As
Filosofias Africanas e a Temática de Libertação
Euclides André Mance(1) IFIL - Instituto de Filosofia da Libertação
1. Filosofia Africana e
Filosofia Latino-Americana: Autenticidade e Libertação.
A preocupação dominante na reflexão de
significativa parcela de filósofos africanos(2)
a partir dos anos 50, em especial nos anos 60 e 70, foi elaborar uma filosofia
própria, africana, enraizada em seu contexto histórico e social que sofria
transformações profundas com o processo de descolonização pelo qual passavam
vários povos africanos(3). Marcada pelas
condições contextuais do próprio exercício do filosofar, tal elaboração girava
- segundo alguns comentadores - em torno de dois aspectos:
"a) O exame das
condições necessárias para a emergência de uma verdadeira filosofia africana.
b) A insistência sobre o problema das transformações culturais e, no sentido
mais amplo, sobre a questão política" (4).
Curiosamente, muitos temas tratados por filósofos
africanos deste período são semelhantes aos tratados por filósofos
latino-americanos na mesma época. Entre eles estão o caráter e a finalidade da
filosofia, o mimetismo na cultura colonizada, a alienação cultural, a relação
entre o Eu e o Outro fora dos parâmetros da racionalidade européia, a distinção
de uma razão branca e uma razão negra, a relação entre filosofia e revolução, a
questão da consciência e libertação nacionais, a dialética da identidade,
diversidade cultural e humanismo, filosofia e religião, filosofia e
subdesenvolvimento, a filosofia como fator de libertação e a responsabilidade
do filósofo em meio ao seu contexto histórico.
O intercâmbio filosófico entre
o pensamento africano e latino-americano de libertação nas décadas de 60 e 70
ficou restrito a alguns autores, mas foi contudo marcante. Um estudo mais
aprofundado sobre essas influências ainda está por ser feito. Não se encontram
referências - na maioria das obras de filosofia latino-americana de libertação
elaboradas no período - aos vários pensadores africanos que refletiam sobre
problemas similares, salvo algumas exceções.
Encontramos, por exemplo, citações
de Frantz Fanon, Léopold Senghor, Aimé Césaire, entre outros, nos textos de
Salazar Bondy, Leopoldo Zea, Enrique Dussel e de alguns outros filósofos da
libertação. Mais do que meras citações, várias teses defendidas por pensadores
africanos foram incorporadas em algumas vertentes da filosofia latino-americana
de libertação.
As reflexões de Fanon sobre a consciência do colonizado são
evidentes em trabalhos de Salazar Bondy e Enrique Dussel; o tema da negritude,
por sua vez, floresce na obra de Zea, articulando-se ao tema do indigenismo e
da humanidade concreta.
Assim, no memorável debate com
Leopoldo Zea em um Simpósio de Filosofia Latino-Americana realizado em Buenos
Aires em 1972, Augusto Salazar Bondy, por exemplo, cita pensadores africanos e
latino-americanos ao analisar que a filosofia historicamente prestou-se a
servir como elemento mediador de processos de dominação mas que também pode ser
reelaborada sob uma perspectiva libertadora.
Destaca o pensador peruano que é
necessário refletir criticamente a
realidade latino-americana para que nossa filosofia possa vir a tornar-se
filosofia de libertação, contribuindo criticamente na superação da dependência
e alienação. Tal libertação, contudo, não pode resumir-se a um conceito
estreito: "Temos que libertar, porém de verdade, no sentido de libertar a
humanidade: essa é quiçá, a mensagem do Terceiro Mundo. Pela primeira vez, o
Terceiro Mundo pode libertar-se libertando ao outro: o que Fanon, Senghor e Che
disseram: - Senhores europeus, tomamos-lhes a palavra, vamos libertar o homem,
e vocês também de seus próprios esquemas de dominação. Essa é uma maneira de
dispor de uma tradição: negando-a na real falsificação de sua aplicação; é uma
maneira de repensar o pensamento ocidental."(5).
Esta
maneira de compreender a filosofia como elemento de libertação do Terceiro
Mundo e de todo homem, de afirmação de uma humanidade concreta que se realiza
como diversidade de culturas é comum a várias vertentes da filosofia da
libertação, bem como a algumas elaborações de pensadores africanos daquele
período.
Resgataremos aqui uma pequena
parcela dessas reflexões elaboradas desde a África, destacando alguns elementos
que são recorrentes na filosofia latino-americana da libertação e outros que se
configuram como contribuições à reflexão sobre a práxis de libertação na
América Latina, tanto pelas posições argumentadas quanto pelas questões que
suscitam.
2. Edward Blyden e a
Crítica ao Mimetismo Servil.
Edward Blyden (1832-1912)
foi, provavelmente, o primeiro filósofo africano a tratar - de maneira mais
aprofundada - o mimetismo servil, a alienação cultural dos negros africanos e a
necessidade de mudanças do método pedagógico de ensino(6).
Embora críticas possam lhe ser feitas quanto sua luta pela
emigração dos negros da América para a África (7)
e devam lhe ser feitas quanto suas análises sobre os perigos da contaminação
racial dos povos africanos pela influência européia ou quanto a outros pontos
polêmicos, o fato é que este pensador nascido em 1832 em São-Tomás, nas
Antilhas Dinamarquesas, escreveu alguns textos que ainda hoje guardam
atualidade no contexto dos povos dependentes.
Segundo Blyden, os sistemas e métodos de educação
européia a que eram submetidos os negros, especialmente nos países cristãos,
eram um mal que precisava ser corrigido. Em sua maior parte, os negros que
viviam em países estrangeiros contentavam-se em ser espectadores passivos das
ações dos outros povos; a educação que recebiam acabava produzindo neles mesmos
uma dúvida sobre sua própria capacidade e destino pessoais, transformando-lhes
a estrutura intelectual e social.
Lendo e estudando escritos estrangeiros,
tomavam o que era exaltado nessas obras como referência para o que podiam ou
deviam fazer, esforçando-se por copiar e imitar o que se lhes era apresentado.
Neste sistema de educação, a opinião comum entre os negros era que "o mais
importante no conhecimento consiste em aprender o que outros homens -
estrangeiros - dizem sobre as coisas, e inclusive, sobre a África e sobre os
próprios negros. Eles [ os negros ] aspiram familiarizar-se, não com o que é
realmente, mas com o que está impresso" nos livros que lêem (8).
Nesses livros aprendiam que o
negro era um ser inferior, degradado, que não conseguia aprender, por si
próprio, o que o poderia elevar, esclarecer e refinar. Contestando a essa
situação destacava Blyden que os negros têm uma história escrita por eles
próprios e que a ordem verdadeira das coisas consiste em primeiro fazer a
história, para em seguida escrevê-la.
Tratava-se, pois, de agir com vistas a
enfrentar a alienação cultural. Afirmava ele que para a nação africana fazer-se
independente era preciso escutar o canto simples dos irmãos, que resgatavam a história, a tradição, os eventos maravilhosos e
misteriosos da vida tribal ou nacional, as superstições, recuperando a força da
raça, da cultura. Era preciso aproximar a universidade desses
elementos, dessa realidade. Com isso, os estudantes poderiam deslocar sua
atenção daqueles livros e se misturar aos irmãos, propiciando uma nova
inspiração, idéias novas e vivas.
3. Léopold Sédar Senghor e
a Questão da Negritude
Léopold Sédar Senghor,
nascido em 1906 no Senegal desenvolveu, além de atividades literárias, uma
dupla trajetória como docente e político, tornando-se professor de Línguas e
Civilizações Africanas na École de France d'outre-mer e, após exercício
parlamentar, vindo a ser presidente da República do Senegal.
O percurso de suas
obras teóricas é similar ao de alguns filósofos da libertação no que se refere
à sucessão das temáticas, ressalvado-se apenas o caráter de se referir à África
e não à América Latina. Em 1961 escreve Nação e Caminho Africano do
Socialismo; três anos depois escreve Liberdade I, Negritude e Humanismo;
em 1976, publica Para uma Releitura Africana de Marx e de Engels(9).
Comenta Aimé Césaire sobre a origem do conceito
de negritude que sua criação " ... correspondia a uma necessidade... o
negro na França via uma espécie de assimilação diminuída em nome do
universalismo que ameaçava suprimir todas as características nossas. Dito de
outro modo, estávamos ameaçados por uma terrível depersonalização" (10).
Isso era muito grave em razão do momento
histórico em que se debatia o problema da descolonização de povos dominados por
países ocidentais(11). A negritude
afirmava que o homem negro era tão homem quanto qualquer outro e que havia
realizado obras culturais de valor universal, às quais, os que empunhavam a
negritude queriam ser fiéis. "Cada povo - diz Senghor - não desenvolveu
mais que um ou vários aspectos da condição humana.
A civilização ideal seria
aquela que, como esses corpos assim divinos surgidos da mão e do espírito do
grande escultor, reunisse as belezas reconciliadas de todas as raças"(12).
Senghor foi um dos maiores
divulgadores da negritude, que se consolidava como um movimento cultural
de resgate/construção da identidade negra, buscando desvelar a alma negra cuja
característica essencial seria a emoção: "A emoção é negra, assim como a
razão é helênica" (13).
A atitude do
negro frente ao mundo e aos outros é de abandono e comunhão. Em si o negro é um
campo de impressão, que através da sensibilidade descobre o outro. Da mesma
forma que nesta interação ele não vê o objeto, mas o sente, " é na sua
subjetividade, no limite de seus órgãos sensoriais que ele descobre o
outro" (14). A emoção, como Senghor a
define, é o que possibilita o elevar-se a um estágio superior de consciência. A
emotividade é o elemento essencial e constitutivo do negro.
A partir dela
Senghor constrói uma metafísica, trata da religião e demais elementos da
cultura negra e particularmente do estilo negro-africano que tem por
características peculiares a imagem e o ritmo. Azombo-Menda e Enobo Kosso,
citando e comentando Senghor nos esclarecem essas teses.
" As atividades
técnicas e as relações sociais refletem a psicologia própria ao negro africano
cuja emoção consiste em um 'apoderar-se do ser integral - consciência e corpo -
pelo mundo irracional, irrupção do mundo mágico no mundo da determinação'.
Enfim,
a razão negra se distingue da razão branca por que ela percorre as artérias das
coisas para se 'alojar no coração vivo do real' : 'A razão européia é analítica
por utilização, a razão negra, intuitiva por participação' . Em suma, é da
especificidade biológica do negro e de sua sensibilidade que Senghor deduz a
conduta, a cultura e a razão negro-africanas"(15).
Analisemos um pouco mais a
relação entre o Eu e o Outro através da simpatia e da distinção entre razão
branca e negra.
A afirmação de Senghor que o negro não vê o objeto, mas o
sente, deve ser entendida considerando-se o homem negro como um campo
sensorial, sendo realizada na sua subjetividade a descoberta do Outro. Neste
campo sensorial há um movimento centrífugo do sujeito ao objeto, e neste caso,
do eu sobre as ondas do Outro. Esta figura não é de forma alguma uma metáfora,
pois como destaca Senghor, a física contemporânea descobriu a energia sob a
matéria em forma de ondas e radiações:
"Eis pois o Negro-africano, o qual
simpatiza e se identifica, o qual morre para si a fim de renascer no outro. Ele
não assimila, ele se assimila(16)
.
Ele vive com o outro em simbiose, ele co-nhece o outro...(17) Sujeito e objeto são, aqui, dialeticamente
confrontados no ato mesmo do conhecimento, que é ato de amor. 'Eu penso, então
eu existo', escrevia Descartes. A observação já foi feita, pensa-se sempre alguma
coisa. O Negro-africano poderia dizer: 'Eu sinto o Outro, eu danço o Outro,
então eu sou.' Ora, dançar é criar, sobretudo quando a dança é dança do amor. É
este, em todo o caso, o melhor modo de conhecimento." (18)
Quanto à razão negra e à branca, Senghor destaca
que o negro é um homem da natureza, vivendo tradicionalmente da terra e pela
terra, no cosmos e pelo cosmos.
Por sua sensibilidade é um sujeito que se
relaciona com o objeto sem intermediário, sendo sujeito e objeto
simultaneamente. O Negro é "sons, odores, ritmos, formas e cores; eu digo tato
antes de ser visão, como o Branco europeu. Ele sente mais do que vê: ele se
sente. É em si mesmo, em sua carne que ele recebe e experimenta as radiações
que emite todo existente-objeto. Movido, ele responde ao apelo e se
abandona, indo do sujeito ao objeto, do eu ao Tu sobre as ondas do Outro"(19) . O eu não assimila o outro, mas se
identifica com o outro. Isto se dá porque a razão negra não é discursiva, mas
sintética, não sendo antagonística, mas simpática(20)
.
4. Stanislas Adotevi e a
Identidade Histórica dos Povos Negros
Com o passar do tempo, o movimento original da
Negritude acabou sendo desviado, por pensadores reacionários, que começaram a
defender uma tese fixista sobre a natureza do negro. Frente a este desvio e
questionando teses senghorianas, Stanislas Adotevi defende uma concepção do
negro que articula de maneira indissociável a identidade e a história dos povos
negros.
Destaca o autor que a particularidade negra é que, entre todos os
explorados, os negros foram os mais explorados: o que o negro produz em seu
trabalho, reproduz a sociedade dos outros, mas não lhe é retribuído para viver
plenamente sua dignidade. Foi o negro quem fez a riqueza agrícola dos Estados
Unidos e que submetido aos imperialismos possibilitou a opulência escandalosa
de tais impérios. Não há como tratar de nenhuma particularidade negra fora
desta particularidade histórica.
Sendo a história e a identidade do homem
intrinsecamente vinculadas, a identidade negra constrói-se historicamente e
historicamente deve ser compreendida. Contudo os negros devem tornar-se
sujeitos históricos que mudem o curso da história vivida, em que foram
reduzidos a mero objeto em processos de exploração e opressão que marcaram sua
particularidade.
A única possibilidade que o negro tem de ser ele para ele
próprio, de adquirir sua identidade, repousa na necessidade que tem de produzir
os meios de realização de sua própria história:
"... a posse de si por si
mesmo que ele busca na 'particularidade' deve impulsioná-lo a exigir uma ação
que coloque fim ao sistema histórico que o tem situado fora da história.
O
reconhecimento da identidade negra passa necessariamente pela reapropriação
prática de sua essência de homem e, naturalmente, pela destruição do sistema
que o tem negado enquanto homem. ...A tomada de consciência do negro deve
significar uma mudança do curso das coisas, uma nova interpretação da cultura,
uma orientação nova da existência: uma revolta consciente. Não mais se trata de
reconhecer ao negro uma existência teórica, mas de o reencontrar na
afirmação contra sua dupla negação: a escravidão e a colonização" (21).
Adotevi não pretende, portanto, que esta
afirmação se realize ao nível teórico de uma ciência antropológica, mas sim de
maneira prática na história real dos povos negros. A África dá ao negro a
consciência do que ele é: um Negro. O Negro, em troca, deve lutar para "
... tomar posse de si mesmo na intimidade coletiva de um sofrimento racial
imemorialmente negado".(22)
5. Frantz Fanon e a
Consciência do Colonizado
Frantz Fanon (1925-1961) nasceu na ilha de
Martinica, território francês situado na América Central. Ainda jovem, durante
a Segunda Guerra, percorreu a África do Norte como soldado. Retornando à
Martinica participou da campanha eleitoral de Aimé Césaire. Partindo para a
França em 1946, inscreve-se na Faculdade de Medicina de Lyon e aproveita sua
estadia também para adquirir uma formação sólida em filosofia e literatura,
seguindo cursos de Jean Lacroix e de Merlau-Ponty, bem como, lendo obras de
Sartre, Kierkegaard, Hegel, Marx, Lênin, Husserl e Heidegger, entre outras.
Após terminar o curso de medicina em 1951 retorna à Martinica e posteriormente
à França, onde se casa, partindo em seguida para a África, tornando-se
médico-chefe na clínica psiquiátrica de Blida-Joinville.
Torna-se argelino
engajando-se com os argelinos na luta pela libertação do país que sofria o jugo
colonial francês desde 1830. Várias vezes participou de congressos
pan-africanos como membro da delegação da Argélia, tornando-se um importante
porta-voz do país. Contraindo leucemia em 1960, continua suas atividades
intelectuais, vindo a morrer em dezembro de 1961 (23).
A independência da Argélia ocorrerá no ano seguinte, em 1962.
Utilizando o conceito de alienação desenvolvido
por Hegel e Marx, Fanon analisa os mecanismos de dominação na formação da
consciência do povo colonizado, destacando os dois pólos antagônicos na
situação colonial: o colonizador e o colonizado.
Em Os Condenados da Terra,
Fanon escreve: " é o colonizador quem tem feito e continua a fazer o
colonizado. O colonizador tira sua verdade, isto é, seus bens, do sistema
colonial " (24). Este antagonismo é acentuado
pelo racismo contra o colonizado, tido como preguiçoso, impulsivo e selvagem. O
colonizado introjeta a dominação vivendo um complexo em que passa a negar-se
como negro a fim de se pretender um "negro-branco". Escreve Fanon:
"Todo povo colonizado,
isto é, todo povo no seio do qual se instala um complexo de inferioridade por
ter sido destruída a sua identidade cultural, fica em oposição à linguagem da
nação civilizadora, ou seja, da cultura metropolitana.
Quanto mais o colonizado
se amoldar aos valores culturais da metrópole, tanto mais se afastará da sua
própria cultura. Ele será tanto mais branco quanto mais tiver rejeitado sua
negrura... (...) O professor Westermann, em The Africain Today, escreve
que existe um sentimento de inferioridade dos Negros - que experimentam
sobretudo os evoluídos -, e que, sem cessar, eles se esforçam por dominar. A
maneira empregada para tanto é, acrescenta, freqüentemente ingênua: 'Vestir os
trajes europeus ou as roupas da última moda, adotar as coisas que os europeus fazem
uso, suas formas exteriores de civilidade, florir a linguagem com expressões
européias, usar frases pomposas em línguas européias, falando ou escrevendo,
tudo isso é feito para tentar ati
ngir um sentimento de igualdade com o Europeu
e seu modo de existência'" (25)
Oprimido pelas instituições
sociais e cindido de seu passado histórico, ao colonizado que vai se
conscientizando somente resta a alternativa da revolta aberta, retomando seus
valores tradicionais que, em razão do colonialismo, haviam sido despojados de
suas funções vitais.
Analisa Fanon que mesmo após a conquista da independência
pelas antigas colônias a mentalidade do antigo colonizado pouco muda.
Comentando tal passagem afirmam Azombo-Menda e Enobo Kosso que " ... a
nova burguesia que se cria nos jovens estados adota com respeito às massas a
mesma atitude que a dos antigos colonizadores: ela busca lucrar sobre o
trabalho das massas aldeãs que explora cinicamente"(26).
A burguesia colonial subdesenvolvida que toma o
poder ao fim do regime colonial, acaba mantendo a mesma dinâmica de dominação.
Frente a esta situação afirma Fanon que " em um país subdesenvolvido, uma
burguesia nacional deve, imperiosamente, trair a vocação à qual estava
destinada e se colocar à escola do povo, isto é, colocar à disposição do povo o
capital intelectual e técnico que ela recebeu durante sua passagem nas
universidades coloniais" (27), do
contrário continuará cinicamente numa postura anti-nacional.
Frente a essa situação Fanon
reflete sobre os elementos necessários à efetivação da soberania popular. É
preciso que um programa e uma nova concepção social e política adaptadas à
realidade concreta sejam apropriadas pelo povo em um processo de
conscientização: "Um programa é necessário a um governo que pretende verdadeiramente
libertar politicamente e socialmente o povo. Programa econômico, mas também
doutrina sobre a repartição das riquezas e sobre as relações sociais.
De fato,
é preciso uma concepção de humanidade."(28)
Os dirigentes, colocando-se a serviço do povo, devem mobilizar as massas a
atuarem contra as forças opressivas, contra todas as formas de alienação e
subdesenvolvimento: " o importante é que os homens adquiram a cada dia uma
consciência maior da necessidade de sua incorporação na sociedade e, ao mesmo
tempo, de sua importância como motor dela mesma" (29).
Esclarecendo sua concepção de
nacionalismo, Fanon explicita que necessariamente o governo deve estar a
serviço do povo: "A expressão viva da nação é a consciência em movimento
do conjunto do povo. É a práxis coerente e esclarecida dos homens e das
mulheres.
A construção coletiva de um destino é a assunção de uma
responsabilidade à dimensão da história... O Governo nacional, se ele quer ser
nacional, deve governar pelo povo e para o povo, para os deserdados e pelos
deserdados. Nenhum líder, qualquer que seja seu valor, pode substituir-se à
vontade popular e o governo popular deve, antes de se preocupar com o prestígio
internacional, restituir dignidade a cada cidadão..., encher os olhos de coisas
humanas, desenvolver um panorama humano porque habitado por homens conscientes
e soberanos." (30).
A reflexão de Fanon é sem dúvida penetrante. A
revolução argelina evidenciou perspectivas sobre a ação popular. Segundo ele a
revolução rendeu um grande serviço aos intelectuais, na medida em que os
colocou em contato com o povo, permitindo-lhes ver de maneira extremada
"...a inefável miséria do povo e ao mesmo tempo assistir o despertar de
sua inteligência, o progresso de sua consciência..." (31).
Alguns meses antes de morrer
Fanon escreve uma carta a Roger Tayeb, seu amigo, em que trata da questão da
morte e o sentido da vida. Ele diz que a morte sempre nos acompanha e que
"nós não somos nada sobre a terra, se não somos, desde logo, cativos de
uma causa, a dos povos, da justiça e da liberdade." (32)
6. Ébénézer Njoh-Mouelle:
a Filosofia como Fator de Libertação
Nascido em 1938 em Wouri-Bossua na República dos
Camarões, Njoh-Mouelle termina seu bacharelado em 1959, fazendo estudos
posteriores na França, versando seu doutorado sobre Bergson. Retorna a Camarões
em 1967 passando a trabalhar na École Normale Supérieure de Yaoundé,
tornando-se diretor da instituição em 1968 e posteriormente Diretor de Ensino
Superior vinculado ao ministério da educação a nível nacional, vindo a ocupar
em 1973 o posto de Secretário Geral da Universidade de Yaoundé (33).
Njoh-Mouelle escreve
considerando a inquietude da juventude africana frente ao porvir, pois embora o
colonialismo seja passado, o neo-colonialismo se afirma com seu padrão de conforto
consumista que a seduz e com um sistema de educação que lhe é imposto. Frente a
este contexto histórico surgem movimentos juvenis de contestação que não se
orientam à anarquia, no sentido negativo da palavra, mas a um questionamento
criativo da sociedade e da vida que se deseja, tratando-se, nas palavras de
Njoh-Mouelle, de um grito de liberdade.
A filosofia africana teria assim uma
difícil tarefa - como comentam Azombo-Menda e Enobo Kosso -, a tarefa de
contribuir para que a juventude pudesse "... compreender o mundo de onde
ela [a juventude] surge e no qual ela vive, a fim de que ela própria se torne
capaz de forjar o mundo por vir, um mundo melhor onde ela mesma possa
desabrochar em total liberdade." (34).
O contexto sócio-histórico dos
países africanos exige, portanto, uma filosofia peculiar que deve ser um
elemento ativo para o desenvolvimento integral que necessitam os povos
africanos, e não um pensamento de museu, apenas conservador.
A filosofia não
poderia se tornar uma mera pesquisa do passado, de visões de mundo: "o
filosofo que tem o oficio de conservador de museu é uma pseudo-filósofo, inútil
à sociedade. Pois a filosofia é, por essência, um ato reflexivo pelo qual
toma-se distância, desprende-se das determinações singulares e pegajosas para
criar perpetuamente o novo. A interrogação filosófica angustiada é um
interrogação que deve visar a abertura de novos caminhos" (35)
A análise filosófica de Njoh-Mouelle sobre o
desenvolvimento africano, parte de uma reflexão sobre a dura realidade da pobreza
ignorada e da miséria dos homens, desde as quais formula sua posição sobre o
tipo de homem a se realizar no movimento de mudança.
Sua concepção de
desenvolvimento não é aquela que toma vetores técnicos articulados sob teorias
científicas para calcular e quantificar realizações materiais de uma sociedade.
Seu critério é outro. O valor de referência é o plenamente humano:" o
homem enquanto um ser a libertar-se de todas as formas de servidão que travam
seu florescimento total"(36). É a
partir deste critério que se pode avaliar o valores tradicionais em seus
aspectos positivos ou negativos para o desenvolvimento, bem como delinear o
novo tipo de homem que terá no desenvolvimento econômico e social sua mediação
de realização.
Este novo homem não é aquele medíocre que, movido pelo seu
instinto de segurança, sacrifica a criatividade, nem o escravo da modernidade e
de seu esnobismo, que não abre espaço à liberdade criativa, nem mesmo o
"homem crítico" envolvido em um turbilhão de valores, vivendo um
estado de crise na inautenticidade das suas relações frente às crenças de seu
meio e frente à cultura de importação; muito menos é o homem humilhado na
miséria e sub-humanidade, na ignorância e analfabetismo que é sufocado pelos
efeitos da racionalidade.
Este novo homem, nas palavras de Azombo-Menda e
Enobo-Kosso "... é o homem-totalidade, o homem livre em uma liberdade
vivida como libertação perpétua, o homem sempre desperto e engajado na história
através da ação libertadora." (37). É
como o prisioneiro da caverna de Platão que caminha ao mundo do conhecimento
verdadeiro para depois retornar junto aos antigos companheiros para "...
ajudá-los a se libertarem e a transformarem o seu mundo".(38) Assim, o escopo principal do
desenvolvimento econômico e social é o melhoramento do homem enquanto tal e não
tanto a produção massiva de diversos bens de consumo, pois " ... a miséria
do homem não é suprimida pelo simples fato que ele sacie a sua fome.
O problema
da miséria ou da felicidade, ele mesmo, somente se coloca depois de satisfeita
a necessidade vital de comer." (39)
A filosofia torna-se, assim, um
fator de libertação. A filosofia como ciência do Ser enquanto tal parece a
Njoh-Mouelle insuficiente. Para o autor é valioso este momento de pensar o Ser
porque tal momento nos possibilita chegar ao fundamento das coisas, onde Ser,
verdade e valor se confundem. Contudo, salienta que
"... a filosofia não
pesquisa a verdade pelo prazer de pesquisar a verdade. Ela necessita que a
verdade encontrada se instaure na vida cotidiana, nas relações interindividuais
(...) O estetismo em filosofia é uma traição e ainda o sinal de uma alienação
no sentido que a fixação sobre o Ser enquanto Ser nos tira a liberdade de nos
voltarmos em suas especializações. Há um vai-e-vem necessário entre o Ser e os
seres, entre a contemplação da verdade e o estado real das coisas.
A fixação
sobre um desses pólos é uma forma de alienação”.
Sendo reflexão critica ao mesmo tempo que
intenção criativa, a filosofia tem como tarefa fundamental desalienar as
consciências. Toda consciência humana é, de uma maneira ou de outra, intenção.
Segundo o grau de consciência, segundo a clara percepção que cada um tem desta
consciência e de seu peso factual, nosso aprisionamento aos acontecimentos ou
nossa participação neles seguem o passo de um sobre o outro. O drama reside
principalmente no fechamento de um ser ao poder da história e na sua
transformação em um elemento inerte da história.
A filosofia aparece então como
um fator de libertação, um fator de desalienação. Intenção criativa, ela se
duplica também em um querer-fazer cuja inserção no mundo supõe o conhecimento
do mundo em questão, de onde o papel de interpretação do mundo sobre o qual nos
apoiamos"(40).
Para Njoh-Mouelle, a liberdade
não é um artigo de luxo, uma espécie de coroamento pela ação do homem. Pelo
contrário, " a liberdade... está toda inteira na ação que ela inspira,
engajada em uma história de múltiplos altos e baixos...
Não é a liberdade que
se possa alcançar definitivamente,... a verdadeira liberdade se experimenta e
se experimenta na ação libertadora, concreta. (...) Nós não rejeitamos -
enfatiza o pensador - que a liberdade implique o conhecimento de si e da ordem
do mundo; o que nós rejeitamos é a redução da liberdade a esse
conhecimento."(41). Todo homem, mais
sábio ou menos sábio é capaz de atos livres e a liberdade que vamos
conquistando progressivamente avança não apenas como movimento de consciência
que se expande mas como transformação da realidade concreta, em uma ação
histórica que visa o melhoramento de todo homem.
7. Conclusão
O conjunto das reflexões aqui
referidas é de grande importância para um estudo sobre o processo histórico de
emergência da filosofia da libertação. É sintomático que um mesmo conjunto de
temas, problemas e conclusões apareçam nos dois continentes que enfrentam
vários problemas semelhantes a partir de tradições distintas. Seria preciso
detalhar os principais elementos comuns ou similares aos dois contextos
históricos em que emergem tais reflexões filosóficas e investigar as influências
recíprocas e fontes comuns de inspiração destas elaborações.
Sem dúvida alguma, vários pensadores africanos
elaboraram trabalhos valiosos que podem servir de subsídio ao estudo da práxis
de libertação no contexto latino-americano(42).
As reflexões resenhadas nestas páginas, embora guardem diferenças evidentes,
possuem uma certa unidade. Em geral é perceptível a busca de uma inserção da
filosofia na ação histórica de libertação.
A radicalidade em tal coerência
levou uma parcela dos pensadores africanos referidos neste trabalho a
desenvolveram atividades não apenas pedagógicas visando uma desalienação
cultural - como em geral todos o fizeram - mas a ações de caráter
político-partidário que visavam superar estruturas de dominação e construir
espaços de hegemonia popular ou nacional.
Tal radicalidade evidencia-se no
próprio conteúdo da filosofia política e cultural destes pensadores, no
significado que ela possui para a práxis histórica de seus povos e no
compromisso vital dessas pessoas - em graus variados - com a construção de uma
nova sociedade(43).
Mais do que um passatempo
diletante, um jogo de elegantes raciocínios ou um brinquedo lingüístico, a
reflexão filosófica aqui explicitada busca recuperar um sentido do
verdadeiramente humano soterrado sob a negação da liberdade, sob a vivência
inautêntica dos códigos de uma cultura dominante, sob a tragédia cotidiana da
pobreza e da miséria das maiorias excluídas, os condenados da terra.
Uma
filosofia autêntica e lúcida o suficiente para afirmar que nenhum ser humano
pode ser humilhado ou usado, transformado em objeto útil, reduzido a uma coisa
que se descarta quando não tem mais serventia; um filósofo que a essa conclusão
chega, não pode negar sua própria verdade.
Assumi-la é um compromisso histórico
com a realização do humano em cada pessoa, em cada circunstância, a cada
momento. Essa talvez seja a identidade comum que podemos encontrar nessas
várias reflexões africanas e latino-americanas que cultivam a coerência entre a
teoria e a práxis almejando uma filosofia autêntica e ética, elemento
necessário à construção de relações sociais humanizadoras, à conquista - sempre
cada vez maior - da libertação pessoal e coletiva, à democratização radical da
política e da cultura, à participação mais igualitária de todos na fruição da
riqueza econômica.