Declaração da Independência Americana é "Todos os homens são
iguais". Alguns dias após a morte de Martin Luther King, o presidente Lyndon
Johnson assina uma lei acabando com a discriminação social. O sonho de uma
sociedade mais justa de milhões de negros americanos.
"Por isso estou
feliz hoje. Nada me preocupa, não temo ninguém. Vi com meus olhos a chegada do
Senhor", foram as últimas palavras de Martin Luther King.
Cem anos depois
da abolição da escravatura, quando os negros americanos ainda não tinham plenos
direitos, Martin Luther King conseguiu que sua causa saísse
vitoriosa.