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José Roberto da Costa nasceu em Cruzeiro aos 19 de Março de 1956. Filho de Osório da Costa Neto funcionário da FNV e Maria Margarida da Costa. Com 12 anos foi "almoceiro", entregava almoço para os empregados, nas empresas. Estudou até a 1ª. série ginasial, em Cruzeiro e fez cursos profissionalizantes. Queria ser "torneiro mecânico, mas acabou diplomando-se em Eletricista Industrial, em Taubaté-SP. Formou-se também: Carpinteiro, Soldador mig e diplomou-se em Segurança do Trabalho, especializado em Segurança Hospitalar, aos 24 anos.  

Casou-se em 1979 com Maria Elizabeth Marçal da Costa.  Em 1982 sofreu um grave acidente que afetou sua vista esquerda e motivou seu afastamento do trabalho e da área industrial por ter sido considerado 61% incapaz. A partir daí, passou a exercer a função de Eletricista de Manutenção,  atividade que o levou a trabalhar no Sanatório de Jesus, em Cruzeiro.  

Foi então que teve o primeiro contato com a área assistencial. Em pouco tempo estava envolvido com o atendimento das famílias dos internados e com os assistidos daquela instituição. Passou a colaborar com o Grupo de Laboterapia e Terapia Ocupacional, terminando finalmente envolvido com o trabalho social que passou a desenvolver dentro do Sanatório de Jesus, em paralelo com sua função profissional. 

Desde então, ocupar-se com o desenvolvimento de um projeto de lazer para os pacientes, atendendo principalmente aos que vinham dos chamados “Depósitos” de outras cidades, para Cruzeiro.  

José Roberto nos conta que muitos chegavam aqui sem nenhuma informação de identidade. Então escolhiam um nome para o interno e baseado numa avaliação médica, definiam uma idade e um dia como data de seu nascimento. Comemoravam então o aniversário de cada na data definida, organizando festas, bailes e jogos para o grupo. 

Lembrou de muitos pacientes e casos que acompanhou. Das famílias que conheceu lá dentro e contou-nos sobre Rafael José de Souza, nome que o internado recebeu quando aqui chegou. Rafael teve paralisia infantil. Era deficiente físico e acabou sendo tratado como filho, por ele. Depois de vários anos de convivência, Rafael foi transferido para Itapira e um tempo depois soube que ele havia morrido trancado num quarto, vítima de depressão.  

Pela proximidade, atenção e cuidado que dedicava aos internados, acabou despertando a inveja e criando rivalidades entre os demais funcionários dentro da Entidade. Passou a ser discriminado por receber um salário maior do que outros e viu crescer a insatisfação de alguns colegas de trabalho, que passaram a discriminá-lo.  

Logo começaram uma espécie de campanha contra as atividades que desenvolvia, dentro daquela instituição. Diziam que o trabalho que ele fazia devia ser feito por uma assistente social, pessoa qualificada para tanto. Foi então que viu crescer a onda de discriminação que passou a ser racial e declarada, com o objetivo de afastá-lo das suas atividades. Não o queriam na assistência ao pessoal mais carente e por vezes, a família do internado.  

A discriminação vinha principalmente por parte dos funcionários negros que não aceitavam vê-lo naquela função e com um salário maior do os outros.

Em 1987 filiou-se no PT de Cruzeiro. Na época o Partido trabalhava na fundação de núcleos de base e o PT aqui na cidade, era uma Comissão Provisória. Somente em 1988 é que passou a ser Diretório.  

Na reunião de formação do 1º Diretório foi indicado para ocupar uma vaga  no Conselho de Ética, mas seu nome foi excluído porque não viam nele “o potencial” para exercer essa função. Sentia a discriminação dentro do partido. Na verdade, da mesma forma que tentavam desmotivá-lo no Sanatório tentavam agora afastá-lo das atividades político-partidárias. 
 
Mas não desisti. Continuei fazendo o trabalho Social. Um dia, foi convidado para organizar um bloco carnavalesco na Vila Brasil o Bloco “Olha nóis Aí”, e depois organizou o”O Escondidinho”, no ano seguinte foi a vez do “Bloco dos Desempregados”, passando a trabalhar com o Tarcísio Leite e sua esposa na época, a Sra. Mara. Os Blocos foram premiados. Receberam medalhas e um pequeno prêmio em dinheiro que foi consumido no Churrasco, no almoço e jantar do pessoal, isso nos anos 89 a 90.  

Até a época do “Bloco dos Desempregados” eu era desconhecido. Aí fui descoberto por uma pessoa “chata” que começou a me incomodar, insistindo que eu tinha um potencial de liderança e que deveria desenvolver um trabalho social maior, não carnavalesco apenas, mas desenvolver um projeto social mais sério, mais amplo.  

Era 1990. Em Cruzeiro começava o “Movimento em Defesa de Cruzeiro”. Um grupo de pessoas solidárias tentava mobilizar a sociedade. “O Collor havia bloqueado o dinheiro e a conseqüência era o desemprego praticamente em massa, em nossa cidade”.   “Fui convidado para participar das reuniões. O Grupo estava empenhado em achar uma saída alternativa para a crise que atravessávamos. Participei de uma reunião na sede da Associação Comercial e fiquei empolgado. Comecei a acreditar que tinha condição de ajudar as famílias, as pessoas naquele momento”.  

“No término da reunião, na saída, o repórter Anderson Roger veio me entrevistar. Fez algumas perguntas e empolgado com a idéia de um trabalho daquele porte eu falei o que sentia e o que poderia ser feito naquele momento. Era a minha 1ª entrevista na Rádio e devo ter falado alguma coisa que desagradou o grupo dirigente”.  

“Ficaram insultados por eu dar aquela entrevista. Foi quando a Maria Helena dirigindo-se a mim, fez severas críticas por eu estar falando na rádio. O discurso dela acabou com a minha empolgação, me desanimou.  Completa José Roberto, dizendo que passou a fugir, a se esconder daquela “chata” que não desistia de incomodar, cobrando uma postura de liderança e o início de um projeto social que fosse desenvolvido ao menos no bairro onde morávamos. Diante da condição de pobre, negro sem diploma de nível superior, não queria assumir nenhuma responsabilidade”. 

“Resolvi aceitar um trabalho em Campos do Jordão e fui para lá. Depois da discriminação que havia sofrido no Sanatório e do talento desmotivador da Maria Helena, não queria mais ouvir falar em Social.”   

Quando José Roberto voltou de Campos do Jordão a “chata” já estava desenvolvendo um projeto de assistência ao desempregado na Vila Brasil e colocava o nome dele como coordenador do Grupo que passou a ser conhecido como “Grupo Ação Comunitária da Vila Brasil”.  

Para sua surpresa, toda a imprensa estava em sua casa, a sua espera: o pessoal da Folha e do Estado de São Paulo, além de repórteres da Globo. Queriam saber sobre a feira de artesanato montada na Praça 9 de Julho, onde estavam sendo vendidos doces em compotas, pães, artesanato e brinquedos confeccionados pelos desempregados que passaram a integrar o Grupo de Ação Comunitária.  

Não havia mais como fugir. Teve que responder aos repórteres e assumir a posição de coordenador. Na verdade, achava que não podia decepcionar a “chata” que acreditava nele. Rindo da insistência, José Roberto resolve dizer o nome da “chata”:  Naida Cortez.  

O que aconteceu depois, foi muito trabalho. Horas de sono mal dormido e um desenrolar de atividades e responsabilidades que fizeram arquivar no passado as dores e a insegurança decorrente das inúmeras discriminações raciais que sofreu. Não havia mais tempo para lembrar do “tal” discurso da Maria Helena que tentava colocar - “José Roberto” no “seu” devido lugar -.  

Rindo da situação, repete inconformado que sua maior surpresa foi quando os repórteres foram até ele para saber do projeto do Grupo Ação Comunitária. Lembra que no primeiro momento o Grupo compunha-se de alguns amigos e vizinhos: José Roberto dos Reis, Bebeth – Maria Elisabeth, sua esposa -, Virgínia, Maria Isabel, Georgina, Regina, Eunice, Mara, Oswaldo, e mais a rapaziada do bloco que acabou chegando para ajudar a montar as barracas da quermesse.  

Diz que a partir daquele momento se sentiu gente. Viu que podia realmente contribuir para melhorar um pouco a comunidade e a vida daqueles desempregados que como ele, dependiam do salário, e que tiveram menos sorte, ao serem demitidos.  

Assim, com o incentivo do Grupo o projeto começou a ser desenvolvido. Feiras em três bairros, atendimento ao carente com remédios, cestas básicas, instalações e reparos de encanamento e eletricidade para os mais necessitados, que não sabiam fazer os reparos e não podiam pagar pelo serviço. Contas de água e luz atrasadas que eram pagas com a arrecadação das quermesses e almoços servidos nos fins de semana. Até arrumar defunto em caixão e enterro foi feito pelo Grupo.  

Feira da barganha, bingos e bazar da pechincha. Fizemos de tudo para levantar fundos. Até que vimos a necessidade de ter um registro, acreditávamos que isso facilitaria o nosso trabalho; então, fomos lutar na justiça para conseguir abrir eleições e concorrer com uma chapa, para a Associação de Amigos de Bairro da Vila Brasil, a Savibras, que ele acabou presidindo por longos e exaustivos quatro anos.Lembra emocionado.  

José Roberto da Costa presidiu a Savibras de 1990 a 1994. Em 1995 participou da criação do Grupo Cultural Seguidores de Zumbi, criando e construindo o marco dos 300 anos de Zumbi, na Praça Antero Neves Arantes, com o João do PT (o pedreiro) e o Oswaldo Paes, dando início ao Movimento Afro de Cruzeiro.  Em 1996 ainda com Oswaldo Paes, iniciou a campanha do “Natal Sem Fome” que organiza até hoje. Campanha que em 2006 completou 11 anos.

Em 1997 participou da criação da Unic – União Cruzeirense para Apoio Social e Desenvolvimento da Cultura, entidade da qual foi Presidente e até hoje ocupa um cargo na Diretoria. Em 2001 foi eleito presidente do PT de Cruzeiro. Em 2007 é designado Assessor de Gabinete na Câmara Municipal de Cruzeiro, devendo, em breve, voltar a Presidir o PT/ Cruzeiro, já que conta com o apoio da grande maioria dos petistas militantes.  

Com uma extensa folha de trabalhos prestados a comunidade, José Roberto é um exemplo de resistência, de persistência e dedicação ao partido político.  Lembra dos primeiros anos escolares, quando era desmotivado a estudar pelas dificuldades financeiras: A falta de livros, cadernos e lápis que o assombrava era apenas um agravante para a condição de negro discriminado pelos colegas de classe e por professores.  

Fala de Monteiro Lobato, das histórias que conheceu nos bancos escolares e faz referência ao livro que não podia comprar e que até hoje não comprou. Tinha um sonho: Trabalhar numa “venda”, num armazém para fazer conta e depois colocar o lápis atrás da orelha, como era costume “antigamente”.  

Mas sempre diziam pra ele que negro não estuda porque não precisa. Vai acabar varrendo rua ou fazendo qualquer outro serviço assim. Que “lugar de negro” não é atrás do balcão com o lápis na orelha! No entanto, queria mais da vida. Confessa admiração por Lamarca, um homem notável pela coragem de transgredir e viver conforme suas convicções.  

Diz que teve sua época de rebeldia, mas que passou quando encontrou seu espaço na sociedade. Hoje, é capaz de entender porque alguns se tornam bandidos, outros subversivos. A sociedade esmaga quem mais precisa de apoio. Discrimina o negro, o pobre e não oferece nenhuma oportunidade. Pra não desviar e sair da linha é preciso ser firme. “Eu tive sorte de ter tido um pai trabalhador, e amigos que confiaram em mim”. Afirma:“Se não fosse isso, não sei o que teria sido, no que teria me transformado”.  

José Roberto terminou a entrevista sorrindo, agradecendo a pequena coleção de livros que ganhou. Justamente aqueles que até hoje não havia comprado; que fizeram tanta falta na escola; que motivou a ironia dos colegas que lhe perguntavam cinicamente: - “Pra que um negro quer estudar?” Passados cerca de 30 anos, finalmente, o “passista” José Roberto da Costa, que confessa ser o carnaval o único momento de glória para o negro brasileiro, tem as obras que tanto quis: a coleção “Iniciação a Ciências”.   





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